sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A memória artística da ditadura





le monde
https://diplomatique.org.br/a-memoria-artistica-da-ditadura/


CULTURA DE PROTESTO

A memória artística da ditadura

por Raisa Pina
novembro 8, 2018
Imagem por Cildo Meireles
compartilhar
visualização
Pinturas, gravuras, performances e happenings tensionaram a todo momento o autoritarismo e denunciaram os crimes contra a humanidade cometidos pelos militares, às vezes com imagens hiper-realistas, às vezes com um mero conceito lançado no ar, às vezes com intervenções urbanas que escrachavam o que era empurrado para debaixo do tapete social simbólico
Quando se fala em resistência à ditadura civil-militar brasileira da segunda metade do século XX, uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça são os artistas da época: ousados, corajosos que não se deixaram calar mesmo com a censura, as ameaças e a tortura correndo soltas. Primeiro, lembro-me de Gal Costa e Nara Leão; penso em Rita Lee e nos Mutantes; abraço em imaginação Gil, Caetano, Chico, Milton, Tom Zé, Rogério Duprat e toda a Tropicália. Depois do fatídico domingo de resultado das eleições, o que me trouxe à consciência da tarefa histórica que minha geração terá pela frente – e me fez abafar o choro que queria vir – foi a voz de Gal ecoando Divino Maravilho. “É preciso estar atenta e forte, não temos tempo de temer a morte”.
Cildo Meireles, Quem matou Herzog
Se a música, assim como a literatura e o teatro, é uma fonte rica de elementos sobre o que de fato foi o período dos militares no poder, gostaria de acrescentar ao pacote de referências poético-históricas uma linguagem artística por vezes deixada de escanteio nas análises políticas e que muito revela o lado apagado dos livros didáticos: as artes plásticas. Pinturas, gravuras, performances e happenings tensionaram a todo momento o autoritarismo e denunciaram os crimes contra a humanidade cometidos pelos militares, às vezes com imagens hiper-realistas, às vezes com um mero conceito lançado no ar, às vezes com intervenções urbanas que escrachavam o que era empurrado para debaixo do tapete social simbólico.
Numa manhã de uma segunda-feira qualquer, no ano de 1970, catorze trouxas ensanguentadas, cheias de ossos e carne em putrefação, emergiram no rio Arrudas, em Belo Horizonte. Pareciam ser corpos de desaparecidos políticos. Só podia ser. Rapidamente a polícia foi acionada. Quando conseguiram retirar as trouxas da água, para a surpresa de todos, não se tratavam de restos humanos, mas de Situações, intervenção feita por Arthur Barrio para expor o elefante branco no meio da sala: existiam mortos desaparecidos e uma cena daquela era completamente verossímil. Uma vez, em uma entrevista, perguntaram a Barrio de onde vinha a palavra “Situações”; ele respondeu que vinha “do dia a dia comum, uma coisa banal”. A banalidade da década de 1970 era sangue e carcaça.
Arthur Barrio. Situações, 1970

Que nos lembremos da exposição Sala Escura da Tortura, realizada primeiramente em Paris, em 1973, pelo Grupo Denúncia e pelo Coletivo Anti-Fascista, depois refeita no Brasil em 2011, como uma iniciativa do Instituto Frei Tito, Ministério da Justiça e Anistia Internacional. Faziam parte do Denúncia quatro artistas, dos quais três eram sul-americanos exilados na França para fugir de governos ditatoriais: Julio Le Parc (Argentina), Gontran Guanaes Netto (Brasil), José Gamarra (Uruguai) e Alejandro Marcos (Espanha). Eles se basearam nos depoimentos de Frei Tito sobre a tortura, fizeram entre eles uma performance de reconstrução das sessões de absurdos, fotografaram as cenas de terror e depois as transformaram em pinturas hiper-realistas. Afogamento, choques, amarrações e suspensões foram algumas ferramentas de violência usadas pelo governo para punição e perseguição.
Grupo Denúncia, Sala escura de tortura, 1973
Em 1975, Letícia Parente deu sua contribuição potente com a vídeo-performance Marca Registrada, em que a artista, ao longo de aproximadamente dez minutos, borda a frase “Made in Brazil”. O bordado, diminuído historicamente como ofício doméstico das mulheres, é aqui ressignificado como demonstração de força e resistência tendo-se em vista o que se costura: a sola do pé da própria artista. As imagens causam angústia e é esta a intenção. Em apenas um vídeo aparentemente simples, Parente explicita muitas questões complexas: fala da dor de ser brasileira naquele momento, da entrega do país ao mercado internacional, da necessidade de lastro, de sua própria raiz e da sua condição de mulher no meio do furacão. Ao costurar seu próprio pé com a frase que marca sua origem, Letícia Parente nos fala de coragem. “A vida é feita de coragem”.
Letícia Parente, Marca Registrada, 1975
Na mesma década do trabalho de Parente, Alex Fleming se usou do hiper-realismo para revelar o não dito que existia por trás da defesa da família, da moral e dos bons costumes. Na série de gravuras Natureza-morta, o artista se apropria de um dos gêneros mais tradicionais das artes plásticas, geralmente decorativo, para expor os crimes cometidos pelos militares de bem. Se o conceito teórico de “natureza-morta” nas artes inclui “elementos inanimados” e “objetos imóveis”, no trabalho de Fleming as composições se revelam como cadáveres humanos eletrocutados, alvejados, sufocados, baleados, enforcados. Tudo bem explícito para que as famílias burguesas pudessem emoldurar e pendurar na sala de jantar, enquanto se ocupam de nascer e morrer.

A morte é tema central de diversos trabalhos plásticos feitos nas décadas de 1960 e, especialmente, de 1970. Carlos Zilio, por exemplo, tem dois autorretratos simples mas com uma potência que dói. Em Autorretrato aos 26 anos, o artista desenha o que seria uma foto sua em 3×4, primeiro com o rosto encarando o observador, depois de perfil, ambas com um número de fichamento feito pela polícia. Abaixo dessas duas imagens, uma cela se abre para um rapaz sair. Sem camisa, ele revela no peito o único ponto de cor da obra: o coração vermelho. Na base do papel, as dez digitais de Zilio, registro mais puro de sua identidade.
Três anos depois, Carlos Zilio se retratou novamente. A simplicidade desta obra é inversamente proporcional ao impacto: sobre um papel branco, no centro, a palavra “auto-retrato” aparece grafada em tipografia maquinal, manchada com uma única gota de sangue. Não existe mais nada no trabalho, nenhuma figura humana, apenas o rastro de algo que não existe mais, apenas o vestígio de um destino violento, sequestrado. Quanto Zilio escreve “autorretrato” em sua obra, ele cria espaço que deveria ser habitado por um homem; a ausência de uma figura humana leva a questionamentos do que se sucedeu, e a resposta vem com sangue. A ausência é consequência da violência.
Carlos Zilio. Autoretrato aos 26 anos, 1970
Em 1978, Paulo Brusky também se apropriou do gênero de autorretrato e fez sua própria versão: a composição inclui duas radiografias de crânio humano, feitas para reconhecimento da arcada dentária em cadáveres não identificados; abaixo das duas imagens, um retrato de rosto do artista coberto por uma tarja preta onde se lê “Protetor de identidade”. Em época de assassinatos, esconder-se não é covardia, é sobrevivência.
Impossível não mencionar Cildo Meireles e suas Inserções em Circuitos Ideológicos, uma série de intervenções urbanas com críticas explícitas à violência dos militares e à política econômica liberal colocada em prática. Se eu disse no início que, ao falar de ditadura, as primeiras imagens que me vêm à cabeça são dos artistas resistentes, talvez a segunda referência imagética que tenho do período militar é a do assassinato cruel do jornalista Vladimir Herzog. Lembro-me da primeira vez que vi a foto daquele suicídio encenado. Com dez anos de idade, eu já sabia que não era possível alguém se enforcar daquele jeito. No final da década de 1970, Cildo Meireles carimbou notas de dinheiro cobrando respostas e justiça para o jornalista. “Quem matou Herzog?” gritava nas cédulas que circulavam pelas cidades.
Precisaremos de muitos carimbos, pinturas, intervenções urbanas, graffiti, performances, happenings e todas as técnicas das artes plásticas para enfrentarmos e sobrevivermos ao período Bolsonaro. Precisamos delas como registro histórico e como formas de revolução. Obviamente que tentarão calar a todos, primeiro com o fechamento do Ministério da Cultura, depois com a criminalização de práticas artísticas, poéticas, obras etc. Nos últimos tempos já quiseram censurar as artes – lembrem-se do Queermuseu e da performance de Wagner Schwartz – mas elas resistiram e sempre resistirão.
A lista de artistas e trabalhos contestadores das práticas desumanas da ditadura civil-militar no Brasil é infinita e, com certeza, esse esforço aqui diz muito mais sobre meu esquecimento do que sobre minha lembrança. Peço desculpas desde já pela possível injustiça que cometi por der deixado de fora outros tantos nomes. De toda forma, o que trago é uma tentativa pequenina de contribuir com a restauração da força e da coragem da juventude para os próximos anos que virão, especialmente dos artistas, para que nunca aceitem se calar e que entendam que ser artista significa carregar consigo uma função social das mais importantes: a de transformação do nosso tempo e espaço em expressões que suscitarão a reflexão, o pensamento e a compreensão da nossa sócio-política.

*Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes, cultura e política, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.

 

 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Revelando os efeitos da política de detenção australiana e seu impacto na saúde mental

estadão
https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,criancas-refugiadas-em-centro-de-detencao-da-australia-sofrem-com-transtornos-mentais,70002614549

Crianças refugiadas em centro de detenção da Austrália sofrem com transtornos mentais

Revelando os efeitos da política de detenção australiana e seu impacto na saúde mental

Mridula Amin e Isabella Kwai, The New York Times
21 Novembro 2018 | 06h00
TOPSIDE, NAURU - Ela tinha 3 anos quando chegou a Nauru, fugindo da guerra no Sri Lanka. Hoje, Sajeenthana tem 8. O seu olhar é vazio. Às vezes, soca adultos. E fala em morrer com tranquilidade.
“Ontem cortei a minha mão”, disse em uma entrevista na remota ilha do Pacífico para a qual foi enviada pelo governo australiano, depois de ser resgatada no mar. E apontou para uma marca.
“Um dia, vou me matar”, afirmou. “Quando achar a faca. Não ligo para o meu corpo”.
Pelo menos 90 delas foram removidas desde agosto, mas no início de novembro, 27 ainda estavam em Nauru com centenas de adultos.
Pelo menos 90 delas foram removidas desde agosto, mas no início de novembro, 27 ainda estavam em Nauru com centenas de adultos. Foto: Pixabay
O pai tentou acalmá-la, mas ela se desvencilhou. “É a mesma coisa, na guerra, ou aqui”, ela disse.
Sajeenthana faz parte de um grupo de mais de 3 mil refugiados e pessoas em busca de asilo enviados para centros de detenção longe da Austrália desde 2013. Nenhuma outra política australiana foi tão condenada pelos defensores dos direitos humanos de todo o mundo, nem foi tão defendida pelas autoridades australianas, que há muito afirmam que desse modo salvam vidas dissuadindo contrabandistas e migrantes.
O desespero atingiu um novo nível - em parte por causa dos Estados Unidos. Sajeethana e o pai são alguns entre as dezenas de refugiados em Nauru que esperam ser transferidos segundo um acordo da era Obama que o presidente Donald Trump concordou cumprir com relutância, permitindo o reassentamento de 1.200 refugiados abandonados em campos ao largo da Austrália.
Até o momento, cerca de 430 foram transferidos para os Estados Unidos - mas pelo menos 70 foram recusados.
Isto inclui Sajeethana e seu pai, refugiados do grupo Tâmil que fugiram da violência do seu país depois que o governo de Sri Lanka reprimiu violentamente uma revolta.
O Departamento do Interior da Austrália declarou que Nauru tem “condições adequadas de avaliar o estado de saúde e o tratamento” destas pessoas.
Mas casos de crianças suicidas estão ocorrendo desde o mês de agosto. Dezenas de organizações, como a dos Médicos Sem Fronteiras (que foram expulsos de Nauru no dia 5 de outubro) manifestaram preocupações. O governo australiano foi obrigado a ceder: no início deste mês, as autoridades informaram que até o Natal iriam transferir todas as crianças de Nauru necessitadas de tratamento.
Pelo menos 90 delas foram removidas desde agosto - Sajeethana saiu logo depois da entrevista - mas no início de novembro, 27 ainda estavam em Nauru com centenas de adultos.
Alguns pais, que foram deixados para trás enquanto os seus filhos recebem tratamento, temem não voltar a vê-los se pedirem para ser transferidos para os EUA.
Nauru é uma pequena ilha-nação de cerca de 11 mil habitantes. Uma fileira de mansões dilapidadas ao longo da costa indica a riqueza passada da ilha; na década de 70, esta era uma nação rica em fosfatos com uma renda per capita superada apenas pela Arábia Saudita.
Agora, suas reservas de fosfato se esgotaram, e o país depende consideravelmente da ajuda australiana. Somente no ano passado, ela correspondeu a cerca de 25% do Produto Interno Bruto de Nauru.
Em Topside, um lugar onde restam vários carros velhos e muita poeira, encontra-se um dos dois centros de processamento que hospedam cerca de 160 detidos. Centenas de outros vivem em acampamentos de habitações modulares.
Sukirtha Krishnalingam, 15, disse que os dias são um círculo tedioso sem fim enquanto ela e a família de cinco pessoas - refugiados certificados do Sri Lanka - esperam  para saber se os Estados Unidos os aceitarão. Ela teme por causa do seu problema cardíaco. E tem pesadelos.
“De noite, ela grita”, contou o irmão Mahinthan, de 14 anos.
No ano passado, as alusões ao suicídio começaram a se tornar mais comuns. Jovens como Absullah Khoder, um refugiado libanês de 24 anos, disse que a exaustão e a desesperança estão cobrando o seu preço. “Eu corto as mãos com lâminas porque estou cansado”, falou.
Agora, as crianças falam em suicídio como se fosse apenas uma tempestade. Desde 2014, 12 pessoas morreram nos campos de detenção ao largo da Austrália, em Nauru e na Ilha de Manus, que faz parte de Papua Nova Guiné.
Christina Sivalingam, uma criança tamil de 10 anos, falou como se fosse uma coisa comum que viu o lugar onde o iraniano, Fariborz Karami, se matou em junho.
“Descemos do ônibus da escola e eu vi o sangue - estava em toda parte”, ela disse com calma. Levou dois dias para limpar. Ela falou que o pai também tentou o suicídio quando o seu tratamento da tiroide demorou.
A transferência de alguns dos seus amigos para os EUA só fez com que se sentisse mais sozinha. Ela não sente mais vontade de comer. “Quero ir para algum lugar e ser feliz”, afirmou.
A Dra. Beth O’Connor, psiquiatra que trabalha com os Médicos Sem Fronteiras, disse que quando chegou no ano passado, as pessoas se agarravam à esperança de um reassentamento nos EUA. Em maio, várias foram rejeitadas, o que mergulhou o campo no desespero.
A morte de Karami piorou ainda mais o moral.
“Algumas pessoas tinham só um pouco de brilho nos olhos, agora o seu olhar ficou opacos”, observou a doutora.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A reinvenção política passa pela capacidade de mobilizar afetos

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-reinvencao-politica-passa-pela-capacidade-de-mobilizar-afetos/4/42427

A reinvenção política passa pela capacidade de mobilizar afetos

Entrevista especial com Icaro Ferraz Vidal Junior


16/11/2018 11:11
(Geraldo Magela/Agência Senado)
Créditos da foto: (Geraldo Magela/Agência Senado)

Numa rápida leitura das estratégias adotadas na campanha eleitoral de 2018 e da centralidade que a internet assumiu, pode-se até afirmar que, dada a vitória, a extrema direita foi quem melhor apreendeu a cartilha das novas mídias. Mas o pesquisador Icaro Ferraz Vidal Junior pede um pouco mais de calma na análise. “A extrema direita trabalhou na construção de uma imagem antipolítica de si mesma, bem naquele estilo ‘contra tudo isso que está aí’ que vimos lá em 2013. Neste sentido, dispositivos caros à política, como Plano de Governo, participação em debates etc., puderam ser descartados”, observa. Ele também chama atenção para a mensagem em si, e não somente para a forma com que é posta em circulação. “A extrema direita teve a argúcia de trabalhar, desde 2013, na produção em massa deste regime afetivo marcado pela indignação”, aponta, ao lembrar questões de fundo como as marchas de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff e até a polêmica em torno do Queermuseu.

Icaro, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, evidencia como se dá essa mobilização de afeto nas pessoas por meio de dispositivos como o WhatsApp. “Como o discurso indignado, as imagens chocantes, a retórica moralista repercutem a estética hipnótica de linchamento e ‘desencapetamento’ que encontramos, respectivamente, em programas de televisão (...) e em algumas vertentes das religiões pentecostais e neopentecostais”. E destaca: “me parece ingênuo atribuir ao conteúdo informativo das imagens, textos e áudios falsos o resultado destas eleições. Acho importante começarmos a fazer uma análise formal da comunicação da extrema direita”.

Enquanto isso, à esquerda, o professor observa que parece não haver um entendimento de que é preciso reinventar a forma de fazer política, levando em conta esses afetos. Neste sentido, indica que uma “reflexão sobre o lugar da técnica nas atuais configurações do poder passará necessariamente por um estudo dos efeitos do WhatsApp sobre nossa cognição e sensibilidade”, tomando como exemplo as eleições de 2018 no Brasil. Para Icaro, isso não significa pensar só na técnica e na tecnologia, menosprezando a economia política. “Significa simplesmente reconhecer que não é mais pela palavra que a política está sendo disputada, mas pelos afetos. E a esquerda ainda não inventou um modo de fazer política que não seja predominantemente pela palavra”, indica.

Icaro Ferraz Vidal Junior é graduado em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense - UFF, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e doutor em Comunicação pela UFRJ. Atualmente é pesquisador colaborador do MediaLab da UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que forma a experiência da campanha eleitoral de 2018 provoca outras concepções acerca das redes sociais e da própria internet e sua incidência no espaço político?

Icaro Ferraz Vidal Junior – Penso que é fundamental, em primeiro lugar, levarmos em conta a complexidade de nosso ecossistema midiático e não apenas as redes sociais e a internet como fenômenos isolados. A campanha eleitoral, o resultado das eleições e as estratégias de comunicação já levadas a cabo pelo presidente eleito antes mesmo de sua posse indicam, sem sombra de dúvidas, uma mutação importante nesse ecossistema midiático. Ao mesmo tempo, penso que a maneira como a internet, as redes sociais e o WhatsApp vêm monopolizando as narrativas em torno da eleição da extrema direita no país coloca na sombra um processo de progressiva perda de prestígio e credibilidade por parte da televisão e da imprensa.

Tais veículos se tornavam, já no contexto das manifestações de 2013, incapazes de produzir sentidos para acontecimentos que se espalhavam por várias cidades do país, catalisados muito mais pelos streamings da [1] ou pela atuação do Movimento Brasil Livre [2] nas redes sociais, do que pelo Jornal Nacional, por exemplo. Lembro que, nessa época, o Jornal Nacional protagonizava uma série de memes que ironizavam e confrontavam a escala das manifestações como presenciada e difundida nas redes sociais com os números de manifestantes noticiados pelo telejornal e supostamente informados pela Polícia Militar.

Em 2013, os regimes de produção de verdade já apresentavam fissuras visíveis e não é possível negligenciar, em uma reflexão sobre as eleições de 2018, que foram muito intensos os tremores nos solos institucionais e midiáticos brasileiros nestes últimos cinco anos – da censura à exposição Queermuseu [3] ao controverso processo de impeachment de Dilma Rousseff, passando pela espetacularização da Operação Lava Jato. Olhando retrospectivamente, esses processos parecem ter testado os limites e potencialidades do uso das redes para criação de uma governabilidade que prescinda de um regime de produção de verdade assentado sobre instituições caras à democracia, como a justiça e a mídia, por exemplo.

Um olhar sobre a história recente

Em um artigo recente publicado na Folha de São Paulo [4], o filósofo Vladimir Safatle [5] diagnosticou argutamente que as manifestações de 2013 desempenharam um papel fundamental na consolidação da extrema direita no Brasil, análogo àquele desempenhado pelo 11 de setembro americano e pela crise de 2008 na Europa. Neste contexto que Safatledescreve, chamo a atenção para o fato de que a mediação tecnológica das disputas em torno das narrativas dessas manifestações – que congregavam reivindicações que iam da desmilitarização da PM a uma intervenção militar – parece ter apontado, talvez pela primeira vez no contexto brasileiro, para o poder de criação de uma massa de sujeitos indignados a partir da gestão da circulação de fluxos de imagens, informações e fake news pelas redes.

Então, respondendo à tua pergunta, eu acho que o processo eleitoral de 2018 ajuda-nos a olhar para nossa história recente reconhecendo que, em alguma medida, havia pistas ali de que este resultado eleitoral seria, no mínimo, uma possibilidade. A questão que resta em aberto diz respeito às formas que encontraremos para resistir a este novo regime de governabilidade articulada em torno destas milícias digitais, expressão que devo à Ivana Bentes [6].

IHU On-Line – Podemos compreender esse processo eleitoral de 2018 desde a perspectiva da “totalização digital” [7]? Como?

Icaro Ferraz Vidal Junior – É possível, mas não sei se é estratégico compreender o processo eleitoral de 2018 desde a perspectiva da “totalização digital”, que é um conceito mais ou menos preciso formulado por Eric Sadin [8] e ao qual tenho alguma ressalva, no sentido de que pensar qualquer processo nos termos de uma “totalização” me parece profundamente desmobilizador do ponto de vista político. Entretanto, as controvérsias em torno de disparos em massa de fake news no WhatsApp através de um programa que, como descrito com detalhes em matéria do The Intercept Brasil [9], não apenas envia as mensagens, mas produz conteúdos diferenciados para diferentes perfis de usuários e potenciais eleitores, encontram-se em perfeita consonância com o cenário descrito no livro de Sadin, no qual a extração de dados encontra-se cada vez mais presente no curso de nossas vidas cotidianas, ao mesmo tempo em que a propriedade, o processamento e o uso desses dados permanecem no interior de caixas-pretas às quais não temos acesso, nem do ponto de vista técnico, nem político, nem econômico.

IHU On-Line – Corremos o risco de a “totalização digital” suprimir o espaço político? Quais os riscos de se gerar apenas debates pautados pelo algoritmo?

Icaro Ferraz Vidal Junior – Essa pergunta dá uma pista do “porquê” da minha resistência ao conceito de “totalização digital”. O espaço político, da forma como eu o entendo, não é algo dado, um a priori, é uma construção complexa que para se manter de pé depende de muitos atores, inclusive não humanos, atuando em tempo integral. Acredito que os algoritmos podem, sim, orquestrar uma agenda pública de debates, mas acho que não dá para menosprezar o fato de que a política também é feita por corpos que trabalham ou não têm emprego, têm ou não têm acesso à saúde e à educação, têm ou não têm direito a existir enquanto minoria étnica, religiosa, de gênero etc.

José Murilo de Carvalho [10] estuda com rigor a lacuna que, na nossa história, separou as reivindicações por direitos sociais daquela por direitos políticos. A não elaboração social, política ou cultural da escravidão, somada às políticas de branqueamento que sucederam sua suposta abolição, produziu um contexto no qual as batalhas políticas ainda são travadas em defesa de direitos sociais muito básicos, como moradia, alimentação, direito a existir etc. Então, eu acredito que quando aventamos o risco do fim do espaço político a partir de uma suposta “totalização digital”, não estamos nos dando conta, por exemplo, do número inédito de candidatos e candidatas negros, pobres e favelados que se elegeram como deputados e deputadas com pautas progressistas e que, não dispondo de tempo de televisão e verba de campanha, também lançaram mão de redes sociais para difundir seus projetos para o Brasil. Agora, é claro que novas ferramentas e mediações algorítmicas terão de ser inventadas na medida em que as atualmente disponíveis forem se mostrando corrompidas e controladas por corporações, Estados, partidos etc.

IHU On-Line – Diante do resultado da eleição e da grande adesão às ideias de Jair Bolsonaro, podemos afirmar que a extrema direita apreende melhor as lógicas da política atravessada pelos ambientes digitais? Por quê?

Icaro Ferraz Vidal Junior – Não sei se eu diria que a extrema direitaapreende melhor estas transformações na política em virtude das novas redes de comunicação. O que me parece que aconteceu aqui foi que a extrema direita trabalhou na construção de uma imagem antipolítica de si mesma, bem naquele estilo “contra tudo isso que está aí” que vimos lá em 2013. Neste sentido, dispositivos caros à política, como Plano de Governo, participação em debates etc., puderam ser descartados. Em vez de uma disputa política tradicional que, como sabemos, apresenta inúmeros problemas, mas parece, em alguma medida, criar um campo de visibilidade e vulnerabilidade simétrico para cada candidato, a extrema direita teve a argúcia de trabalhar, desde 2013, na produção em massa deste regime afetivo marcado pela indignação. E este afeto, já muito desgastado, como formulou Jacques Rancière [11], encontrou nas redes sociais e, sobretudo no WhatsApp, um campo fértil para se disseminar e se intensificar.

IHU On-Line – Como o senhor compreende o fenômeno do WhatsApp nas eleições de 2018? O que o distingue frente a outras ferramentas como Twitter e Facebook?

Icaro Ferraz Vidal Junior – Penso que a principal diferença consiste no fato de que o WhatsApp não é, em princípio, uma rede social, mas um software de troca de mensagens textuais, imagéticas e em áudio. Neste sentido, acredito que talvez haja um certo relaxamento por parte do usuário quanto ao conteúdo postado em comparação com o que acontece nas redes sociais, nas quais existe um controle mínimo, por parte dos próprios usuários, que podem denunciar publicações ofensivas ou falsas à própria plataforma.

As políticas de dados do WhatsApp são ainda bem pouco discutidas e isso se deve, em parte, à impossibilidade de navegarmos pelo conteúdo compartilhado entre usuários em grupos dos quais não participamos, o que faz com que nos sintamos seguros e com certo controle sobre o conteúdo que compartilhamos. Evidentemente, não se trata aqui de fazer uma defesa de uma publicização de discussões pessoais ou dos grupos fechados abrigados na plataforma. Mas o fato é que, aparentemente, esta privacidade não existe. Embora as informações compartilhadas no WhatsApp não sejam de acesso público, não temos nenhum controle de para quem elas estão sendo vendidas e com que propósitos.

O papel do WhatsApp nestas eleições criou novos desafios para a pesquisa em torno das mediações tecnológicas da política. Redes sociaiscomo Facebook e Twitter apresentam portas de entrada para o mapeamento de determinados temas, como é o caso das hashtags, que não nos ajudam muito a entender o que se passa no WhatsApp. O grupo de pesquisa em Tecnologias da Comunicação e Política - TCP da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Uerj monitorou uma série de grupos de apoio a diferentes candidatos no WhatsApp durante estas eleições [12], e uma diferença que me chamou a atenção em relação ao mesmo tipo de pesquisa realizada no Twitter ou no Facebook é que o pesquisador precisa estar inserido nos grupos como membro para ter acesso a esses fluxos de mensagens.

IHU On-Line – As eleições deste ano evidenciam que vivemos o império do tecnopoder? Por quê?

Icaro Ferraz Vidal Junior – As eleições deste ano evidenciam que nós humanos não estamos sozinhos, que a política contemporânea se organiza em uma rede que conta com atores humanos e com atores não humanos (algoritmos, bancos de dados, grandes corporações etc.). Esta agência de não humanos nos processos políticos não é exatamente uma novidade, mas ainda é muito negligenciada pela esquerda de tradição humanista, que não consegue compreender a técnica para além de seus usos. Evidentemente que a produção e a difusão de fake news precisam ser combatidas em todas as frentes institucionais possíveis, mas suspeito de que estas eleições deram pistas suficientes de que o conteúdo das mensagens falsas foi tão determinante quanto suas formas e seus meios de difusão na construção desta polarização sem precedentes na nossa recente história democrática.

Quero com isso dizer que me parece ingênuo atribuir ao conteúdo informativo das imagens, textos e áudios falsos o resultado destas eleições. Acho importante começarmos a fazer uma análise formal da comunicação da extrema direita. Como o discurso indignado, as imagens chocantes, a retórica moralista repercutem a estética hipnótica de linchamento e “desencapetamento” que encontramos, respectivamente, em programas de televisão como Brasil Urgente [13], apresentado pelo Datena [14], e em algumas vertentes das religiões pentecostais e neopentecostais. E, nesta direção, penso que uma reflexão sobre o lugar da técnica nas atuais configurações do poder passará necessariamente por um estudo dos efeitos do WhatsApp sobre nossa cognição e sensibilidade. O que, nessa interface, teria favorecido a produção massiva desta indignação cega contra a própria política?

Isso não significa menosprezar toda a economia política por detrás da criação e venda de perfis psicológicos de usuários do WhatsApp, do impulsionamento de mensagens e da criação de fake news; significa simplesmente reconhecer que não é mais pela palavra que a política está sendo disputada, mas pelos afetos. E a esquerda ainda não inventou um modo de fazer política que não seja predominantemente pela palavra.

IHU On-Line – As redes sociais foram vistas como o principal canal de disseminação de ódio e de supressão ao pensamento do outro. Essas ações acabaram vazando para o mundo não virtual, culminando em casos de violência. Como compreender esses movimentos que começam num ambiente virtual e transbordam para as relações humanas?

Icaro Ferraz Vidal Junior – Em primeiro lugar, é importante não perder de vista que as relações que têm lugar nas redes sociais também são relações humanas. Sob a hegemonia de um discurso liberal bastante cínico, perdemos a capacidade de reivindicar os limites, bastante claros do ponto de vista jurídico, entre a liberdade de expressão e os crimes de ódio que efetivamente se proliferaram nos últimos tempos. Esse tema já vinha aparecendo em uma série de controvérsias no campo do humor, por exemplo, e a partir dos próprios discursos do presidente eleito. Acho que a impunidade, no caso das agressões verbais contra grupos inteiros, tanto nas redes sociais quanto dentro das próprias instituições políticas, autorizou, em alguma medida, a ocorrência destes crimes de ódio no espaço off-line.

IHU On-Line – O ambiental digital é capaz de suprimir as utopias revolucionárias? E como nutrir essas utopias diante dos atuais contextos?

Icaro Ferraz Vidal Junior – O ambiente digital não é uma entidade estabilizada, um a priori ao qual estamos irremediavelmente sujeitados. A história da internet é marcada por tensões entre projetos de controle, a serviço de governos e grandes corporações, e projetos de compartilhamento e constituição de redes de colaboração. Acredito, sim, que estamos diante de impasses inéditos e de um cenário bastante distópico. Mas não penso que conseguiremos sair disso até conseguirmos, lançando mão dessas mesmas ferramentas, inventar modos de vida, cognição e sensibilidade que se apresentem como uma alternativa mais interessante do que o ódio.

Notas:

[1] Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação): é uma rede descentralizada de mídia de esquerda, com atuação em mais de 250 cidades no Brasil. Sua abordagem é conhecida pela militância sociopolítica, declarando-se ser uma alternativa à imprensa tradicional. O grupo ganhou repercussão internacional na transmissão dos protestos no Brasil em 2013. (Nota da IHU On-Line)

[2] Movimento Brasil Livre (MBL): movimento político brasileiro que defende o liberalismo econômico e o republicanismo, ativo desde 2014. Em seu manifesto, cita cinco objetivos: "imprensa livre e independente, liberdade econômica, separação de poderes, eleições livres e idôneas e fim de subsídios diretos e indiretos para ditaduras". (Nota da IHU On-Line)

[3] Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira: foi uma exposição artística brasileira apresentada no Santander Cultural, na cidade de Porto Alegre. A exposição gerou polêmica devido a inúmeras acusações de apologia à pedofilia, à zoofilia e ao vilipêndio religioso. O IHU, na seção Notícias do Dia, em seu sítio, publicou uma série de textos sobre a polêmica. Entre eles Queermuseu e o avanço da direita na rede; e “Caso Queermuseu mostra que são tempos de intolerância. Da direita, mas também da esquerda”. (Nota da IHU On-Line)

[4] O texto está disponível aqui. (Nota do entrevistado)

[5] Vladimir Pinheiro Safatle (1973): filósofo, professor no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo - USP. É filho de Fernando Safatle e Ilmeide Tavares Pinheiro, militantes da Aliança Libertadora Nacional que tiveram que deixar o país natal, o Chile, quando o ditador Augusto Pinochet assumiu o poder. Nascido em Santiago, Vladimir veio para o Brasil com poucos meses de vida. Por isso se considera brasileiro. É mestre em Filosofia pela USP e doutor em Filosofia pela Universidade Paris VIII. Em 9-6-2016 o Prof. Dr. Nythamar de Oliveira, da PUCRS, esteve no IHU falando sobre O Circuito dos Afetos. Corpos Políticos, desamparo e o Fim do Indivíduo. Discussão do livro de Vladimir Safatle, cuja entrevista poderá ser conferida na edição especial sobre Baruch Spinoza, a ser publicada em breve pela revista IHU On-Line. O próprio Safatle falou sobre sua obra em 15-6-2016, em evento intitulado O Circuito dos Afetos. Corpos Políticos, desamparo e o Fim do Indivíduo, cuja entrevista O Brasil na era dos esgotamentos da imaginação política. Uma nação de zumbis que têm na melancolia seu modo de vida. (Nota da IHU On-Line)

[6] O texto está disponível aqui. (Nota do entrevistado)

[7] O conceito é tratado por Icaro em outra entrevista concedida à IHU On-Line, disponível aqui. (Nota da IHU On-Line)

[8] Eric Sadin: escritor e filósofo francês. Fundou a revista éc/artS (1999-2003), dedicada a práticas artísticas e novas tecnologias. É professor regular do Sciences Po Paris e trabalha em numerosas universidades e centros de pesquisa na Europa, América do Norte e Ásia. Foi professor na escola de arte de Toulon e professor visitante na ECAL Lausanne e IAMAS (Japão). (Nota da IHU On-Line)

[9] O texto está disponível aqui. (Nota do entrevistado)

[10] José Murilo de Carvalho (1939): Cientista político e historiador brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. É autor, entre outras obras, de A formação das almas: o imaginário da República no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 1990) e Cidadania no Brasil – o longo caminho (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001). Concedeu as entrevistas Independência do Brasil: Um movimento socialmente conservador, na edição 234, da revista IHU On-Line, e Os desafios à construção da cidadania brasileira, na edição 428 da revista IHU On-Line. (Nota da IHU On-Line)

[11] Jacques Rancière (1940): filósofo argelino, professor da European Graduate School de Saas-Fee e professor emérito da Universidade Paris VIII (Vincennes-Saint-Denis). Seu trabalho se concentra sobretudo nas áreas de estética e política. Pensa a história, a sociedade, os movimentos políticos e o cinema. Colaborador frequente da lendária revista Cahiers du Cinéma. Foi um dos colaboradores do pensador Louis Althusser no volume Lire le Capital (Ler o Capital), de 1965, antes de romper com seu antigo professor na École normale supérieure. No final dos anos 1970, Rancière organiza, com outros jovens intelectuais, como Arlette Farge e Geneviève Fraisse, o coletivo Révoltes Logiques que, sob a inspiração do poeta Rimbaud, questiona as representações tradicionais do social e publica a revista Les Révoltes logiques. Paralelamente, voltou sua atenção para a emancipação operária e os utopistas do século XIX (notadamente Étienne Cabet), com uma reflexão filosófica sobre educação e política. Desse trabalho nasceu sua tese de doutorado, publicada em 1981, sob o título La Nuit des prolétaires. Archives du rêve ouvrier, sobre os operários saint-simonianos. Alguns de seus livros lançados no Brasil são Nomes da História. Ensaio de Poética do Saber (Unesp, 2014), O Ódio à Democracia (São Paulo: Boitempo, 2014), O Inconsciente Estético (São Paulo: Ed. 34, 2009), A noite dos proletários: arquivos do sonho operário (São Paulo: Cia. das Letras, 1988), O desentendimento –Política e Filosofia (São Paulo: Ed. 34, 1996) e Políticas da Escrita (São Paulo: Ed. 34, 1995). Esteve no Brasil em 2005, quando participou do Congresso Internacional do Medo, que aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro. (Nota da IHU On-Line)

[12] O texto está disponível aqui. (Nota do entrevistado)

[13] Brasil Urgente: programa de televisão jornalístico brasileiro apresentado pela Rede Bandeirantes. Apresentado por José Luiz Datena, o programa exibe o seu noticiário com casos policiais. Trata-se de um telejornal com uma linha popular, tendo bastantes entradas ao vivo de repórteres de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba, Porto Alegre. Além de entrevistas, também é muito utilizado o helicóptero para a cobertura de tragédias, e são exibidas matérias gravadas sobre crimes hediondos e bizarros. (Nota da IHU On-Line)

[14] José Luiz Datena (1957): jornalista, locutor esportivo, apresentador de televisão e radialista nascido em Ribeirão Preto (SP). (Nota da IHU On-Line)

*Publicado originalmente no IHU On-Line

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

UFMT recebe seminário sobre fluxos migratórios


UFMT
http://www.ufmt.br/ufmt/site/noticia/visualizar/44274/Cuiaba



UFMT recebe seminário sobre fluxos migratórios

Publicado em Notícias | 08/11/2018

 Iniciou, nesta quinta-feira (08), no auditório da Secretaria de Tecnologia Educacional da Universidade Federal de Mato Grosso (Setec/UFMT), o seminário “Fluxos Migratórios”. O evento tem o objetivo de discutir a questão migratória e a consolidação de políticas públicas, principalmente em âmbito estadual e contou com a participação de imigrantes haitianos, venezuelanos, filipinos, cubanos, indonésios e vietnamitas.
Na oportunidade, a secretaria de Relações Internacionais da UFMT, professora Irene Cristina de Mello, disse que é importante ampliar a discussão sobre migração dentro da Universidade, por se tratar de um direito fundamental das pessoas.
Por sua vez, o professor Alexandre dos Anjos, secretario de Tecnologias Educacionais, disse que a UFMT já possui programa de formação multicultural baseado em Ensino a Distância e que essa é uma ferramenta que pode contribuir muito para o diálogo sobre migração.
“O mais recente relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) diz que, mundialmente, 280 milhões de pessoas estão migrando atualmente. É o maior fluxo mundial da história e, no Brasil, a tendência é que isso aumente por várias situações do contexto da américa latina”, afirmou a professor Michele Sato, coordenadora do evento e do Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental, Comunicação e Arte do Instituto de Educação (Gpea/IE)
Para o padre Pedro Freitas Rodrigues, coordenador da Pastoral do Migrante, a questão migratória no Brasil é ampla. Somente nesse ano, mais de 300 venezuelanos já passaram pela instituição. “O maior problema enfrentado por eles são das pessoas que acreditam que o migrante vem para o Brasil em busca de tirar coisas, pegar empregos. Não é isso”, disse.
Ducham Jacques, imigrante haitiano no Brasil desde 2013 e presidente da Organização de Suporte das Atividades Emigrantes no Brasil (Osemb). “Quando cheguei no Brasil, passei por diversas dificuldades e tive que aprender a me adaptar, por isso comecei a Osemb, que tem o objetivo de auxiliar outros que estão passando pela mesma situação com documentação e moradia”, contou.
A programação segue até sexta-feira (09) e é composta por relatos de experiência de migrantes e abrange três painéis: “Fluxos Migratórios e Perspectivas Globais”, “Legislação, Trabalho e Migração” e “Desafios, Ganhos, Compromissos”.
Ao final do evento será redigida uma carta com base nos depoimentos e debates, contemplando questões gerais e específicas de Mato Grosso, sobretudo nos temas de Refúgio, Educação e Ensino de Português.
Confira as fotos do evento.

fotos de WILLIAN GOMES - UFMT












programa Mais Médicos

MAIS MÉDICOS - CUBA
Fotos: Araquém de Alcântara

https://nocaute.blog.br/2018/11/14/cuba-anuncia-que-nao-participara-mais-do-programa-mais-medicos/?fbclid=IwAR1ou16AdKNU5VKAzdFq5d4t23hlnsKCaZIV4RzslLclx_Ks0gpWiOkHNmA


Atacada por Bolsonaro, Cuba encerra o programa Mais Médicos

O Ministério da Saúde de Cuba declarou que não participará mais do programa Mais Médicos. De acordo com a nota divulgada, Jair Bolsonaro ameaçou a presença dos médicos cubanos com discursos depreciativos e reiterou que modificará termos e condições do Programa Mais Médicos, desrespeitando a Organização Pan-americana da Saúde.
Leia a nota na íntegra:
O Ministério da Saúde Pública da República de Cuba, comprometido com os princípios solidários e humanistas que durante 55 anos têm guiado a cooperação médica cubana, participa desde seus começos, em agosto de 2013, no Programa Mais Médicos para o Brasil.
A iniciativa de Dilma Rousseff, nessa altura presidenta da República Federativa do Brasil, tinha o nobre propósito de garantir a atenção médica à maior quantidade da população brasileira, em correspondência com o princípio de cobertura sanitária universal promovido pela Organização Mundial da Saúde.
Este programa previu a presença de médicos brasileiros e estrangeiros para trabalhar em zonas pobres e longínquas desse país.
A participação cubana nele é levada a cabo por intermédio da Organização Pan-americana da Saúde e se tem caracterizado por ocupar vagas não cobertas por médicos brasileiros nem de outras nacionalidades.

Nestes cinco anos de trabalho, perto de 20 mil colaboradores cubanos ofereceram atenção médica a 113 milhões 359 mil pacientes, em mais de 3 mil 600 municípios, conseguindo atender eles um universo de até 60 milhões de brasileiros na altura em que constituíam 88% de todos os médicos participantes no programa.

Mais de 700 municípios tiveram um médico pela primeira vez na história.
O trabalho dos médicos cubanos em lugares de pobreza extrema, em favelas do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador de Baía, nos 34 Distritos Especiais Indígenas, sobretudo na Amazônia, foi amplamente reconhecida pelos governos federal, estaduais e municipais desse país e por sua população, que lhe outorgou 95% de aceitação, segundo o estudo encarregado pelo Ministério da Saúde do Brasil à Universidade Federal de Minas Gerais.
Em 27 de setembro de 2016 o Ministério da Saúde Pública, em declaração oficial, informou próximo da data de vencimento do convênio e em meio dos acontecimentos relacionados com o golpe de estado legislativo-judicial contra a Presidenta Dilma Rousseff que Cuba “continuará participando no acordo com a Organização Pan-americana da Saúde para a implementação do Programa Mais Médicos, enquanto sejam mantidas as garantias oferecidas pelas autoridades locais”, o que até o momento foi respeitado.

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, fazendo referências diretas, depreciativas e ameaçadoras à presença de nossos médicos, declarou e reiterou que modificará termos e condições do Programa Mais Médicos, com desrespeito à Organização Pan-americana da Saúde e ao conveniado por ela com Cuba, ao pôr em dúvida a preparação de nossos médicos e condicionar sua permanência no programa a revalidação do título e como única via a contratação individual.

As mudanças anunciadas impõem condições inaceitáveis que não cumprem com as garantias acordadas desde o início do Programa, as quais foram ratificadas no ano 2016 com a renegociação do Termo de Cooperação entre a Organização Pan-americana da Saúde e o Ministério da Saúde da República de Cuba.
Estas condições inadmissíveis fazem com que seja impossível manter a presença de profissionais cubanos no Programa.
Por conseguinte, perante esta lamentável realidade, o Ministério da Saúde Pública de Cuba decidiu interromper sua participação no Programa Mais Médicos e foi assim que informou a Diretora da Organização Pan-americana da Saúde e os líderes políticos brasileiros que fundaram e defenderam esta iniciativa.
Não aceitamos que se ponham em dúvida a dignidade, o profissionalismo, e o altruísmo dos colaboradores cubanos que, com o apoio de seus familiares, prestam serviço atualmente em 67 países.

Em 55 anos já foram cumpridas 600 mil missões internacionalistas em 164 nações, nas quais participaram mais de 400 mil trabalhadores da saúde, que em não poucos casos cumpriram esta honrosa missão mais de uma vez.

Destacam as façanhas de luta contra o ébola na África, a cegueira na América Latina e o Caribe, a cólera no Haiti e a participação de 26 brigadas do Contingente Internacional de Médicos Especializados em Desastres e Grandes Epidemias “Henry Reeve” no Paquistão, Indonésia, México, Equador, Peru, Chile e Venezuela, entre outros países.
Na grande maioria das missões cumpridas, as despesas foram assumidas pelo governo cubano.
Igualmente, em Cuba formaram-se de maneira gratuita 35 mil 613 profissionais da saúde de 138 países, como expressão de nossa vocação solidária e internacionalista.
Em todo momento aos colaborados foi-lhes conservado seu postos de trabalho e o 100 por cento de seu ordenado em Cuba, com todas as garantias de trabalho e sociais, mesmo como os restantes trabalhadores do Sistema Nacional da Saúde.
A experiência do Programa Mais Médicos para o Brasil e a participação cubana no mesmo, demonstra que sim pode ser estruturado um programa de cooperação Sul-Sul sob o auspício da Organização Pan-americana da Saúde, para impulsionar suas metas em nossa região.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e a Organização Mundial da Saúde qualificam-no como o principal exemplo de boas práticas em cooperação triangular e a implementação da Agenda 2030 com seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Os povos da Nossa América e os restantes do mundo bem sabem que sempre poderão contar com a vocação humanista e solidária de nossos profissionais.

O povo brasileiro, que fez com que o Programa Mais Médicos fosse uma conquista social, que desde o primeiro momento confiou nos médicos cubanos, aprecia suas virtudes e agradece o respeito, a sensibilidade e o profissionalismo com que foram atendidos, poderá compreender sobre quem cai a responsabilidade de que nossos médicos não possam continuar oferecendo sua ajuda solidária nesse país.

Havana, 14 de novembro de 2018.

Assista ao documentário “Vem de Cuba”, que retrata o trabalho de dois médicos cubanos no litoral do Rio Grande do Norte.



















terça-feira, 13 de novembro de 2018

Bolsonaro é o presidente mais reacionário das Américas, diz Human Rights


https://blogdacidadania.com.br/2018/11/bolsonaro-e-o-presidente-mais-reacionario-das-americas-diz-human-rights/

Bolsonaro é o presidente mais reacionário das Américas, diz Human Rights

Todos os posts, Últimas notícias

A ONG internacional HRW (Human Rights Watch) avaliou que o discurso do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), contém “posições discriminatórias sem precedentes” na América Latina e oferece risco às democracias da região. Por outro lado, a HRW disse ver no futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública, o juiz federal Sergio Moro, o fator “alentador” que pode servir como contraponto às declarações polêmicas do capitão reformado do Exército a respeito da criminalização de movimentos sociais e sobre um combate mais letal, das polícias, contra o crime organizado.
A avaliação é do diretor da HRW na América Latina, José Miguel Vivanco, que se reúne nesta terça-feira (13) com o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, e com a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, em Brasília. No encontro, as partes debaterão o papel que os organismos internacionais de defesa dos direitos humanos, o poder Judiciário e os meios de comunicação desempenharão durante a vigência do novo governo.
Em entrevista ao UOL no escritório brasileiro da HRW no Brasil, em São Paulo, o advogado chileno –que integra a ONG desde 1986 e opera como diretor dela para a América Latina desde 1994 –afirmou que a entidade vê com preocupação o que um futuro governo Bolsonaro possa gerar não apenas ao Brasil, onde o militar foi eleito com 55% dos votos válidos, mas para a América Latina, uma vez que, assinalou, o país é hoje a quarta maior democracia no mundo.
“Estamos muito preocupados pelo que esse governo possa fazer, já que, durante a campanha, sua retórica e suas promessas foram explicitamente contrárias a valores básicos de direitos humanos e a liberdades públicas”, afirmou Vivanco, para quem Bolsonaro é “certamente radical e populista”.
Na avaliação do diretor da ONG, a situação é inédita na América Latina e não encontra paralelo mesmo em outros países que têm hoje um regime totalitário, como a Venezuela.
“Isso jamais havia acontecido na América Latina: tivemos muitas experiências ruins de governos autoritários, ditatoriais. Mas, em um processo eleitoral competitivo, nunca tínhamos tido um líder político eleito com um discurso desses –que sugere inclusive políticas ou posições discriminatórias contra brasileiros e não demonstra a menor empatia por aqueles que estejam em situação de maior vulnerabilidade sobre os seus direitos. Isso não tem precedentes na região”, José Miguel Vivanco, diretor da HRW para a América Latina.
Sobre as posições que considera mais extremadas e discriminatórias por parte do presidente eleito, o ativista destacou as relativas aos direitos da população LGBT, da população indígena, aos direitos das mulheres e os “comentários ofensivos sobre negros”. Ao mesmo tempo, ponderou, Bolsonaro precisa explicar aos organismos internacionais quais políticas pretende implementar a respeito dos refugiados venezuelanos –em grave crise política e institucional, a Venezuela é alvo de sanções econômicas de parte da comunidade mundial, em virtude de seu regime ditatorial, e teve cerca de 3 milhões de habitantes buscando refúgio em países da América Latina, como o Brasil.
“Consideramos que a Venezuela está sendo governada por uma ditadura que viola sistematicamente os direitos fundamentais dos venezuelanos e é responsável por uma crise humanitária gravíssima. Até agora, havia uma disposição muito boa do Brasil em receber e apoiar os refugiados que vieram para cá –tomara que isso continue”, defendeu.
Questionado se acredita em um diálogo diplomático do futuro governo brasileiro com o de Nicolás Maduro depois de, em campanha, associar a esquerda política brasileira aos riscos de o Brasil viver crise semelhante à do vizinho, Vivanco analisou: “Creio que a Venezuela é não só uma ditadura, mas uma cleptocracia liderada por Maduro, que não tem mais a mínima legitimidade”, definiu.
“Ali [Na Venezuela], se violam os direitos humanos de uma maneira sistemática e generalizada; cremos que a pressão internacional a esse regime deve redobrar, de forma que me parece que as posições públicas de Bolsonaro em relação à ditadura venezuelana são justificadas…Não estou sugerindo que a solução para a situação da Venezuela seja uma invasão militar ou outra coisa –mas é preciso fortalecer os mecanismos de pressão internacional ao regime de Maduro para impulsionar uma transição democrática lá”
Vivanco insinuou que a HRW vê no futuro presidente brasileiro características próximas das que vê em Maduro. “É um risco eleger um líder populista munido de um discurso demagogo, simplista e em direta contradição com valores básicos de direitos humanos e liberdades públicas, mas que chegou ao poder com esse nível de apoio popular – tanto de pobres quanto de ricos”, avaliou.
Em sua avaliação, a situação representa um risco para todo o mundo. “É preocupante o que representa a eleição de um ‘messias’ à estabilidade democrática não apenas no Brasil, porque, pelo peso que tem o país na América do Sul, receamos que esse fenômeno poderá se replicar em outras partes da América Latina e do mundo – o Brasil é hoje a quarta democracia do planeta, mas o exemplo que está dando hoje em dia, em nível global, obviamente que é muito, muito mau”, analisou.
Entretanto, o diretor foi taxativo ao enfatizar que, a despeito da eleição de um político com essas características, a realidade brasileira é diferente da venezuelana no que se refere à independência de suas instituições.
“O Brasil é uma democracia, não é a Venezuela. Lá, eu fui expulso, preso e tive uma arma apontada para mim [durante seu trabalho de ativista da HRW]. O Brasil certamente é um país muito polarizado e dividido, mas tem um poder Judiciário independente, e não uma concentração total de poderes”, afirmou Vivanco, que disse esperar se reunir com as autoridades do próximo governo a fim de dar prosseguimento ao trabalho que é feito sobre o país, ininterruptamente, já desde o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992).
Ao mesmo tempo em que mostra preocupação com Bolsonaro, Vivanco disse acreditar que a escolha de Sérgio Moro para o ministério da Justiça pode ajudar a evitar que posições radicais possam ser adotadas pelo novo governo. O diretor para a América Latina lembrou que Moro já defendeu a importância de se evitarem confrontos policiais que resultem em mortes, salvo casos excepcionais, e também posicionou-se contra a criminalização de movimentos sociais –alguns dos quais, como o MST (Movimento dos Sem Terra), já classificados por Bolsonaro como “terroristas”.
“Quando Moro diz estar em desacordo com posições que refletem mais essa ‘mão dura’ e assinala que o trabalho policial deve ser mais profissional, baseado em informação e inteligência, isso não só nos chama a atenção, como nos parece alentador e muito positivo. Veremos.”
Também as declarações recentes dadas à BBC pelo vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão (PRTB), para quem Bolsonaro vai “proteger a todos, independentemente de sua crença, seu gênero, ou de suas opções sexuais”, parecem ter impactado positivamente na percepção do chileno.
“São declarações tranquilizadoras, mas me chamam a atenção porque são muito contraditórias às posições de Bolsonaro –a ver se dizem respeito a uma operação de relações públicas, se revelam distintas visões no governo ou são uma reação às repercussões que existem em nível internacional para o que vai ocorrer no Brasil”, assinalou. “Veremos qual o papel que Sérgio Moro e Mourão terão”, completou.
Para Vivanco, relacionar direitos humanos à esquerda é erro.
Indagado se espera condições adequadas para fiscalizar a defesa dos direitos humanos no governo Bolsonaro, Vivanco se mostrou novamente otimista. “Fazemos nosso trabalho no Brasil há quase 30 anos; creio que faremos o mesmo durante o governo Bolsonaro e sempre documentando em termos objetivos e rigorosos a situação de direitos humanos e fazendo um diagnóstico sério, não ideológico; formulando recomendações concretas, realistas, não esotéricas”, elencou.
Vivanco explicou ser errado elencar os atos de ONGs como a HRW como defesa de bandeiras da esquerda –argumento comumente usado pelo capitão reformado. “É um erro crer que essa causa dos direitos humanos seja da esquerda: as violações podem ser cometidas por governos de direita, de esquerda, de centro, católicos ou evangélicos, e as vítimas podem ser de esquerda e de direita, porque o status socioeconômico ou educacional delas não lhes garante nada”, definiu.
Da UOL

domingo, 11 de novembro de 2018

Insistir, persistir, resistir y nunca desistir esa debe ser la premisa de nosotros los Migrantes


Fórum Fluxos Migratórios
Palestra de Rosbelli Rojas
Painel 1: perspectivas globais
Cuiabá, 08/11/2018

INSISTIR, PERSISTIR, RESISTIR Y NUNCA DESISTIR

Esta debe ser la premisa de nosotros los Migrantes

 

Por ROSBELLI M. ROJAS

Venezuela




La comunidad venezolana en el exterior se ha convertido en un nuevo método de exilio, todo esto causado por la descomposición política, económica y social que vive nuestro país, con una economía social casi inexistente, la falta de esperanza de una mejor política a un futuro cercano y el crimen desenfrenado en todos los niveles.

Porqué los venezolanos no poseemos una cultura migratoria pero nos hemos visto obligados a migrar sin distinción de estado civil , nivel educativo , ocupación y tampoco este condicionada la ubicación geográfica ni la definición política  lo más grave es que esta es una crisis generalizada que puede desembocar en un problema demográfico en los próximos años considerando que la mayor proporción de Migrantes son jóvenes así como también la pérdida de la fuerza laboral del país que es necesaria para la recuperación económica.

Es necesario recordar que Venezuela fue país receptor de Migrantes durante décadas, su contexto ofrecía oportunidades a quienes buscaban una mejor calidad de vida por lo tanto los venezolanos no tuvimos la necesidad de migrar, se hablaba de migración en Venezuela para la formación académica o para los que obtenían oportunidad de trabajo que supera las expectativas existentes y estas dos opciones sólo las tenían los de clase media o alta.

Entonces quiere decir que la población más humilde ha sido la primera en sufrir este desbalance económico en el que muchos factores han influido, pero muchos consideramos que el principal ha sido la evidente lucha de poder en la que se han enfrentado gobierno y oposición siendo entonces el pueblo y sólo el pueblo el afectado.

Alguno otros factores que sirvieron de detonantes fueron la reconversión monetaria que no fue otra cosa que la desaparición de la moneda de este modo fuimos obligados a utilizar dinero electrónico con un alza de intereses intolerante. La especulación fue aumentando el no acatamiento de las leyes y el acaparamiento de los productos unido a esto el déficit gubernamental.

El aumento aún más del índice delictivo las estadísticas hablan que víctimas mortales de la delincuencia hasta 1999 eran 25 de cada 100 mil habitantes, de 1999 hasta 2014 subió a 82 por cada 100 mil habitantes de aquí en adelante las estadísticas no cuentan porque se unió a esto el secuestro la extorsión (los planes) que no es otra cosa que la delincuencia fuertemente organizada los cuales llegan a tomar poblaciones enteras en su mando y hasta planes alimentarios del gobierno.

Lo más alarmante de todo esto es que las medidas de seguridad implementadas por el gobierno no son suficiente para hacerles frente por todos los francos y lo que debería ser seguridad pública se convierte en la temida inseguridad pública.

Una de las cosas más sensible que tienen los pueblos es la salud, entonces en Venezuela el sistema de salud colapsó siendo intermitente o completamente inoperativo y en algunos lugares inexistente, la escases de medicamentos básicos , catéteres, suministro quirúrgicos unido a esto la mala alimentación comienza ha hacer estragos porque la salud es para quien la puede pagar .

Se hace imposible para el venezolano adquirir la cesta básica y menos la cesta alimentaria por el alto grado de inflación entonces se convierten nuestros niños y ancianos en las primeras víctimas de malnutrición. Una cruda realidad es que esos niños y ancianos son de nuestros pueblos originarios y pueblo Afrodescendiente el cual constituimos el 30% de la población venezolana. Entonces nos damos cuenta que esta migración produce algo inédito porque es la salida de muchos venezolanos altamente cualificados lo cual nos está dejando en condiciones de vulnerabilidad porque no debemos olvidar que un país vacío con alto índice de migración es un país frágil.

Pero las casualidades no existen todo las a por algo. Debo recordarles que nosotros provenimos de Miranda el Soldado Universal de Bolívar el Libertador también del precursor de la abolición de la esclavitud José Leonardo Chirinos y de el Indomable Cacique Guaicaipuro.

Por nuestras venas corre sangre de resistencia la fortaleza y la grandeza de quienes jamás se rinden de quienes se levantan mil veces hasta vencer todo esto y todos los Migrantes que llegaron s nuestro país nos han convertido en un pueblo con gran adaptabilidad porque de ellos provenimos chinos, italianos, portugueses, alemanes, colombianos, árabes, turcos, palestinos, libaneses, haitianos y brasileños.

En Venezuela no solamente hay hombres fuertes y mujeres bellas los hombres son trabajadores y cuidan y protegen a sus familias lo dan todos por ellas, aquello que dice detrás de un gran hombre siempre hay una gran mujer para nosotras no es así porque estamos al lado de nuestro compañero de vida dándole el frente a la batalla día a día o solas metiéndole el pecho a la vida misma por nuestras familias por nuestros hijos.

Son necesarias políticas públicas que permitan una vida digna en el país de este modo comenzar la construcción de lo expuesto en nuestra Carta Magna refundar la república para establecer una sociedad democrática participativa protagónica multiétnica y pluricultural en un estado de justicia federal y descentralizado que asegure el derecho a la vida al trabajo la cultura la educación la justicia social y la igualdad sin discriminación ni subordinación alguna.

Mientras tanto esa maravillosa mezcla de colores ritmos y sabores se va esparciendo por el mundo casi de manera natural y yo lo comparó con el samán que suelta su semilla al viento para que vuele lejos donde nacerá otro Samán grande y fuerte.

¡Lo estamos logrando!