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sábado, 16 de maio de 2015

As grandes lições do terremoto do Nepal

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/542604-as-grandes-licoes-do-terremoto-do-nepal


As grandes lições do terremoto do Nepal

Todo o mundo sabia há anos que quando um terremoto sacudisse o Nepal, localizado em uma das zonas sísmicas mais ativas do sul da Ásia, a quantidade de mortos e os danos seriam descomunais. “Estima-se que as perdas humanas, só no vale de Katmandu, no caso de um evento sísmico importante, serão catastróficas”, alertou Mahendra Bahadur Pandey, ministro de Assuntos Exteriores do Nepal, na Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Redução do Risco de Desastres, realizada em março na cidade japonesa de Sendai.
A reportagem é de Amantha Perera, publicada por Envolverde, 13-05-2015.
Apenas algumas semanas depois, em 25 de abril, houve o terremoto de 7.8 graus de magnitude. Mais de 8.500 pessoas foram declaradas mortas, enquanto centenas continuam desaparecidas. As autoridades temem que o saldo de mortes aumente nos próximos dias. Mais de 17.500 pessoas estão feridas e 10 hospitais ficaram completamente destruídos, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Dos 27 milhões de habitantes do país, cerca de oito milhões, principalmente nas regiões ocidental e central, são vítimas do desastre.
As cidades maiores, como Katmandu e Pokjhara, foram muito afetadas. Nas 72 horas após o terremoto mais de meio milhão de pessoas fugiram da capital para zonas periféricas. O Nepal luta para atender as necessidades de uma população assediada e assustada, que resistiu à inúmeras réplicas do sismo na semana posterior ao terremoto.
Centenas de famílias continuam vivendo em barracas de campanha, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) solicitou fundos para a ajuda alimentar de emergência destinada a cerca de 3,5 milhões de pessoas. Os médicos atendem os pacientes na rua. A OMS destinou US$ 1,1 milhão ao pessoal e suprimentos médicos e já tratou de 50 mil pacientes nos 14 distritos mais gravemente afetados.
Mas, há um limite para o que podem fazer as agências de ajuda e os países doadores, e os especialistas consideram que o governo não está preparado para assumir a maior parte dos esforços de recuperação. “Trata-se de uma enorme operação de ajuda, provavelmente a maior que já realizamos na região”, afirmou à IPS Orla Fagan, porta-voz do escritório regional doOCHA em Bancoc, na Tailândia. A reconstrução a longo prazo poderia custar até US$ 5 bilhões, e as agências da ONUinformaram nos últimos dias que necessitam de pelo menos US$ 415 milhões para a ajuda imediata e nos próximos três meses.
Fagan explicou que, como a ameaça era conhecida, o Nepal havia alcançado antes do terremoto certo grau de coordenação e preparação em caso de desastres, sobretudo com relação à formação e sensibilização das pessoas. “Houve coordenação entre governo e as agências da ONU, mas em escala muito pequena. Deve-se compreender que esse é um dos países mais pobres do mundo e os recursos são extremamente escassos”, acrescentou a porta-voz.
Nepal está na lista de países menos adiantados e ocupa o 145º lugar entre 187 países no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. Também tem uma dívida superior a US$ 3,8 bilhões com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Asiático de Desenvolvimento. Em 2014 o governo destinou mais de US$ 217 milhões para o pagamento dessa dívida, alguns recursos teriam sido essenciais para melhorar seus sistemas de preparação e gestão de desastres. 
Apesar do risco real de sofrer terremotos, chuvas torrenciais, deslizamentos de terra e transbordamento de lagos glaciais, suas políticas de resposta em caso de desastre continuam sendo regidas pela Lei de Ajuda Diante das Calamidades Naturais de 1982. O parlamento ainda não ratificou um projeto de lei de 2008 que prevê a criação de uma Autoridade Nacional de Gestão de Desastres. “A esperança agora e que com todos os recursos internacionais e a boa vontade recebidos o Nepal possa construir uma política e um mecanismo de preparação para os desastres naturais mais forte”, ressaltou Fagan.
“Em primeiro lugar, os fundos devem ser usados para as intervenções de recuperação”, recomendou SI Arambepola, diretor do Centro Asiático de Preparação para os Desastres, em Bancoc. “Mas uma parte dos fundos deve ser empregada para desenvolver um mapa do caminho para um Nepal que seja resistente aos desastres”, acrescentou.
“O documento também identificaria as funções e responsabilidades de diversas agências governamentais na aplicação, assegurando que o governo inicie um plano de longo prazo para a redução do risco de desastres com o apoio da comunidade de desenvolvimento”, disse o especialista à IPS. Esse documento especificaria quais divisões emitiriam os alertas, quais as difundiriam e quais seriam encarregadas das evacuações, por exemplo.
Arambepola acredita que o Nepal poderá aprender com seus vizinhos que também experimentaram desastres naturais. “O Nepal deve seguir o exemplo de outros países do sul da Ásia, como ÍndiaPaquistão e Sri Lanka, para desenvolver a política, os marcos jurídicos e o marco institucional para a redução do risco de desastre”, apontou.
Sri Lanka, em particular, é um bom exemplo porque em 2004 teve uma crise semelhante, totalmente sem preparação para enfrentar a devastação do tsunami asiático que deixou o saldo de 35 mil mortes, mais de um milhão de pessoas sem lar e um custo de reconstrução superior aos US$ 3 bilhões.
O ex-secretário do Ministério de Gestão de Desastres do Sri Lanka, SM Mohamed, assegurou que o tsunami os obrigou a “despertar” porque desatou os esforços do governo e da sociedade civil para que o país nunca mais estivesse em uma situação de guarda baixa. O caminho para uma gestão melhor e uma preparação mais sólida nem sempre foi tranquilo, mas o Sri Lanka avançou muito desde aquele fatídico dia, e uma das medidas foi a criação do Centro de Gestão de Desastres (CGD).
Este organismo se converteu no principal centro nacional para a preparação em caso de desastres, bem como na agência pública central para a coordenação do socorro e alertas. Conta com escritórios nos 25 distritos do país cujo pessoal está preparado para se deslocar a qualquer momento. Em abril de 2012 o CGD dirigiu a evacuação de mais de um milhão de pessoas da costa, devido a uma ameaça de tsunami.

sábado, 4 de outubro de 2014

Aumenta a tensão entre o Governo e os manifestantes em Hong Kong

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/535821-aumenta-a-tensao-entre-o-governo-e-os-manifestantes-em-hong-kong

Aumenta a tensão entre o Governo e os manifestantes em Hong Kong

Os estudantes que encabeçam as manifestações por mais democracia e os governos de Pequim e Hong Kongendureceram suas posturas nesta quinta-feira e, com isso, aumenta o clima de tensão. Frente à ameaça dos líderes dos protestos de aumentar os atos de desobediência civil e ocupar edifícios oficiais se até a meia-noite o chefe do executivo local, Leung Chun-Ying, não renunciar, a polícia advertiu que não descarta o uso da força se os manifestantes intensificarem sua campanha de mobilização.
A reportagem é de Macarena Vidal Liy, publicada pelo jornal El País, 02-10-2014.
Um porta-voz da polícia de Hong Kong, o superintendente Hui Chun-Tak, assegurou que farão o “uso apropriado da força” se a situação piorar. “Reafirmamos que a polícia não vai tolerar nenhum bloqueio ilegal dos edifícios oficiais”, advertiu. Os organizadores dos protestos pediram que famílias com crianças abandonem a área de concentrações, enquanto que os agentes transferiram para a sede da Administração autônoma caixas com o que parece ser, segundo imagens que circulam nas redes sociais, material para enfrentar os distúrbios.
Enquanto isso, um porta-voz do Executivo pediu que as dezenas de milhares de manifestantes dissolvessem a concentração. Depois de dois dias festivos, na sexta será retomado o trabalho e mais de 3.000 funcionários tentarão chegar a seus postos de trabalho no complexo governamental, bloqueado pelos protestos. Se os funcionários da administração não puderem entrar, “isso afetará a ordem pública e o fornecimento de serviços aos cidadãos”, assegurou o porta-voz governamental.
Pequim também subiu o tom contra os protestos. Os meios oficiais advertiram que se as manifestações continuarem, poderiam causar o “caos” na cidade. O jornal oficial do Partido Comunista da ChinaO Diário do Povo, adverte em um editorial publicado esta quinta que “o Governo central continuará apoiando de maneira firme e inflexível as medidas legais e as políticas que adotem de acordo com a lei, (o chefe do governo local) Leung e a polícia autônoma contra estes protestos ilegais”.
O editorial acusa os manifestantes de se comportarem de maneira “egoísta”, um dos piores insultos de acordo com a maneira de pensar na República Popular chinesa.
O comentário do jornal chega depois de que o próprio ministro de Assuntos Exteriores chinês, Wang Yi, que visita os EUA para participar da Assembleia Geral da ONU, advertiu contra qualquer possível ingerência estrangeira na situação. “Os assuntos de Hong Kong são assuntos internos chineses. Esperamos que os países respeitem a soberania chinesa”, declarou Wang na quarta-feira antes de se reunir em Washington com o secretário de estado norte-americano, John Kerry. O ministro também qualificou as mobilizações em Hong Kong de “atos ilegais”. “Nenhum país, nenhuma sociedade permitiria estes atos ilegais que violam a ordem pública”, sustentou.
Os manifestantes exigem a renúncia de Leung como um primeiro passo necessário antes da realização de uma reforma eleitoral que permita a celebração de comícios sob sufrágio universal e com livre designação de candidatos, o objetivo principal. Até o momento, o sistema eleitoral é de sufrágio indireto muito limitado.
Pequim tinha prometido introduzir o sufrágio universal na ex-colônia britânica nas eleições de 2017. Mas em 31 de agosto apresentou uma reforma que, apesar de reconhecer o voto para todos, impõe uma série de normas para a indicação de candidatos implicando que, segundo os manifestantes, qualquer aspirante que se apresente terá que contar com a aprovação prévia do Governo central.
Embora até o momento tenha se limitado a esperar e ver, sem intervir diretamente em Hong Kong, o Governo central declarou expressamente seu apoio a Leung. E também deteve simpatizantes no território da China continental que tinham expressado de alguma maneira seu apoio aos manifestantes em Hong Kong, segundo denunciou a organização China Human Rights Defenders.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Foto do dia - hong kong em luto de branco

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/535489-fotos-do-dia-23-09-2014


Foto do dia

Em Hong Kong, milhares de estudantes vestidos de branco (sinal de luto na China) manifestam-se pela democracia. Iniciou-se, nesta segunda-feira, dia 22-09-2014, uma semana de novas greves e manifestações contra o autoritarismo do governo de Pequim, acusado de ter renegado o compromisso de 1997 de garantir à ex-colônia britânica um sistema plenamente democrático.
Foto: Lam Yik Fei/Getty Images
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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pregnant Pakistani woman stoned to death by family

guardian
http://www.theguardian.com/world/2014/may/27/pregnant-pakistani-woman-stoned-to-death?CMP=EMCNEWEML6619I2


Pregnant Pakistani woman stoned to death by family

'Honour killing' in broad daylight outside Lahore high court involved father and brothers, police say
Police collect evidence near the body of Farzana Iqbal outside the Lahore high court building
Police collect evidence near the body of Farzana Parveen outside the Lahore high court building. Photograph: Reuters
A pregnant woman was stoned to death by her own family in front of a Pakistani high court on Tuesday for marrying the man she loved.
Nearly 20 members of the woman's family, including her father and brothers, attacked her and her husband with batons and bricks in broad daylight before a crowd of onlookers in front of the high court of Lahore, the police investigator Rana Mujahid said.
Hundreds of women are murdered every year in Muslim-majority Pakistanin so-called " honour killings" – carried out by husbands or relatives as a punishment for alleged adultery or other illicit sexual behaviour – but public stoning is extremely rare.
Mujahid said the woman's father has been arrested for murder and that police were working to apprehend all those who participated in the "heinous crime".
Another police officer, Naseem Butt, identified the slain woman as Farzana Parveen, 25, and said she had married Mohammad Iqbal against her family's wishes after being engaged to him for years.
Her father, Mohammad Azeem, had filed an abduction case against Iqbal, which the couple was contesting, her lawyer Mustafa Kharal said. He confirmed that she was three months pregnant.
Arranged marriages are the norm among conservative Pakistanis, who view marriage for love as a transgression.
The Human Rights Commission of Pakistan, a private group, said in a report last month that some 869 women were murdered in "honour killings" in 2013.
But even Pakistanis who have tracked violence against women expressed shock at the brutal and public nature of Tuesday's killing.
"I have not heard of any such case in which a woman was stoned to death, and the most shameful and worrying thing is that this woman was killed in front of a court," said Zia Awan, a prominent lawyer and human rights activist.
He said Pakistanis who commit violence against women are often acquitted or handed light sentences because of poor police work and faulty prosecutions.
"Either the family does not pursue such cases or police don't properly investigate. As a result, the courts either award light sentences to the attackers, or they are acquitted," he said.
Parveen's relatives had waited outside the court, which is located on a main downtown thoroughfare. As the couple walked up to the main gate, the family members fired shots in the air and tried to snatch her from Iqbal, her lawyer said.
When she resisted, her father, brothers and other relatives started beating her, eventually pelting her with bricks from a nearby construction site, Iqbal said.
Iqbal, 45, said he started seeing Parveen after the death of his first wife, with whom he had five children.
"We were in love," he told the Associated Press. He alleged that the woman's family wanted to swindle money from him before marrying her off.
"I simply took her to court and registered a marriage," infuriating the family, he said.
Parveen's father surrendered after the incident and called the murder an "honour killing", Butt said.
"I killed my daughter as she had insulted all of our family by marrying a man without our consent, and I have no regret over it," Mujahid, the police investigator, quoted the father as saying.
Mujahid said the woman's body had been handed over to her husband for burial.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

“O senhor vai atirar em mim?”

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http://outraspalavras.net/blog/2014/04/09/em-uma-guerra-nao-se-matam-milhares-de-pessoas/

“O senhor vai atirar em mim?”

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Coletivo artístico global e comunidades paquistanesas criam imagem de vítima de drone que, vista de satélite, expõe horror da guerra tecnológica
Por Cibelih Hespanhol
Christian Boltanski, artista francês, uma vez disse: “em uma guerra não se matam milhares de pessoas. Mata-se alguém que adora espaguete, outro que é gay, outro que tem uma namorada. Uma acumulação de pequenas memórias…”.
Na chamada “guerra ao terror”, no Paquistão, matam-se milhares de pessoas. Segundo a revista Rolling Stone, o Exército norte americano já possui até mesmo um apelido para uma de suas principais ferramentas no combate. Os drones, ataques feitos com aviões não tripulados, são chamados de “bug splat” – inseto esmagado. A leviandade em se equiparar vidas humanas com insetos amassados pode ser um eficaz artifício para dissimular aos próprios militares a dimensão de seus atos. Para que se lembrem que não são insetos, mas milhares de pessoas; e ainda, que não são milhares de pessoas, mas “uma que adora espaguete, outra que é gay, outro que tem uma namorada…”, o coletivo de arte Inside Out Movement bolou uma ação. No projeto intitulado “Not a bug splat” colocaram um retrato gigante de uma criança estendido sobre o solo da região noroeste do país.
Agora, o operador dos ataques com drones não vê em sua tela um vasto território onde não é possível identificar uma acumulação de pequenas memórias, mas um retrato no qual uma menina de cabelos curtos sustenta um olhar difícil de corresponder. O retrato é grande o suficiente para ser visto por satélites e aparecer em sites de mapeamento. E o local onde está, na fronteira com o Afeganistão, é alvo majoritário dos ataques norte americanos – apontado como região onde se reúnem forças que colaboram com o talibã e organizações terroristas. [Cabe aqui uma pequena grande nota: um levantamento chamado “Out of sight, out of mind” confirmou que, apesar dos muitos ataques realizados desde 2004, apenas 1,5% dos casos possuíam verdadeira ligação terrorista].
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Enquanto isso, o rosto do retrato também tem sua história. Apesar de não se saber o nome da menina que nos encara em seus grandes olhos, sabe-se que seus pais e irmãos também morreram nos ataques. Em toda a região, já foram mortas pelos bugs splats mais de 3 mil pessoas. Algumas adoravam espaguete, outras eram gays, outras tinham uma namorada.
As crianças se reúnem em torno do cartaz
As crianças se reúnem em torno do cartaz

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Política e ideologia na China contemporânea

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Politica-e-ideologia-na-China-contemporanea/6/29843


Política e ideologia na China contemporânea

Gruas e guindastes representam mais a China de hoje do que a foice e o martelo. São esses os grandes símbolos nacionais na atualidade.


Vinicius Wu
Arquivo

A política chinesa é um dos maiores enigmas do mundo contemporâneo. A vitalidade e a estabilidade do regime comunista, duas décadas após a falência de seus congêneres do Leste Europeu, seguem intrigando analistas e observadores de diferentes países e vertentes ideológicas. As questões levantadas a seguir pretendem refletir sobre a estrutura política que, afinal, dará suporte àquela que será, em breve, a maior economia do planeta. 

Especular sobre o presente e o futuro da nação de 1,3 bilhões de seres humanos é algo tão tentador quanto necessário - ao menos para aqueles que se preocupam com a compreensão do mundo no qual vivemos. Mas, de antemão, é preciso reconhecer que se trata de um terreno arriscado, afinal, a desinformação a respeito da realidade chinesa segue contribuindo para a reprodução de uma série de estereótipos em torno de diagnósticos pouco precisos no Ocidente. Além disso, a experiência nos ensina que análises a respeito da estabilidade de um determinado regime político devem ser cautelosas e pacientes. A história costuma ser bastante irônica com avaliações marcadas por assertivas definitivas e certezas irrevogáveis. 

Consideradas essas premissas, é possível iniciar nosso raciocínio a partir da constatação de que o discurso de legitimação do regime transitou, nos últimos anos, do comunismo ao nacionalismo, perfazendo um caminho, aparentemente, sem volta. O partido comunista da China esforça-se, cada vez mais, em ser o partido "da" China. 

A mobilização do orgulho chinês está diretamente relacionada à outra fonte fundamental de legitimação do regime que é a euforia diante do êxito econômico da China nas últimas décadas.

De tudo aquilo que se pode observar na China contemporânea, talvez nada parecerá tão óbvio quanto o fato do crescimento e da prosperidade terem se tornado dois dos pilares fundamentais da manutenção da hegemonia do Partido Comunista. Os dirigentes do partido sabem o quanto a satisfação das necessidades materiais dos chineses está diretamente relacionada à estabilidade política do país e, sob esse aspecto, o sistema tem sido extremamente eficiente.

Crescer, enriquecer e ir além do que já conquistaram - enquanto nação ou indivíduos - parece ter se tornado uma verdadeira obsessão nacional. Por toda parte, observa-se uma frenética corrida em direção ao crescimento, apoiado, principalmente, em pesados investimentos em infraestrutura, na expansão da indústria automobilística e na construção civil. Gruas e guindastes representam mais a China de hoje do que a foice e o martelo. São esses os grandes símbolos nacionais na atualidade. 

Porém, os constrangimentos à manutenção do atual modelo são visíveis aos olhos do mais distraído observador que caminhe pelas imensas ruas e avenidas da nova China. A saturação das grandes cidades chinesas e o crescimento sustentado por uma matriz energética altamente dependente de carvão e petróleo fez com que alguns dos grandes conglomerados urbanos se transformassem num perturbador pesadelo ambiental. 

A sensação que temos ao caminhar pelas ruas de cidades como Beijing, Wuhan ou Xangai nos remete a cenários de filmes de ficção científica da década de oitenta. Quase não se enxerga o céu e o sol nos dias de maior intensidade da poluição atmosférica, e isso pode durar semanas ou até meses. Obviamente, no entanto, que a situação encontra correspondência em diversas outras cidades do mundo, como a Cidade do México, São Paulo, dentre tantas outras. Não se trata de nenhuma exclusividade dos chineses. 

De fato, a qualidade de vida nestes centros urbanos tem se deteriorado, ampliando a incidência de doenças respiratórias e outras patologias. O estresse e os transtornos de um trânsito dominado pelo automóvel individual são visíveis a qualquer hora do dia e a qualquer dia da semana, inclusive aos domingos.

Além dos problemas ambientais e urbanos, a nova China também expõe, de forma dramática, as profundas contradições originárias de seus novos padrões de acumulação. A desigualdade social e a concentração de renda são reforçadas - e amplificadas - por uma nova elite exibicionista e hedonista, que começa a constranger o próprio regime com suas extravagâncias. 

E, apesar de toda a expansão econômica dos últimos anos, o regime chinês não tem sido capaz de impedir nem mesmo que a miséria chegue às portas da grande praça Tiannamen, no coração de Beinjing. Moradores de rua abrigam-se, durante a noite, nos mesmos corredores que nos levam aos portões da Cidade Proibida, onde o imponente retrato de Mao Zedong parece ser a única herança de um passado marcado pelo culto à personalidade do grande arquiteto da Revolução Chinesa. Há de se reconhecer, porém, que a miséria em Beijing é bem menor do que em outras grandes cidades do mundo ocidental. 

Os desafios da China parecem tão grandiosos quanto sua história, sua cultura e seu povo. Ao contrário do que se poderia supor em uma avaliação mais superficial, a elite política do regime parece bem consciente da complexidade de seus problemas e da necessidade de agir de forma contundente. É neste ponto que reside uma das maiores fragilidades de boa parte das análises ocidentais sobre a China que, além de transportarem mecanicamente conceitos completamente estranhos a uma civilização milenar, costumam ser carregadas de pré-conceitos e conclusões precipitadas sobre a elite política que governa o país. 

Dessa forma, cumpre ocuparmos algumas linhas para assinalar nossa impressão de que a China possui um regime autoritário e não uma ditadura e que, além disso, os dirigentes do Partido Comunista têm demonstrado uma enorme capacidade em absorver as aspirações de sua complexa sociedade, o que, em grande medida, explica a permanência do regime. Os quadros políticos do PC Chinês debatem e falam abertamente sobre os problemas do país. Isso não ocorre numa ditadura, o que a China, de fato, não é. Esse é um dos elementos a explicar a manutenção do regime de partido único comunista da China. 

O regime de Beijing certamente não é uma democracia de tipo ocidental, mas também não estamos tratando de uma ditadura hermética, baseada exclusivamente na força e na coerção de sua população. Esse é um elemento fundamental à compreensão da China contemporânea. Afinal, mesmo um regime autoritário está sujeito a pressões que emergem da sociedade e se vê obrigado a formar alguns consensos em torno dos quais pode organizar sua dominação.
O Partido Comunista Chinês tem demonstrado uma enorme capacidade em se adaptar a mudanças, em absorver demandas que emergem de fora do establishment, em incorporar a seu discurso novos elementos e até mesmo novas visões de mundo. Essa característica - que é uma das grandes virtudes do regime - é sistematicamente desconsiderada por parte expressiva das análises ocidentais, que buscam apenas enquadrar a China em seus esquemas de interpretação da realidade. 

Os comunistas chineses, portanto, estão debatendo e agindo sobre os mesmos temas que os ocidentais veem como ameaças potenciais ao predomínio do PCCh.
Impressiona, por exemplo, a atenção que o regime dispensa atualmente à juventude. Percebe-se não apenas novos quadros ocupando posições-chave na economia e na estrutura política do país, como também uma preocupação explícita em manter os jovens, de todos os segmentos sociais, ocupados em diversas funções. Sem muito esforço o estrangeiro poderá perceber uma grande quantidade de jovens empregados em atividades aparentemente desnecessárias em hotéis, empresas e outras atividades. Trata-se de uma estratégia política deliberada e com forte impacto social.

A imagem da burocracia estatal chinesa em nada se parece com a daquelas gerontocracias características de regimes como o da Coréia do Norte. Jovens estão presentes em posições chave na economia e na administração pública, tornando explícita a enorme capacidade do sistema político chinês em renovar-se e formar novas elites.

Outro desafio que os comunistas chineses buscam enfrentar é o de seu imenso passivo ambiental. A China já é o país que mais investe em energias renováveis no mundo e há esforços, visíveis por toda parte, que buscam mitigar os danos ambientais de indústrias e veículos automotores. O combate à corrupção se tornou um tema debatido abertamente pela sociedade chinesa. Xi Jinping tem sido, ele próprio, o líder de uma cruzada do Partido Comunista contra a corrupção de seus dirigentes, em especial, nas províncias mais afastadas. 

Por fim, o regime age explicitamente para manter a coesão do país com base num processo de inclusão social que pode, perfeitamente, ser considerado o maior da história da humanidade. Estima-se que 500 milhões de chineses adentraram a sociedade de consumo nas últimas décadas e o regime pretende incluir, ainda, algo em torno de duzentos milhões de chineses. A preocupação em manter níveis de crescimento que assegurem a sequência desse processo é o grande desafio do PC Chinês nas próximas décadas.

Portanto, crescimento, orgulho nacional e prosperidade compõem o tripé da nova ideologia chinesa, através do qual o Partido Comunista busca assegurar sua legitimidade. Talvez a grande aposta dos comunistas seja a manutenção de um sistema "eficiente" do ponto de vista da satisfação das necessidades de seu povo, como forma de assegurar sua legitimidade e hegemonia. 

Para promover sua grande reforma, Deng Xiaoping precisou declarar que "socialismo não é miséria" e que enriquecer era glorioso. O pragmatismo de Deng não apenas salvou a China, como também a alçou à condição de potência economia mundial. Os atuais dirigentes chineses foram formados na mesma escola pragmática. E os resultados obtidos trinta anos após a ascensão de Deng nos levam imaginar o lugar que o Império do Meio ocupará nos próximos trinta. A única certeza é a de que nem o mundo, nem a China serão mais os mesmos. 

(*) Secretário-Geral do governo do Rio Grande do Sul, coordenador do Gabinete Digital.