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sábado, 4 de abril de 2015

Filme reabre debate sobre perseguição a albinos na Tanzânia

bbc
http://www.bbc.co.uk/news/undefined

ir no site pra ver o trailer

Filme reabre debate sobre perseguição a albinos na Tanzânia

3 abril 2015 Atualizado pela última vez 05:20 (Brasília) 08:20 GMT
O filme White Shadow, co-produção tanzaniana, francesa e alemã dirigida por Noaz Deshe, uma das atrações da última edição de um festival londrino de cinema dedicado a direitos humanos, trouxe à tona mais uma vez o drama em torno da perseguição a albinos na Tanzânia.
O longa retrata a vida de um garoto albino que foge da zona rural do país para deixar de ser perseguido, mas não encontra uma realidade muito diferente na cidade grande.
Além do preconceito, uma crença brutal ainda presente no país diz que partes dos corpos dos albinos podem trazer riquezas e boa sorte.
Os produtores do filme dizem ter esperança de que a obra lance luz sobre o problema.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Vírus do ebola pode ter ficado mais contagioso, advertem cientistas

bbc
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150129_ebola_mutacao_lab


Vírus do ebola pode ter ficado mais contagioso, advertem cientistas

  • 29 janeiro 2015
Foto: BBC
Mais de 600 amostras de sangue de pacientes da Guiné serão analisadas
Cientistas que acompanham a evolução do surto de ebola na Guiné dizem que o vírus sofreu uma mutação e pode ter se tornado mais contagioso.
Mais de 22 mil pessoas foram infectadas com o ebola e 8.795 morreram na Guiné, Serra Leoa e Libéria.
Pesquisadores do Instituto Pasteur, na França - os primeiros a identificar a epidemia, em março -, começaram a analisar centenas de amostras de sangue de pacientes de ebola. Eles monitoram as mutações do vírus e tentam descobrir se o ebola está sendo transmitido mais facilmente de pessoa para pessoa.
"Sabemos que o vírus está mudando bastante", disse à BBC o geneticista Anavaj Sakuntabhai. "Isso é importante para o diagnóstico (de casos novos) e para o tratamento. Precisamos saber como o vírus (está mudando) para fazer frente ao nosso inimigo."
Mutações em vírus ao longo do tempo não são incomuns. O ebola é um vírus de RNA - como o HIV e a influenza (gripe) - que têm uma elevada taxa de mutação. Isso o torna mais apto a se adaptar e aumenta o potencial de contágio.
"Identificamos vários casos que não têm nenhum sintoma, casos assintomáticos", disse Sakuntabhai.
"Essas pessoas podem ser as que mais transmitem o vírus, mas ainda não sabemos. Um vírus pode passar por uma mutação e se tornar menos mortal mas mais contagioso - isso é algo que nos deixa com medo."
Credito: Getty
Epidemia de Ebola já matou quase 9 mil pessoas nos países mais afetados

'Questão de números'

Mas a maior incidência de pacientes assintomáticos no atual surto de ebola não é necessariamente uma prova conclusiva de que o vírus se tornou mais contagioso, diz o professor Jonathan Ball, virologista da Universidade de Nottingham.
"Poderia ser simplesmente um jogo de números: quanto mais infecções na população em geral, obviamente veremos mais infecções assintomáticas", argumenta.
Outra preocupação é que, com mais mais tempo e mais "anfitriões" para se desenvolver, o ebola sofra mutações que lhe permitam ser transmitido pelo ar. Porém, não há nenhuma evidência para sugerir que isso está acontecendo. O vírus só é transmitido por meio do contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas.
"Precisamos estudar mais. Mas alguma coisa mostra que existem mutações", disse o virologista do Instituto Pasteur Noel Tordo.
"Por enquanto, o modo de transmissão ainda é o mesmo. Você só precisa evitar o contato (com a pessoa doente). Mas, como cientista, não é possível dizer que isso não vai mudar. Talvez mude."

Credito: Reuters
Taxa de sobrevivência no surto atual é de 40%
Os pesquisadores estão usando um método chamado sequenciamento genético para acompanhar as mudanças na composição genética do vírus. Até agora, eles analisaram cerca de 20 amostras de sangue da Guiné. Outras 600 amostras serão enviadas aos laboratórios nos próximos meses.
Um estudo semelhante feito anteriormente em Serra Leoa mostrou que o vírus ebola passou por uma mutação considerável nos primeiros 24 dias do surto, segundo a Organização Mundial de Saúde.
"Isso certamente levanta uma série de questões científicas sobre transmissibilidade, resposta a vacinas e medicamentos, uso de plasma de pessoas infectadas", afirmou a pesquisa da OMS.
"No entanto, muitas mutações genéticas podem não ter qualquer impacto sobre a forma como o vírus reage aos medicamentos ou se comporta em populações humanas."

Vacinas

A pesquisa francesa também investiga por que algumas pessoas sobrevivem ao ebola e outros não. A taxa de sobrevivência do surto atual é de cerca de 40%.
As conclusões poderiam ajudar no desenvolvimento de vacinas contra o vírus.
Pesquisadores do Instituto Pasteur trabalham atualmente em duas vacinas, que devem ser testadas em seres humanos até o final do ano. Uma delas é uma modificação da vacina contra sarampo, que injeta uma forma enfraquecida e inofensiva do vírus a fim de criar defesas imunológicas no organismo.
Credito: Reuters
Pesquisadores tentam criar vacinas para conter futuros surtos do vírus
Se os testes derem certo, a nova vacina protegeria contra sarampo e ebola. "Vimos agora que essa ameaça pode se estender em escala global. Aprendemos que este vírus não é um problema da África, é um problema para todos", disse o imunologista do Instituto Pasteur James Di Santo.
"Este surto particular pode minguar e ir embora, mas nós vamos ter outro surto em algum momento, porque os lugares onde o vírus se esconde na natureza - por exemplo, em animais de pequeno porte - ainda são uma ameaça para os seres humanos no futuro. A melhor resposta que podemos ter é uma vacina para todo o mundo."

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Batalha de Argel: Um fantasma sempre presente

carta maior
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/A-Batalha-de-Argel-Um-fantasma-sempre-presente%0a/39/32706


A Batalha de Argel: Um fantasma sempre presente

A 'Batalha de Argel' mostra como muitos dos problemas que a Europa está precisando resolver hoje são consequência do seu passado colonial.


Léa Maria Aarão Reis
reprodução
Não há, praticamente, crítico de cinema nem jornalista de editoria internacional que não tenha escrito, ou ao menos não conheça o filme do italiano Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel (1966/Premio Leão de Veneza), um dos clássicos mais admirados do cinema político.
 
Do ponto de vista estrito, cinematográfico, o filme de Pontecorvo é obra prima de agilidade, ritmo, clareza e beleza plástica. É resultado da admirável fotografia rústica, preto-e-branco, utilizada propositadamente para sublinhar a natureza dos cine jornais da época, da trilha musical perfeita de Enio Morricone e do roteiro emocionante que equilibra diálogos esclarecedores para o leigo com as cenas e sequências memoráveis, das ações da Frente Nacional de Libertação da Argelia (a FLN) nas ruas, nos anos 50/60, e do povo árabe na luta para se libertar da opressão e da expropriação das suas terras. Uma colonização francesa que durou 130 anos.
 
Tão contundente, volta e meia a situação mostrada pelo filme é evocada como consequência do mundo Sykes-Picot*, o período histórico da década dos anos 30 do século vinte, no qual as grandes potências ocidentais, França e Inglaterra, decidiram, numa cruel e insolente ação entre amigos, dividir o Oriente árabe e a África entre si, ao bel prazer dos interesses econômicos das suas corporações.

Aí, a origem de todo tipo de terrorismo, seja de estado e das mais variadas formas de fundamentalismo, reconhecida, dez anos atrás, até por um ministro britânico reacionário, das Relações Exteriores, Jack Straw. Candidamente ele declarou: “Muitos dos problemas que estamos precisando resolver, hoje, são consequência do nosso passado colonial”.

La Batagllia dei Argeli mostra o confronto entre os árabes e as forças militares francesas. Entre elas, oito mil  paraquedistas, os pará, com experiência na Indochina e na resistência aos nazistas, na Normandia e na Itália, como se vê no relato. Desembarcaram em Argel em 1957.

“Entre eles, as brigadas dos temíveis ‘leopardos’ que lutariam para manter a ‘França africana” – ou como diziam os generais enviados para lá: ‘Para proteger as pessoas e a propriedade privada’ – ou seja, as terras roubadas dos árabes – e para isolar e destruir a Frente Nacional de Libertação.

Mas a independência do país só ocorreu em 62. Apenas quatro anos depois, ainda sob o calor das lutas sangrentas, Pontecorvo fazia seu filme baseado no livro de Saadi Yacef, Lembranças da Argélia.

Robert Fisk, um dos mais respeitados jornalistas europeus, correspondente de experiência notável, que vive no Líbano e é um dos melhores conhecedores e analistas da história do mundo árabe, conta (inclusive, aqui, em Carta Maior) que quando ouviu as primeiras notícias sobre o massacre aos jornalistas do Charlie Hebdo, imediatamente murmurou para ele próprio: ”Argélia...” Horas depois foram divulgadas as identidades dos assassinos: os irmãos Chérif e Said Kouachi eram de origem argelina.

E mais: a pensar na idade da dupla, na casa dos 30 anos, deveriam ser filhos de cidadãos que presenciaram ou participaram das ferozes lutas pela independência argelina relatadas no filme, quando o terrorismo de ambas as partes era usado como recurso de dissuasão. Os pais dos Chérife poderiam, talvez, ter imigrado para a França por volta dessa época. Pouco ou nada se conhece sobre a origem mais remota dos dois, exceto informações sobre a infância em um orfanato francês.

Parece, realmente, que uma ferida não fecha, 53 anos depois da independência do país do norte da África, entre a França e a Argélia, como aponta Fisk. Um fantasma ronda, relembrando o terror continuado das bombas carregadas em suas sacolas pelas mulheres árabes da Casbah de Argel e detonadas nos cafés franceses do bairro europeu - onde se dançava cumbias ao som das juke Box - e o terror de milícias e militares, até nas ruas de Paris não só contra argelinos, mas contra os árabes em geral.

Os alvos, às vezes, eram marroquinos, caso do célebre episódio em que o dirigente de esquerda Ben Barka foi sequestrado, anos depois, já em 65, defronte de um cinema, em pleno dia, no Boulevard Saint Germain. Depois, foi assassinado. O corpo nunca foi encontrado. O atentado é atribuído aos agentes secretos franceses com a colaboração do Mossad e da CIA.

O vigor de A Batalha de Argel é tal que, através dele, as lembranças emergem.

O filme se inicia em 1954, primeiros tempos da organização da FLN entre os moradores da Casbah. Mostra como ela ocorreu. O uso do álcool e das drogas era usado livremente e estimulado pelos colonizadores para controlar melhor a população dos 400 mil cidadãos árabes da cidade. Mesma estratégia usada pelos ingleses com as populações chinesas e seus vizinhos durante a Guerra do Ópio.

Sete atentados por dia era o saldo da violência na capital argelina. Bombas explodiam as residências de prisioneiros com suas famílias dormindo dentro delas. Cercos policiais montados com check points faziam a vida miserável no bairro transformado em gueto. Começava a chamada Operação Champanha. Em resposta, os da FLN retaliavam, fuzilavam e esfaqueavam policiais. Muitos dos apanhados eram guilhotinados.

Pouco a pouco os árabes promovem uma limpeza entre habitantes da Casbah. Nesta segunda parte do filme, vemos como se formando forte e organizada resistência e consciência política.

Alguns aspectos, sempre oportunos, são sublinhados no filme de Pontecorvo:

- O voto da ONU pela não-intervenção de forças de paz na Argélia. A guerra se prolongava e se tornava uma chacina. Discutiu-se a questão argelina e votou-se a favor dos franceses.

- A importância do papel da imprensa de Paris escondendo ou deturpando fatos que não eram de interesse do governo francês divulgar. “Muito depende do que vocês escreverem”, dizia o coronel Mathieu, o insolente comandante dos paraquedistas, nome fictício para o general Jacques Massu** (de triste memória), nas muitas entrevistas coletivas convocadas, se referindo à vitória. “Escrevam bem,” ele exortava. No dia seguinte as manchetes dos jornais franceses diziam: “Tudo calmo no bairro muçulmano.” Era mentira. Mathieu/Massu declarava: ”A palavra tortura não consta das nossas ordens...”

- As técnicas sistematizadas de torturas de prisioneiros depois exportadas para os Estados Unidos, América do Sul e para o Brasil. Afogamentos, choques elétricos, queimaduras com maçaricos, pau-de-arara. Torturas promovidas nas residências dos árabes sob as vistas das famílias.

- E a sequência final de A Batalha de Argel com cenas antológicas de rebelião popular. Desde 11 de dezembro de 1960 até o dia 29 do mesmo mês a população árabe não deixou as ruas embora muitos tenham sido metralhados e esmagados pelos tanques. Milhares de bandeiras do país, com o símbolo da meia lua e da estrela foram feitas de retalhos, trapos, com qualquer pedaço de pano encontrado. “Tudo virou bandeira!” anunciavam os cine jornais e as emissões de rádio. Agitadas na brisa marinha do céu da Casbah e, depois, de toda a cidade, elas são uma visão emocionante no filme.

Em 1962, foi, enfim, dada a resposta à pergunta que Mathieu/Massu costumava fazer aos jornalistas nas arrogantes entrevistas em que negava praticar a tortura: “A FLN quer nos ver fora da Argélia e nós queremos ficar. E vocês?” Os franceses tiveram que sair.

Robert Fisk pode ter mesmo razão: há ainda contas a ajustar entre a França e a Argélia? Quanto permanece de ressentimento pelo passado violento para ambas as partes? Entre os pieds noirs,*** obrigados a devolver as terras que tinham sido confiscadas aos árabes e retornar à Europa, e os habitantes do interior, das montanhas argelinas, e os da Casbah de Argel que se viram obrigados a imigrar?

*Os diplomatas Mark Sykes e François Georges-Picot arquitetaram um ‘novo’ Oriente Médio, depois da I Guerra Mundial, desenhando linhas arbitrárias de fronteiras e criando vários países árabes que não existiam antes. Ver aventuras de T. E. Lawrence, o Lawrence da Arábia.


**Massu declarou ao Le Monde em 2000: “ O mais duro de suportar foi o fato de meu nome ficar para sempre associado à tortura.” Ficou.


***Descendentes de colonos europeus, em particular de franceses, que regressaram aos seus países depois das guerras de independência do norte da África.
 

 


Créditos da foto: reprodução

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A fé, os interesses e os silêncios: chaves de leitura do Boko Haram

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539185-a-fe-os-interesses-e-os-silencios-chaves-de-leitura-do-boko-haram



A fé, os interesses e os silêncios: chaves de leitura do Boko Haram

Nos dias em que o fundamentalismo islâmico lançava o desafio ao coração do Ocidente, com os homicídios da redação doCharlie Hebdo e do supermercado kosher em Paris, e em que o mundo "democrático" preparava as condolências midiáticas globais com pompa magna, em um pequeno pedacinho de terra africana, se consumava um dos mais brutais massacres dos últimos anos da história do continente negro.
A reportagem é de Giampaolo Petrucci, publicada na revista Adista Notizie, n. 3, 24-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
De acordo com informações não oficiais, mas bem credenciadas, como a Anistia Internacional e a BBC, teriam sido mais de duas mil as vítimas da ofensiva lançada a partir do dia 3 de janeiro passado pelo Boko Haram na região de Baga, onde o grupo fundamentalista ocupou uma importante base militar, posto avançado de uma força tarefa multinacional africana na região.
O recrudescimento da atividade terrorista chega a um mês das eleições presidenciais do dia 14 de fevereiro, nas quais o atual presidente cristão Goodluck Jonathan, no poder desde 2010, vai se recandidatar, mesmo sendo considerado politicamente incapaz de adotar estratégias críveis de combate ao terrorismo – também por causa de um Exército desorganizado, mal pago, corrupto e mal equipado – e de controlar o território para evitar os conclamados conluios entre governos locais e terroristas.
Boko Haram – locução hausa que significa "a educação ocidental é pecado" – começou os ataques no Estado de Borno(nordeste da Nigéria) em 2009, mas, com as recentes intensificações do conflito, ele aspira, confiando também na filiação aoEstado Islâmico, à desestabilização de um dos países mais ricos de petróleo do mundo, além da constituição de um grande califado para além das fronteiras com os CamarõesChade e Níger, capaz de se expandir para toda a África ocidental muçulmana, já amplamente abalada pelo avanço dos movimentos jihadistas na região do Sahel.
Só em 2014, o Boko Haram massacrou mais de 10 mil civis e provocou a fuga de mais de 1,7 milhão de pessoas. Depois das medidas de segurança adotadas pelas forças de segurança nigerianas nos mercados e nas praças do norte, os fundamentalistas mudaram a estratégia de ataque, forçando meninas e moças pouco mais do que adolescentes a se fazerem explodir em lugares particularmente lotadas de civis.
Precisamente o indizível horror provocado pelos últimos atentados realizados em Maiduguri e em Potiskum com esse modus operandi finalmente chamou a atenção da sonolenta indignação da mídia e das instituições internacionais sobre o drama nigeriano.
Vítimas de segunda categoria
"Penso na grande manifestação de Paris e desejo também aqui uma grande marcha de unidade nacional que supere as divisões políticas, étnicas e religiosas. Devemos dizer 'não' à violência e encontrar uma solução para os problemas que afligem a Nigéria", disse à agência Fides Dom Ignatius Ayau Kaigama (arcebispo nigeriano de Jos), que em várias ocasiões criticou a comunidade internacional pela falta de atenção dada à questão nigeriana, definindo, de fato, como "vítimas de primeira categoria – as europeias – e vítimas de segunda categoria" as africanas.
A mesma opinião é do arcebispo de Agrigento – que será criado cardeal no próximo consistório de fevereiro –, FrancescoMontenegro, que falou às margens da apresentação do Dia Internacional dos Migrantes, do dia 18 de janeiro. "Todo morto deveria nos fazer pensar", declarou o arcebispo. "É estranho que só Paris se tornou o centro do mundo. No dia seguinte, ao contrário, todos devíamos ir para a África, porque duas mil pessoas sofreram a mesma violência de Paris, mas, mais uma vez, dividimos o mundo no sofrimento: nós, os da primeira categoria, postos todos juntos a dizer que não é justo, enquanto não vimos os dois mil mortos da Nigéria, são mortos de segunda categoria".
"Não a chame de religião..."
Em uma "Declaração sobre os ataques na Nigéria", do dia 12 de janeiro, o Conselho Ecumênico das Igrejas (WCC)apontou o absurdo de uma cobertura religiosa de certas atrocidades: "Uma mentalidade que concebe as crianças como bombas e que massacra indiscriminadamente mulheres, crianças e idosos está além da indignação e se desqualifica para qualquer possível pretensão de justificação religiosa".
WCC também expressou "profunda decepção com a discriminatória falta de cobertura midiática internacional" que a crise nigeriana exige e pediu, por um lado, a intervenção decisiva do governo local e, por outro, uma adequada contribuição de solidariedade por parte da comunidade internacional.
Rede Nowar sublinhou, em um comunicado do dia 12 de janeiro, às margens da visita da vice-embaixadora nigeriana naItáliaMartina Gereng-Sen, que o terrorismo "não tem nada a ver com o Islã", como demonstra o fato de que a grande maioria das vítimas do terror "pertencem aos povos não ocidentais" e são principalmente muçulmanos.
"Nos mesmos dias do massacre em Paris, foram cometidos massacres por parte de milícias terroristas na NigériaLíbia,IraqueIêmenSíria." No comunicado, da Rede Nowar pede que "a mídia e a opinião pública reserve a eles a mesma dor e respeito que todos demonstram às vítimas de Paris", denunciando, enfim, que vários "países da Otan (incluindo a Itália) e monarquias do Golfo, mesmo nos últimos anos, equiparam, formaram, financiaram o crescimento de diversos grupos terroristas".
O fato de que o Boko Haram busca uma cobertura religiosa de finalidade não manifesta também é a opinião do diretor da revista dos combonianos, Nigrizia, padre Efrem Tresoldi, em uma entrevista à Rádio Vaticano, no dia 12 de janeiro. "Esse terrorismo chamado islâmico está colocando na mira não só os cristãos, mas ainda mais as próprias comunidades muçulmanas do norte do país. É uma campanha que vai contra, eu diria, os próprios princípios da humanidade e, portanto, não tem nada a ver com a religião: são criminosos, mas que têm apoio, como se sabe, também dentro do Estado" e "financiamentos também do exterior".
Em uma profunda análise publicada no dia 9 de janeiro pela agência Sir, o padre Giulio Albanese (comboniano, fundador da agência missionária Misna e colaborador de várias publicações) denunciou os silêncios ocidentais, definindo as vítimas de Baga como "filhas de um deus menor".
Depois, ele falou do Boko Haram como de um movimento que "instrumentaliza" a religião para fins políticos: a situação, salienta, degenerou depois da vitória eleitoral de Goodluck Jonathan, em 2010, "nada apreciada pelas oligarquias do norte do país, de fé islâmica, que viram redimensionado, por assim dizer, o seu peso político. Jonathan, de fato, pertence à etniaIjaw, minoria de nível nacional e de tradição cristã, mas que representa a maioria da população na região do Delta do Níger, riquíssima em petróleo e sob o controle das multinacionais estrangeiras. Nesse contexto, o fator religioso se sobrepõe a uma competição pelo poder que, a esse ritmo, corre o risco de dividir a Nigéria em duas".
"As razões do aumento da atividade terrorista – escreveu Albanese – devem ser buscadas, pelo menos em parte, nas relações que o Boko Haram manteve, ao longo dos últimos anos, com políticos locais e membros das forças de segurança originárias do norte, interessadas na radicalização do conflito, a fim de tornar a Nigéria ingovernável".

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Os massacres na Nigéria e o silêncio do Ocidente

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/538915-os-massacres-na-nigeria-e-o-silencio-do-ocidente


Os massacres na Nigéria e o silêncio do Ocidente

Em meio à comoção gerada pelos atentados terroristas em Paris, na França, um arcebispo nigeriano acusou países ocidentais de ignorarem a ameaça representada pelo grupo extremista Boko Haram.
O Arcebispo da cidade de Jos, Ignatius Kaigama, ainda pediu que a mesma atenção dada aos atentados na França seja dada aos militantes que atuam com cada vez mais violência no nordeste do país africano.
Segundo ele, o mundo precisa agir de forma mais determinada para conter o avanço do Boko Haram na Nigéria.
No último fim de semana, 23 pessoas foram mortas por três mulheres-bomba, uma das quais tinha apenas 10 anos de idade.
A reportagem é publicada por BBC Brasil, 12-01-2015.
Outras centenas de mortes foram registradas na semana passada, segundo relatos, durante a captura pelo Boko Haram dacidade de Baga, no Estado de Borno, no nordeste do país.
Em entrevista ao programa Newsday, da BBC, o arcebispo nigeriano disse que o massacre em Baga é a prova de que o Exército do país não consegue conter o grupo extremista.
"É uma tragédia monumental. Deixou a todos na Nigéria muito tristes. Mas parece que estamos desamparados. Porque, se fossemos capazes de deter o Boko Haram, já o teríamos feito. Eles continuam a atacar, matar e a tomar territórios impunemente", disse Kaigama.
Segundo ele, a luta contra o extremismo no país requer o mesmo apoio internacional e espírito de unidade que foi demonstrado após os ataques de militantes na França.
"Precisamos que este espírito se multiplique, não apenas quando isso ocorre na Europa, mas também na Nigéria, no Níger ou em Camarões."
Mulheres-bomba
No domingo passado, duas mulheres-bomba mataram quatro pessoas e deixaram mais de 40 feridas na cidade dePotiskum.
Um dia antes, uma menina realizou outro ataque suicida em Maiduguri, a principal cidade do nordeste do país, matando ao menos 19 pessoas.
No último mês, mais de 30 pessoas foram mortas em ataques suicidas simultâneos na cidade de Jos, que tem cristãos e islâmicos em sua população.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, condenou os ataques do Boko Haram, que classificou como "atos depravados".
Em junho, o Reino Unido disse que intensificaria sua ajuda ao país nas áreas militar e de educação, para conter o Boko Haram.
Essa ajuda também inclui treinamento das tropas do país, assim como vêm fazendo os Estados Unidos.
No entanto, a Nigéria criticou o governo americano por sua recusa de vender armas ao país alegando que as tropas nigerianas estavam cometendo abusos de direitos humanos.
Uma iniciativa liderada pelo governo francês pediu que NigériaNígerCamarões e Chade contribuíssem com 700 soldados cada para uma força internacional contra o Boko Haram, mas nenhum país implementou o plano.
Violência chocante
O Exército nigeriano informou que está tentando retomar a cidade de Baga, que está sob o controle de militantes, mas não deu detalhes da operação.
Também disse que, no último sábado, conseguiu impedir que o Boko Haram assumisse o controle de Damaturu, outra grande cidade do nordeste nigeriano.
Will Ross, correspondente da BBC News em Lagos, a principal cidade da Nigéria, diz que a violência no país não tem fim e é cada vez mais chocante, citando o uso de uma criança em um dos ataques do último fim de semana.
"As Forças Armadas nigerianas tiveram algumas vitórias, mas têm uma tarefa muito difícil, de proteger civis de homens-bomba e atiradores que estão espalhados por uma grande área no nordeste do país. Por isso, com frequência, são dominadas pelos militantes e falham em sua missão. As autoridades do país não gostam de ouvir isso, mas é verdade", afirma Ross.
"O mundo está lentamente começando a manifestar indignação com a recente violência, mas, além disso, e de uma ajuda limitada, não parece haver vontade de se envolver mais profundamente no conflito."

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ebola se espalha pelas redes sociais, e racismo volta à tona

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/536194-ebola-se-espalha-pelas-redes-sociais-e-racismo-volta-a-tona

Ebola se espalha pelas redes sociais, e racismo volta à tona


O vírus ebola se espalhou pelas redes sociais no Brasil desde a primeira suspeita de infecção no país, reportada emCascavel, no interior do Paraná.
Da noite de quinta-feira até a manhã desta sexta, o termo "ebola" foi compartilhado 120 mil vezes pelo Twitter em português. A palavra Guiné, país de onde veio o paciente, foi a terceira mais citada na rede social por volta da meia-noite.
A reportagem é de Ricardo Senra, publicada por BBC Brasil, 10-10-2014.
Guiné é um dos três países que concentram a epidemia do vírus na África, juntamente com Serra Leoa e Libéria.
Pelo Facebook, segundo a ferramenta de análise Sysomos, mais de 400 postagens públicas em português sobre o Ebola surgiram nas últimas 24 horas.
Os termos "ebola", "Guiné" e "Fiocruz" seguem entre os dez tópicos mais comentados por brasileiros na rede.
Racismo
O homem de 47 anos, que chegou ao Brasil no dia 19 de setembro após escala no Marrocos, foi transferido durante a madrugada para Rio de Janeiro.
Em meio a dúvidas sobre sintomas, riscos de infecção e especulações sobre a confirmação ou não do caso, alguns internautas mais uma vez publicaram comentários racistas nas redes sociais.
As ofensas associam o vírus ebola à população de origem africana.
"Ebola é coisa de preto", "Alguém me diz por que que esses pretos da África têm que vir para o Brasil com essa desgraça de bactéria (sic) de ebola" e "Graças ao ebola, agora eu taco fogo em qualquer preto que passa aqui na frente" foram algumas das frases postadas no Twitter na manhã desta sexta.
A situação não é diferente entre os usuários do Facebook. A nuvem de palavras que mostra os termos mais associados à doença na rede destaca a palavra "preto".
Ou seja, a maioria das pessoas que escreveu publicamente sobre o vírus associou "ebola" ao termo "preto".
'Sob controle'
Na manhã desta sexta-feira, o ministro da Saúde Arthr Chioro afirmou, em entrevista coletiva, que o paciente não teve "nem hemorragia, nem diarreia, nem febre, nem vômito."
"Na quarta-feira, teve febre, tosse e dor de garganta. O médico trabalha com as informações e sintomas que ele consegue detectar na consulta clínica", disse o ministro.
Foram identificadas 64 pessoas que tiveram contato com o paciente - 60 delas na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) deCascavel.
Os resultados dos exames, segundo Chioro, saem em 24 horas.
"Se tivermos o resultado do exame antes, imediatamente tornaremos público. Pelo protocolo, é necessário confirmá-lo em dois laboratórios. Mesmo se esse resultado der negativo, será colhida em 48 horas uma segunda amostra para análise e posterior informação do resultado."

domingo, 5 de outubro de 2014

Ebola, sintoma da globalização-apartheid

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http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=39239

Ebola, sintoma da globalização-apartheid

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Epidemia avança e pode matar centenas de milhares de africanos em meses. Indiferença internacional sugere perguntar: não vivíamos num planeta “integrado”? 
Por Jim Lobe, na Envolverde/IPS
A rápida expansão do vírus ebola na África ocidental, que já matou três mil pessoas, supera os esforços regionais e internacionais para deter a epidemia, alertam especialistas em saúde e autoridades de todo o mundo.
“Não nos movemos com rapidez suficiente. Não estamos fazendo o suficiente”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em uma reunião especial sobre a crise do ebola realizada no dia 25 deste mês na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. A epidemia poderá matar “centenas de milhares” de pessoas nos próximos meses, salvo se a comunidade internacional proporcionar os recursos necessários, acrescentou o mandatário.
O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, anunciou que essa instituição aumentará até US$ 400 milhões o financiamento para ajudar os países mais afetados: Guiné, Libéria e Serra Leoa. “Todos podemos, devemos, nos mover com maior rapidez para conter a propagação do ebola e ajudar esses países”, afirmou. “Já foram perdidas muitas vidas, e o destino de milhares de outras depende de uma resposta que possa frear e depois reverter essa epidemia”, destacou.
Os Centros para o Controle e a Prevenção de Enfermidades (CDC) dos Estados Unidos enviaram dezenas de especialistas à África ocidental e concluíram que em Serra Leoa e na Libéria poderiam surgir mais de 20 mil casos novos do ebola nas próximas seis semanas, e até 1,4 milhão até janeiro de 2015, caso seja mantido o atual ritmo de expansão do vírus.
As autoridades sanitárias internacionais elevaram o cálculo da taxa de mortalidade das pessoas infectadas com o vírus de 55% para 70%. O foco mais recente do ebola teria começado em março na Guiné, antes de se espalhar para o sul rumo a Serra Leoa e Libéria, dois países que ainda não se recuperaram totalmente de suas respectivas guerras civis.
Oficialmente, a epidemia matou até agora quase três mil pessoas, mas a maioria dos especialistas acredita que o número real é maior, já que muitos casos não foram informados às autoridades, especialmente em áreas distantes nos três países afetados.
A epidemia também gera custos econômicos elevados, já que o temor do contágio e as medidas de quarentena à qual recorreram os governos alteraram gravemente o transporte e o comércio em seus territórios. O Banco Mundial revelou que a inflação e os preços dos alimentos básicos sobem rapidamente nos países afetados como reação à escassez, à especulação e às compras excessivas produzidas pelo pânico.
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O estudo dessa instituição, que não levou em conta os últimos dados do CDC, projeta para os três países perdas econômicas de US$ 359 milhões este ano, equivalente a uma queda de 3% no conjunto de sua produção econômica. O impacto em 2015 poderá superar os US$ 800 milhões. É provável que a economia liberiana seja a mais prejudicada, já que este país é um dos mais pobres do mundo.
“Essa é uma catástrofe humanitária, antes de tudo. Mas as ramificações econômicas são muito amplas e podem ser de longa duração. Nossa avaliação mostra um impacto econômico muito mais grave nos países afetados do que o estimado previamente”, ressaltou Kim.
Especialistas em segurança alertam que a epidemia também poderia provocar crises políticas nos países afetados. Em um comunicado divulgado no dia 23, a organização independente International Crisis Group (ICG), com sede em Bruxelas, alertou que os três países africanos já experimentam “o caos generalizado e, potencialmente, o colapso”, devido à desconfiança dos cidadãos em relação aos seus governos, que gera uma violenta resistência à quarentena aplicada por efetivos militares, entre outros esforços oficiais para deter o vírus.
A escassez de alimentos também poderia provocar revoltas populares contra as autoridades. “Nos três países poderiam ressurgir os conflitos civis passados alimentados por antagonismos locais e regionais”, segundo o ICG. Além disso, o vírus poderia chegar a Guiné Bissau e Gâmbia, que tampouco contam com sistemas de saúde aptos para lidar com a situação, acrescentou a organização.
No começo deste mês, a Organização Mundial da Saúde calculou que frear a enfermidade custará um mínimno de US$ 600 milhões, embora a cifra seja considerada baixa. Até o momento, se materializaram pouco mais de US$ 300 milhões. Os Estados Unidos prometeram mais de US$ 500 milhões e o envio de três mil soldados à região, junto com os especialistas dos CDC. Mas alguns especialistas criticam essa assistência.
“O número de novos casos de ebola a cada semana supera com juros o número de camas em hospitais que há em Serra Leoa e na Libéria”, afirmou John Campbell, especialista em África ocidental no Conselho de Relações Exteriores (CFR), um centro acadêmico com sede em Washington. “É difícil ver como a promessa do presidente Obama de enviar três mil soldados à Libéria para construir hospitais com um total de 1.700 leitos poderá transformar” a situação. “A assistência da Grã-Bretanha a Serra Leoa e da França a Guiné é ainda menor”, pontuou.
Várias organizações beneficentes norte-americanas também prometeram ajuda, como a Fundação Bill e Melinda Gates, que doará US$ 50 milhões, e a entidade do cofundador da Microsoft, Paul Allen, que entregará US$ 65 milhões.
“As generosas promessas de ajuda e as resoluções sem precedentes da ONU são muito bem-vindas, mas significarão pouco, a menos que se traduzam em ações imediatas. A realidade de hoje é a seguinte: o prometido ainda não foi entregue”, destacou Joanne Liu, presidente da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), no dia 25.
“Nosso centro de 150 camas na Monróvia abre apenas por 30 minutos pela manhã. Só admitimos umas poucas pessoas, para ocupar os leitos deixados livres pelos que morreram durante a noite. Pacientes continuam sendo rejeitados, e voltam para suas casas onde espalham o vírus entre seus entes queridos e vizinhos. Não poupem esforços. A ação em massa e direta é a única via”, enfatizou Liu.