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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Europa: o espectro da extrema-direita

OP
http://outraspalavras.net/blog/2014/01/05/europa-o-espectro-da-extrema-direita/


Europa: o espectro da extrema-direita

Integrantes da Liga de Defesa da Inglaterra, grupo islamofóbico
Integrantes da Liga de Defesa da Inglaterra, grupo islamofóbico
Em três países, partidos ultraconservadores e xenófobos podem vencer eleições para Parlamento Europeu. Ascensão revela, em contrapartida, oportunidade para esquerda
Por Antonio Martins
Como o bom jornalismo, mesmo quando produzido com viés conservador, ajuda a enxergar os fatos e a interferir sobre seu desfecho. A revista inglesa Economist acaba de publicar um editorial e uma análise sobre uma das tendências políticas mais preocupantes da atualidade: o rápido crescimento, na maioria dos países da Europa, de partidos políticos de extrema-direita. Os textos revelam: tais agremiações podem conquistar até 10% das 751 cadeiras do próximo Parlamento Europeu, a ser eleito em maio. Mais: em nações com influência destacada sobre o continente e além dele — como Inglaterra, França e Holanda — a ultradireita pode ser majoritária, nesse pleito. Não se trata apenas de um fenômeno eleitoral. O estado de bem-estar social, que constituiu uma espécie de identidade comum europeia no pós-II Guerra, entrou em declínio agudo, com a crise econômica pós-2008. A esquerda não foi capaz, ainda, de apresentar uma alternativa. Diante do vazio, uma parcela considerável das populações busca refúgio em três atitudes: uma crítica difusa e desesperançada às instituições políticas, vistas como elitistas e corruptas; a nostalgia em relação a um passado comunitário ou nacional supostamente glorioso; e, em especial, o ressentimento — ou o ódio — em relação ao outro, em especial o não-europeu.
A extrema-direita que cresce, mostram os textos de Economist, não é homogênea. Em alguns casos, ela assume claramente seu caráter truculento e brutal. O partido gregoAurora Dourada (7% dos votos, em 2012), por exemplo, assemelha-se aos nazistas tanto em seu símbolo (muito semelhantes à suástica) quanto em suas práticas. Constitui milícias armadas, agride imigrantes e envolveu-se em assassinatos. Já Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional francesa (17,9%, em 2012) e Nigel Farage, à frente do Partido Independentista do Reino Unido procuram construir para suas agremiações uma imagem respeitável. Rejeitam associação a regimes autoritários, participam sem exaltação de debates na TV.
Há divergências inclusive em relação a questões que simbolizaram a atitude da extrema-direita no passado: a postura diante dos judeus, por exemplo. A Frente Nacional não dissociou-se de seu passado antissemita (Jean-Marie Le Pen, pai de Marine e fundador do partido, afirmava que o Holocausto promovido pelos nazistas foi “um detalhe” na História). Já o Partido da Liberdade (PVV) holandês é ardorosamente pró-Israel (além de defender o casamento gay).
Mas todos estes partidos têm, em comum, um tipo de crítica às instituições e aostatus-quo que merece ser examinado atentamente, inclusive porque pode fazer sucesso não apenas na Europa. Eles denunciam o empobrecimento de parcelas crescentes da população. Não desejam, é claro, associar este fenômeno a suas causas reais — em especial, o avanço da desigualdade e o surgimento de uma oligarquia financeira. Mas são hábeis em apontar, como culpados, os “políticos” (em especial a Comissão Europeia) e, em especial, o estrangeiro. Apresentam os imigrantes como bárbaros que vão à Europa para disputar os serviços sociais com os cidadãos “nacionais”. Odeiam, em especial o Islã e os muçulmanos. Estes representam, em seu discurso, o mesmo papel de “ameaça externa” que Hitler associava aos judeus.
Esta capacidade de capitalizar o sentimento social e dirigi-lo para causas retrógradas torna a extrema-direita perigosa não apenas pelo risco de sua eventual chegada ao poder. Ela contamina, crescentemente, as agendas nacionais. Os partidos da direita tradicional (e mesmo da antiga social-democracia) têm aprovado, cada vez mais, leis e medidas que restringem a imigração e limitam os direitos e liberdades dos estrangeiros.
Embora sombrio, o cenário revela, visto por outro ângulo, uma janela de oportunidade. Se parcelas crescentes dos europeus assumem posições anti-establishment, não seria possível oferecer-lhes outras saídas? Como fazê-lo? Dependerá, provavelmente, de dois fatores. Um deles está nas ruas: os movimentos autônomos de protesto, que eclodiram em diversos países do Velho Continente em 2011, conseguirão se rearticular — e mais que isso, formular reivindicações e programas claros? O outro encontra-se no cenário institucional: os partidos de esquerda serão capazes de dar outro sentido ao desconforto das populações?
Vale registrar um fato animador. Na semana passada, Alexis Tsipras, líder do partido grego Syriza, foi escolhido num congresso de partidos de esquerda europeus como candidato do grupo à presidência da Comissão Europeia. Esta condição torna-o uma espécie de porta-voz comum dos partidos, nas eleições europeias de maio. O Syriza(27% nas eleições gregas de 2012) é conhecido precisamente por sua capacidade de dialogar com amplos setores do eleitorado e de articular ação institucional com mobilização dos movimentos sociais.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

David Cameron, o xenófobo

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/David-Cameron-o-xenofobo/6/29935


David Cameron, o xenófobo

O programa do primeiro ministro britânico David Cameron contra a imigração de trabalhadores búlgaros e romenos é ilegal e carece de base quantitativa,


Editorial - El País
Arquivo

Seu programa ilegal contra a imigração búlgara e romana carece de base quantitativa
 
Transcorrido o período transitório de sete anos para implantar sua livre circulação por todo o território da União Europeia (UE), os trabalhadores por conta alheia búlgaros e romanos podem, desde 1º de janeiro, movimentar-se por qualquer de seus Estados membros e instalar-se neles.
 
O primeiro ministro britânico, o conservador David Cameron, utilizou esta perspectiva para criar medo. Fez isso em um ominoso artigo publicado no dia 27 de novembro, com o mesmo falso argumento usado pelo líder ultradireitista austríaco Jörg Haider para tentar torpedear a ampliação da UE aos países do leste: a supressão de fronteiras provocaria um aluvião migratório de péssimas consequências para a economia e os serviços sociais britânicos.
 
Desde que Cameron abriu a veda, alunos de seus ministros vem competindo para graduar-se em sua mesma xenofobia, propondo medidas ilegais como a fixação de cotas anuais, a discriminação nas ajudas sociais a romenos e búlgaros, ou um assédio ativo para impedir o acesso à moradia ou à saúde. Pouca sorte encontrarão nos tribunais e isso se os liberais de Nick Clegg não conseguirem abortá-las antes.
 
O troféu de atuações agressivas contra concidadãos europeus já tem sido deslegitimado pela Comissão Europeia e pelas Nações Unidas, entre outros. Acaso o mais insidioso desta deriva, que troca o tradicional euroceticismo do conservadorismo britânico em agressiva euro-hostilidade, seja a falsidade de suas premissas quantitativas. Porque não se registrou nenhuma proclividade dos cidadãos romenos e búlgaros em instalar-se no Reino Unido: não chegam nem a 15% dos que se trasladaram nesses anos para a Espanha ou a Itália. E também porque quem pede essas ajudas sociais são pouquíssimos e, quanto aos serviços sociais, os jovens imigrantes aparecem entre os que menos utilizam as prestações sanitárias.
 
Mas, sobretudo, porque o precedente colocado contra si, o de polacos e húngaros, não foi, contra o que esgrime Cameron, “um erro monumental” de seus predecessores. Ao contrário, constituiu um fluxo muito benéfico para a economia britânica: o saldo líquido entre sua contribuição e seu custo se conta por bilhões de libras, e estudos independentes acreditam que essa imigração incrementou sua competitividade.