Mostrando postagens com marcador FDHT poética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador FDHT poética. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de junho de 2013

HINO NACIONAL - drummond

HINO NACIONAL
Carlos Drummond de Andrade

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…
Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Guaraní-kaiowá por Cristhian Espinoza

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=597457906934666&set=np.172506365.723002913&type=1&theater&notif_t=photo_tag

Guaraní-kaiowá

por Cristhian Espinoza
https://www.facebook.com/Cristherian

Soy el guerrero del alba…
Un espejo en que no te reconoces.
La voz de un sueño olvidado,
un pueblo libre, asediado
por tecnología letal,
oscuros siervos del mal
que reducen el aliento a centavos,
los seres humanos a esclavos,
la vida a un juego mortal.


Soy el guerrero del río
y el río lleva una pena,
llora su cauce en las venas
de todos los seres vivos,
llora el ozono, cautivo
del aire, en su espacio ideal,
llora la flor y el camino,
llora la fauna y el trino,
llora la tierra su forma original.


Soy el guerrero del ocaso,
Una verde nación, un latido,
un tucán, un jaguar herido…
La vida en su forma más pura.
Soy el blanco de mentes oscuras,
del mal en su forma humana,
de los siervos del dinero y el vacío…
Mírame, hoy que la sangre llegó al río…
¿Callarás hoy para no ser mañana?


Foto: Save the Amazonas


domingo, 6 de janeiro de 2013

DOM PEDRO CASALDÁLIGA - ano novo 2013

DOM PEDRO CASALDÁLIGA
ano novo 2013


- Sentinela, o que há da noite? 
O que há da crise? 

- De onde perguntas? 
Perguntas desde a fome 
ou desde o consumismo? 
O grito dos pobres 
sacode tuas perguntas? 

Pastores marginais 
cantam a Boa Nova, 
com flautas e silêncios, 
contra os grandes meios, 
os meios dos grandes. 

Nasceu-nos um Menino, 
um Deus nos foi dado. 
É para nascer de novo, 
desnudos como o Menino, 
descalços de cobiça, 
de medo e de poder, 
sobre a terra vermelha. 

É para nascer de novo, 
abertos ao Mistério, 
ungidos de Esperança.


flautist
Andrius Kovelinas
*

- Centinela, ¿qué hay de la noche?
¿Qué hay de la crisis?

- ¿Desde dónde preguntas?
¿Preguntas desde el hambre
o desde el consumismo?
¿El grito de los pobres
sacude tus preguntas?

Pastores marginales
cantan la Buena Nueva,
con flautas y silencios,
contra los grandes medios,
los medios de los grandes.

Nos ha nacido un Niño,
un Dios se nos ha dado.
Hay que nacer de nuevo,
desnudos como el Niño,
descalzos de codicia,
de miedo, de poder,
sobre la tierra roja.

Hay que nacer de nuevo,
abiertos al Misterio,
ungidos de Esperanza.
*

Centinella, què hi ha de la nit?
Què hi ha de la crisi?

Des d’on ho preguntes?
Preguntes des de la fam
o des del consumisme?
El crit dels pobres
sacudeix les teves preguntes?

Pastors marginals
canten la Bona Nova,
amb flautes i silencis,
contra els grans mitjans,
els mitjans dels grans.

Ens ha nascut un Nen,
un Déu se’ns ha donat.
Cal néixer de nou,
nus com l’Infant,
descalços de cobdícia,
de por i de poder,
sobre la terra vermella.

Cal néixer de nou,
oberts al Misteri,
ungits d’Esperança
*

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Doroty Stang - Seis tiros



Doroty Stang - Seis tiros




Não conseguia entender
nunca consegui entender
desde aquele dia miserável quando vi pela TV
seu corpo
O corpo de uma senhora idosa caído na lama
sujo e ensanguentado
o rosto cinza enrijecido
a mão na boca
segurando o grito...
nunca mais andaria
nunca mais brincaria com as crianças sobre os joelhos

Hoje eu consigo entender
ainda que vagamente
porque
deixou seu país e sua segurança
Naturalizou-se brasileira,
foi professora de um seminário e ajudou a construir escolas em Anapu
e a treinar professores
Percorreu boa parte das estradas esburacadas da floresta em sua lambreta,
declarando uma paixão incondicional pela natureza.


Território selvagem
a noite os fazendeiros se reuniram na sala
conversaram
fizeram planos
tomaram medidas
tudo pronto
selaram o futuro
enquanto bebiam e comiam
Cinquenta mil reais

Por: Marcia Lailin
See translation

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Dona Europa e suas filhas

o vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=188640&id_secao=9

Frei Betto
Dona Europa e suas filhas

Dona Europa livrou-se, há séculos, da tutela do Senhor Feudal, ao qual esteve submetida ao longo de mil anos. Cabeça feita por Copérnico, Galileu e Descartes, casou-se com o Senhor Moderno Liberal e montou casa no bairro da Democracia.

Por Frei Betto, em Adital
Dona Europa puxou o tapete dos nobres, deu um chega pra lá no papa e elegeu governos constitucionais que trocaram a permuta pela moeda, evitaram fazer uso de mão de obra escrava, transformaram antigos camponeses em operários merecedores de salários.

Dona Europa passou a nutrir ambições desmedidas. Fitou com olho gordo o imenso mapa-múndi que enfeitava a sala de sua casa. Quantas riquezas naquelas terras habitadas por nativos ignorantes! Quantas áreas cultiváveis cobertas pela exuberância paradisíaca da natureza!

Dona Europa lançou ao mar sua frota em busca de ricas prendas situadas em terras alheias. Os navegantes invadiram territórios, saquearam aldeias, disseminaram epidemias, extraíram minerais preciosos, estenderam cercas onde tudo, até então, era de uso comum.

Dona Europa praticou, em outros povos, o que se negava a fazer na própria casa: impôs impérios, reinados e ditadores; inibiu o acesso à cultura letrada; implantou o trabalho escravo; proibiu a industrialização; internacionalizou normas econômicas que lhe eram favoráveis, em detrimento dos povos alhures.

Um dos povos de além-mar dominados por Dona Europa ousou rebelar-se em 1776, emancipou-se da tutela e se tornou mais poderoso do que ela – o Tio Sam.

O professor Maquiavel ensinou à Dona Europa que, quando não se pode vencer o inimigo, é melhor aliar-se a ele. Assim, ela associou-se a Tio Sam para exercer domínio sobre o mundo.

Dona Europa e Tio Sam acumularam tão espantosa riqueza, que cederam à ilusão de que seriam eternos o luxo e a ostentação em que viviam. Tudo em suas casas era maravilhoso. E suas moedas reluziam acima de todas as outras.

Ora, não há casa sem alicerce, árvore sem raiz, riqueza sem lastro. Para manter o estilo de vida a que se acostumaram, Dona Europa e Tio Sam gastavam mais do que podiam. E, de repente, constataram que se encontravam esmagados sob dívidas astronômicas. O que fazer?

A primeira medida foi a adotada em turbulência de viagem de avião: apertar os cintos. Não deles, óbvio. Mas de seus empregados: despediram alguns, reduziram os salários de outros, deixaram de consumir produtos importados. Assim, a crise da dupla se alastrou mundo afora.

Dona Europa e Tio Sam não são burros. Sabem onde mora o dinheiro: nos bancos. Tio Sam, ao ver o rombo em sua economia, tratou de rodar a maquininha da Casa da Moeda e socorreu os bancos com pelo menos US$ 18 trilhões.

Dona Europa tem várias filhas. Segundo ela, algumas não souberam administrar bem suas fortunas. A formosa Grécia parece ter perdido a sabedoria. Gastou muito mais do que podia. Os mesmo aconteceu com a sedutora Itália, a encantadora Espanha e a inibida Irlanda.

Como o cofre da família é de uso comum, Dona Europa se cobriu de aflições. Puniu as filhas gastadoras e apelou à mais rica de todas, a severa Alemanha, para ajudá-la a socorrer as endividadas.

A Alemanha é manhosa. Disse que só socorre as irmãs se puder controlar os gastos delas. O que significa cortar as asinhas das moças – o que em política equivale a anular a soberania.

Soberana hoje, na casa de Dona Europa, só a pudica Alemanha. O resto da família é dependente e está de castigo. A mais cheirosa das filhas, a França, anda rebelde. Após aparecer de mãos dadas com a Alemanha, agora que arrumou namorado novo encara a irmã com desconfiança.

Nós, aqui do sul do mundo, que ainda não cortamos o cordão umbilical com Tio Sam e Dona Europa, corremos o risco de ficar gripados se Dona Europa continuar a espirrar tanto, alérgica ao espectro de um futuro tenebroso: a agonia e morte do deus Mercado, cujos fiéis devotos mergulharam em profunda crise de descrença.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

eco-ar-te

http://www.livrariarima.com.br/Default.asp?Menu=ProdutoDetalhes&ProdutoID=2255225


Eco-Ar-Te para o Reencantamento do Mundo (ref. 2254090)
MICHÈLE SATO (Org.) - 2011


Descrição

Esta obra, fruto do trabalho de 43 criadores, conta com um conjunto de significações distribuídas por seis poéticas: texto, imagem, paisagem, poesia, som e corpo. E, de fato, considerar a arte é combinar as imagens, objetos, ideias, sonoridades e sentimentos numa relação intrínseca ao domínio da imaginação e da criação. Este livro quer ressignificar nossos olhares, convidando para as trocas de lentes a fim de que a realidade seja percebida de uma maneira diferente. 

O título ´ECO-AR-TE´ foi escolhido por revelar três dimensões que conectaram os autores e, espera-se, tenham ressonâncias em outras pessoas: Ecologismo (eco) e Arte (ar) querendo se prolongar para além de nós mesmos (te). A eco-ar-te quer permitir que as pessoas percebam os fenômenos, as situações, os danos ambientais e as injustiças sociais, num jogo daqueles que não estão habituados a ter vitórias, mas jamais conseguiram perder as esperanças. O desejo é ir além da realidade cruel, resgatando o primitivo, os sonhos e as máscaras.

Sem a pretensão de guiar-se pelas teorias, escolas ou tendências, a proposta desta obra é alçar voos livres celebrando a intuição da arte como significados da Educação Ambiental. Como Michael Lowy, almeja-se uma revolução eco-socialista que aposta na mágica ideia de reencantamento do mundo. Não se trata de uma reinvenção da luz, mas de um jeito diferente de percebê-la. Como diria Lautréamont, é um convite para lançarmos um novo olhar que perceba que a poética da Educação Ambiental deve ser feita por todos. 

A luta ecologista pode ser árdua, mas nada retira dela sua esperança em um mundo mais feliz.


Especificações

360 páginas - 21x28 - Colorido - ISBN 978-85-7656-199-6


Sumário

Prefácio IX

Po-éticas da educação ambiental 2
Michèle Sato

I. POÉTICA DO TEXTO

Carta da Terra 11
Leonardo Boff

Ciência e Cultura 21
Marcos Terena

Educação Ambiental, Sociedade de Risco e o Desafio de Inovar para 
Modificar Práticas Sociais 28
Pedro Roberto Jacobi

Lições da Ciência Natural: A Arte de Aprender no Ambiente e com o Ambiente 35
José Gutiérrez-Pérez

Movimento Artistas pela Natureza (MAPN) 46

Arte Popular: Trilheira para a Arte/Educação/Ambiental 52
Imara Pizzato Quadros

No Fio da Navalha 63
Luiz Antonio Ferraro Júnior

Sonhos de Eduardo 73
Gabriel Felipe Kalb; Ivo Alberto Kalb

Civilização X Barbárie 82
Wladimir Gomide

II. POÉTICA DA IMAGEM

Não Há Regras, Apenas Materiais 87
Burnell Yow

Surrealismo 94
Bernard Dumaine

Surrealismo na Veia de Magritte 100
Flávio Zanelatto; Michèle Sato

Educação Ambiental e Suas Relações com o Universo da Fotografia 108
Martha Tristão; Vitor Nogueira

Arte, Sociedade e Educação Ambiental: Um Reflexo das Organizações 
Sociais, Económicas e Políticas 116
Joaquim Ramos Pinto; Manuela Galante

O Cinismo do Mundo 134
Liete Alves

III. POÉTICA DA PAISAGEM

Crônicas de Viagem 146
Isabel Carvalho

Como Era Verde o Meu Sahel 167
Aidil Borges

A Arquitetura da Floresta 177
Valionel Tomaz Pigatti

Ponte da Misarela 181
Alfredo Mendes

Representaciones Sociales, Cultura y Gestión del Agua: Algunas Notas para el Debate

Sobre Una ¿Nueva Cultura del Agua¿ en América Latina 185
Nidia Piñeyro

As Metáforas da Água e a Mediação entre Natureza e Cultura 196
Vera Lessa Catalão

IV. POÉTICA DO SOM

Madame Butterfly: De Benjamin Franklin Pinkerton a Bush ¿ O Ocidente 
no Banco dos Réus 203
Luiz Augusto Passos

Música Ambiente e Ambiente Musical (em Contraponto) 225
Herman Hudson de Oliveira

V. POÉTICA DA POESIA

Sou Ave Plantada no Céu 234
Gaivota

Poética Ambiental 239
Artur Gomes

Momentos Poéticos 249
Virgínia Fulber; Eliana de Faro Valença

Haikais da Natureza 261
Jiddu Saldanha

A Poética do Cerrado ¿ Uma Antologia de Autores Que Cantaram esta 
Antiga, Rica e Frágil Região Core do Brasil 266
Rômulo Pinto Andrade

Poesia Reunida 284
Pat Mousinho; Ramón Vargas; Ricardo Vicente; Michèle Sato

VI. POÉTICA DO CORPO

Um Extrato de Âmbar Que Atravessa os Séculos 298
Michèle Sato

A Arte de Educar com Bonecos na Educação Ambiental 309
Maria Neuma Clemente Galvão

Escultura e Educação Ambiental 319
Rachel Trajber

Corpo, Mito e Ancestralidade: O Legado do Viajante 325
André Sarturi

Na Voragem do Olhar: Uma Visão Mitopoética dos Elementos 334
Luciana Pessanha Pires

Viagens entre os Mundos 338
Ivan Belém; Michèle Sato

*

ECO-AR-TE


ECO-AR-TE para o reencantamento do mundo
Rima & Fapemat
Michèle Sato, 2011




Eco-ar-te Slideshow: Mimi’s trip from Ilha Grande, Mato Grosso, Brasil to Cuiabá was created by TripAdvisor. See another Cuiabá slideshow. Take your travel photos and make a slideshow for free.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

inácio - dia da árvore


---------- Forwarded message ----------
From: Centro Burnier - Inacio <inacio@centroburnier.com.br>
Date: 2011/9/19
Subject: [DHT_MT] Dia da arvore e Mato Grosso
To: direitoshumanosmt@googlegroups.com

Dia da árvore e Mato Grosso

Mato Grosso? Mato? Árvore? Oh tempo bom que não volta mais. Nem na lembrança, o latifúndio já pôs tudo por terra. Agora é teca, eucalipto, pasto, soja, cana, algodão, regado com muito agrotóxico.


E a resistência da Agroecologia? 

Ah bom tem o Pequi, 
o Baru (cumbaru), 
o Caju, 
Manga, 
Jabuticaba, 
Pitomba, 
Jambolão, 
Bacupari, 

a Fruta de Veado...

Afinal quem pode comemorar o dia da arvore?


Inácio

Gramsci - indiferentes

Fonte:
http://www.marxists.org/portugues/gramsci/1917/02/11.htm


INDIFERENTES
Antonio Gramsci


La Città futura,
11/02/1917, pp. 1.



Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel, acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e de tomar partido. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam frequentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor que as mais sólidas muralhas, melhor que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes os leva a desistir de gesta heroica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói até mesmo os planos mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. Aquilo que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heroico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos.

O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa que se faça, deixa que se enrolem os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa que se promulguem l eis que depois só a revolta fará anular, deixa que subam ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.

A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absenteísmo. Os fatos amadurecem na sombra, poucas mãos, não submetidas a qualquer controle, tecem a teia da vida coletiva, e a massa ignora, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa com isso.

Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; a teia tecida na sombra chega a seu fim, e então parece que é a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um enorme fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que todos se tornam vítimas, os que quiseram e os que não quiseram, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente.

Estes então se zangam, gostariam de eximir-se às consequências, gostariam que ficasse claro que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos se perguntam: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos se culpam pela sua indiferença, pelo seu ceticismo, por não terem dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitar aquele mal, combatiam com o propósito de procurar o tal bem que pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados, prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não porque não vejam as coisas com clareza, e às vezes não sejam capazes de projetar belas soluções para os problemas mais urgentes ou para os problemas que, embora requerendo ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes.

Mas essas soluções permanecem belissimamente infecundas, mas essa contribuição para a vida coletiva não é animada por nenhuma luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente senso de responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também porque suas lamúrias de eternos inocentes me dão tédio. Peço contas a cada um deles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe cotidianamente, pelo que fizeram e sobretudo pelo que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas.

Sou partidário, vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre poucos, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à obra inteligente dos cidadãos.

Ninguém estará à janela a olhar enquanto os poucos se sacrificam, se acab am no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela, emboscado, com a pretensão de usufruir do pouco bem que a atividade de poucos tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado porque não ter conseguido seu intento.

Vivo, sou partidário. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.



BERTOLD BRECHT


Nossos inimigos dizem

Nossos inimigos dizem: 
A luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: 
A verdade está liquidada.
Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: 
Mesmo que ainda se conheça a verdade
Ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgamos.

É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda
De nossos inimigos.

~ BERTOLD BRECHT





ALGUNS DIZEM QUE A LUTA ACABOU
QUE A INJUSTIÇA REINA, IMBATÍVEL... 

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
Nenhuma voz além da dos que mandam.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Quem ainda vive nunca diga: nunca!

O que é certo não está certo
Assim, como está, não ficará.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?

Se a opressão permanece a quem se deve ? A nós.
De que depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!

Quem conhece a situação, por que ficará parado?
Porque os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã
E nunca será: ainda hoje.

~ BERTOLD BRECHT

terça-feira, 6 de setembro de 2011

michèle sato - pomeri


paulo freire

Não é possível refazer este país, democratizá-lo, 
humanizá-lo,
torná-lo sério, 
com adolescentes brincando 
de matar gente, 
ofendendo a vida, 
destruindo o sonho, 
inviabilizando o amor. 

Se a educação sozinha 
não transformar a sociedade, 
sem ela tampouco a sociedade muda.

~ Paulo Freire


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

direito ao delírio - galeano

O direito ao delírio

~ Eduardo Galeano


Está a nascer o novo milénio. Não dá para levar o assunto demasiado a sério: ao fim e ao cabo o ano 2001 dos cristãos é também o ano 1379 dos muçulmanos, o 5114 dos maias e o 5762 dos judeus. Além disso, o novo milénio nasce no primeiro de Janeiro por obra e graça de um capricho dos senadores romanos, que em determinada altura decidiram romper com a tradição que mandava celebrar o ano novo no começo de cada primavera.

A contagem dos anos da era cristã provém ainda de outro capricho: um belo dia o papa de Roma decidiu datar o nascimento de Jesus, mesmo que ninguém pudesse precisar então em que data tinha ele nascido. O tempo ri-se dos limites que inventamos para construirmos a ficção de que ele nos obedece, mas o mundo inteiro celebra e teme essa espécie de fronteira. Milénio vai, milénio vem, a ocasião é, assim, propícia para que oradores de inflamada verve possam perorar acerca do destino da humanidade, e para que os arautos da ira de Deus possam anunciar o fim do mundo. O tempo, esse, lá continua sossegado a sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério. Verdade seja dita, porém, a uma data assim, por mais arbitrária que ela seja, não há quem resista, e ninguém escapa afinal à tentação de tentar saber como será o tempo que será.

Vá-se lá saber porém como será. Possuímos uma única certeza: no século vinte e um, ainda que possamos estar aqui, seremos todos gente do século passado e, pior ainda, seremos gente do passado milénio. Não podemos todavia tentar adivinhar o tempo que será sem que tenhamos, pelo menos, o direito de imaginar aquele que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem senão o direito de ver, de ouvir e de calar. Que tal se começássemos a exercer o nunca proclamado direito de sonhar? Que tal se delirásemos por um pouco? Vamos então lançar o olhar para lá da infâmia, tentando adivinhar outro mundo possível.

No próximo milénio o ar estará limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das humanas paixões. Nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães. As pessoas não serão programadas por computador, nem compradas no supermercado, nem espiadas por televisor. O televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de engomar ou a máquina de lavar a roupa. As pessoas trabalharão para viver, em vez de viverem para trabalhar. Será incorporado nos códigos penais o delito de estupidez, que cometem todos aqueles que vivem para ter ou para ganhar, em vez de viverem apenas para viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca. Em nenhum país serão presos os jovens que se recusem a cumprir o serviço militar. Os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas. Os cozinheiros deixarão de considerar que as lagostas gostam de ser cosidas vivas. Os historiadores deixarão de crer que existiram países que gostaram de ser invadidos. Os políticos não acreditarão mais que os pobres adoram comer promessas. A solenidade deixará de se julgar uma virtude e ninguém tomará a sério nada que não seja capaz de assumir. A morte e o dinheiro perderão os seus poderes mágicos, e nem por disfunção ou por acaso será possível transformar o canalha em cavalheiro virtuoso. Ninguém será considerado herói ou louco só porque faz aquilo que acredita ser justo, em vez de fazer aquilo que mais lhe convém. O mundo já não se encontrará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro caminho senão declarar a falência. A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos. Ninguém morrerá de fome porque ninguém morrerá de indigestão. As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua. Os meninos ricos não serão tratadas como se fossem dinheiro porque não existirão meninos ricos. A educação não será um privilégio apenas de quem possa pagá-la. A polícia não será a maldição daqueles que não podem comprá-la. A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, voltarão a juntar-se, bem unidas ombro com ombro. Uma mulher, negra, será presidente do Brasil e outra mulher, negra também, será presidente dos Estados Unidos da América; uma mulher índia governará a Guatemala, e outra o Peru. Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer em tempos de amnésia obrigatória. A Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés, e o sexto mandamento mandará festejar o corpo. A Igreja ditará também outro mandamento que havia sido esquecido: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". E serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma.

Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são aqueles que desesperaram de tanto esperar e os que se perderam de tanto procurar. Seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham desejo de justiça e desejo de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem as fronteiras do mapa e do tempo. A perfeição continuará a ser o aborrecido privilégio dos deuses, mas, neste mundo imperfeito e exaltante, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.


domingo, 4 de setembro de 2011

Octavio Paz


As massas humanas mais periogosas são aquelas cujas veias foram injetados os venenos do medo...
o medo de mudar!

~Octavio Paz


terça-feira, 30 de agosto de 2011

luther king - silêncio


O que mais preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. 

O que mais preocupa é o silêncio dos bons.

~ Luther King


sábado, 27 de agosto de 2011

che guevara



O verdadeiro revolucionário é guiado 

por grandes sentimentos de generosidade. 

É impossível imaginar um revolucionário autêntico 

sem esta qualidade. 


~ Che Guevara



segunda-feira, 22 de agosto de 2011