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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Por um BRICS para os povos

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Por um BRICS para os povos

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Chefes de Estado dos BRICS, posam para foto, após 6ª reunião de cúpula do grupo, em julho, em Fortaleza
Chefes de Estado dos BRICS, posam para foto, após 6ª reunião de cúpula do grupo, em julho, em Fortaleza
Bloco parece de fato disposto a questionar hegemonia das potências ocidentais. Mas será possível levá-lo a considerar nova ordem mundial? 
Por Fátima Melo
Os resultados da VI Cúpula dos BRICS, expressos na Declaração de Fortaleza, evidenciam que o bloco passou a dar passos concretos em iniciativas de grande importância na disputa por uma nova ordem global que encontra-se em um longo processo de reconfiguração desde o fim da Guerra Fria.
A criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas dão concretude à demanda por democratização da arquitetura financeira internacional e pela reforma das instituições de Bretton Woods. Mas a Declaração de Fortaleza não para por aí e afirma a disposição do bloco em atuar em uma ampla gama de temas estratégicos em disputa na arena global: sempre reiterando a centralidade das Nações Unidas, os BRICS se posicionam claramente em relação aos conflitos na Síria, no Irã e a questão nuclear, Afeganistão, Iraque, Ucrânia, Palestina, e reafirmam “a necessidade de uma reforma abrangente das Nações Unidas, incluindo seu Conselho de Segurança, com vistas a torná-lo mais representativo, eficaz e eficiente, de modo que possa responder adequadamente a desafios globais. China e Rússia reiteram a importância que atribuem ao status e papel de Brasil, Índia e África do Sul em assuntos internacionais e apoiam sua aspiração de desempenhar um papel maior nas Nações Unidas” (parágrafo 25). Somada à ênfase no reforço ao multilateralismo, a VI Cúpula dos BRICS deu clara sinalização de interesse no fortalecimento da articulação com a UNASUL, dando continuidade ao movimento feito na V Cúpula, realizada em Durban, quando também houve reunião com países africanos.
Não há dúvida que os BRICS incomodam as potências tradicionais. A população dos cinco países chega a quase metade da população e força de trabalho mundial; o território somado entre os membros do bloco ocupa um quarto da área do planeta; seus membros têm um papel central em suas respectivas regiões; o PIB do bloco tem peso percentual expressivo e crescente no PIB mundial; e o bloco começa a fazer movimentos concretos de disputa nas arenas econômica, financeira e estratégica. Um sinal evidente de que os BRICS estão incomodando foi o anúncio de novas sanções contra a Rússia feito pelo governo dos EUA no mesmo dia da reunião do bloco com a UNASUL.
A VI Cúpula escolheu como tema o “Crescimento Inclusivo: Soluções Sustentáveis”, e é precisamente no tema escolhido como principal que se encontram os maiores bloqueios e desafios a serem enfrentados pelo bloco. Se por um lado há que se louvar o destaque e frequência conferidos ao desenvolvimento sustentável na Declaração de Fortaleza, por outro não é possível encontrar nenhuma definição sobre o significado do termo ao longo do documento, o que dificulta a compreensão do sentido dado pelo bloco aos parágrafos dedicados à agenda das Nações Unidas sobre diversidade biológica, mudanças climáticas, energia, agenda pós-2015, Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, educação, direitos reprodutivos e agricultura familiar. O Novo Banco de Desenvolvimento também foi criado para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, mas nas resoluções da VI Cúpula sobre o banco não existe qualquer definição ou qualificação do significado do termo.
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Apesar do destaque dado à narrativa do desenvolvimento sustentável, os bloqueios relacionados à inclusão social com sustentabilidade são o problema central e estratégico para o futuro do bloco pois expõem a natureza do modelo de desenvolvimento dos países membros, baseado em fortes desigualdades sociais e na exploração intensiva de recursos naturais. Todos os membros dos BRICS possuem taxas elevadíssimas e crescentes de concentração da renda, exceto o Brasil cuja valorização do salário mínimo e programas de inclusão social realizados na última década resultaram em redução das desigualdades, embora o país continue sendo um dos mais desiguais na América Latina, que por sua vez é a região mais desigual do mundo.
Diálogos sobre Desenvolvimento: os BRICS na perspectiva dos Povos – Os países do bloco e seus entornos regionais encontram-se em acelerado processo de reprimarização de suas exportações em resposta a demanda da China por recursos naturais, que importa dos países do bloco e de seus vizinhos minérios, combustíveis fósseis, soja e outros produtos agrícolas produzidos em amplas extensões de monocultivos intensivos no uso de pesticidas e agrotóxicos e de baixo emprego de força de trabalho, ao mesmo tempo em que a importação de manufaturas chinesas produzidas em condições de trabalho aviltantes empurra nossas economias para a desindustrialização e pressiona pelo rebaixamento de direitos dos trabalhadores. Produtos primários e manufaturas baseadas em recursos naturais representam mais de 85% das exportações da América Latina para a China (*). A contrapartida da intensificação de um modelo baseado na extração de recursos naturais são os frequentes conflitos de terra e violações de direitos territoriais por parte de empresas do agronegócio e da extração mineral contra camponeses, indígenas, pescadores e quilombolas. No caso do Brasil, a especialização primário-exportadora se viabiliza contando com a elevada concentração da propriedade da terra e com a fragilização e flexibilização da legislação de defesa de direitos duramente conquistados. No caso da África do Sul, a economia centrada na extração mineral é acompanhada de elevadas taxas de emissões de gases do efeito estufa e graves violações de direitos humanos de trabalhadores, cujo símbolo mais gritante é o conhecido massacre de Marikana.
Em paralelo a VI Cúpula dos BRICS, foi realizada a IIIa Cúpula Sindical dos BRICS cuja ênfase foi a defesa dos direitos dos trabalhadores do bloco contra a pressão por rebaixamento e precarização, e a tentativa de harmonização destes direitos pelos mais altos padrões. Foram realizados também os “Diálogos sobre Desenvolvimento – Os BRICS na Perspectiva dos Povos”, onde organizações e movimentos sociais dos países do bloco e de países que serão atingidos pelos projetos do Novo Banco de Desenvolvimento debateram e articularam suas lutas por direitos frente ao avanço dos investimentos e empresas extrativas sobre seus territórios. Os temores de que o Novo Banco reproduza o padrão de injustiças socioambientais dos investimentos de bancos nacionais de desenvolvimento de alguns de seus membros, como é o caso do BNDES, se somaram a decisão de que os povos dos países membros passarão a articular de forma mais intensa suas lutas por direitos. Frente ao avanço da mineração, da usurpação de terras, da precarização das condições de trabalho, da exploração de combustíveis fósseis e expulsão de camponeses e populações tradicionais de suas terras, é preciso articular lutas locais, nacionais e entre os países do bloco.
Diante da indefinição por parte dos governos sobre o que se entende por desenvolvimento sustentável, os povos dos BRICS deverão demandar que o bloco priorize um novo caminho de desenvolvimento com ênfase na distribuição da renda e riqueza, valorização do trabalho e dos salários, fortalecimento dos direitos das maiorias, que defina limites à voracidade das empresas dos países do bloco que avançam sobre os territórios e usurpam direitos, que estabeleça formas de regulação social e ambiental para os financiamentos do Novo Banco. Os projetos de infraestrutura a serem financiados pelo Novo Banco, ao invés de repetirem os desastres socioambientais cometidos pelos bancos nacionais de desenvolvimento, devem dar prioridade a infraestrutura de moradia, saneamento, saúde, educação, apoio a sistemas de produção de alimentos camponeses e familiares, entre tantas outras necessidades urgentes para a conquista de direitos para as maiorias nos cinco países.
Durante a VI Cúpula dos BRICS os trabalhadores, organizações e movimentos sociais demonstraram de forma contundente que não apenas o Fórum Empresarial e o Fórum Acadêmico devem ser considerados. Os povos dos países do bloco, suas lutas e demandas, precisam ser ouvidos. Embora haja resistências de outros membros do bloco, espera-se que o Brasil acolha a demanda pela criação do Conselho Nacional sobre Política Externa, pois este será o espaço institucional adequado de consulta e diálogo sobre os BRICS e demais temas da agenda de política externa no país.

sábado, 2 de agosto de 2014

Um novo banco para um velho desenvolvimento?

a pública
http://apublica.org/2014/07/um-novo-banco-para-um-velho-desenvolvimento/


Um novo banco para um velho desenvolvimento?


Desde o dia 15 de julho existe um novo banco na praça do sistema financeiro internacional.
O Novo Banco de Desenvolvimento, como batizado, foi criado na VI Cúpula dos BRICS, realizada em Fortaleza, no Ceará, com a presença dos presidentes dos cinco países integrantes do bloco. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (que formam o acrônimo da sigla) oficializaram assim a até agora maior ação da coalização – que desde 2009 se articula com o objetivo de intervir no cenário político e econômico internacional.
Lançado como uma alternativa ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, o Novo Banco de Desenvolvimento deverá, a partir de 2015, financiar projetos de infraestrutura nos países dos BRICS e em outras nações emergentes parceiras, diminuindo assim a dependência destes às outras duas instituições financeiras, ambas criadas no pós-guerra e desde então dominadas por Europa e Estados Unidos. Atualmente os BRICS já somam 20% do PIB global.
A criação do novo banco foi saudada pelos setores econômicos dos cinco países. As organizações das sociedades civis dos BRICS, que representam 40% da população mundial, no entanto, não foram ouvidas. Durante evento paralelo à cúpula oficial, realizada em Fortaleza, ativistas, integrantes de organizações não governamentais e de comunidades afetadas por atividades econômicas como a mineração debateram os riscos e oportunidades trazidos pelo novo banco.
Nos depoimentos e avaliações de integrantes do evento paralelo, também realizado em Fortaleza, a participação social é vista como crucial para aprofundar o intercâmbio entre as sociedades e evitar que o bloco sirva apenas aos interesses econômicos, acirrando ainda mais os impactos sociais e ambientais do atual modelo de desenvolvimento econômico.
Veja o vídeo com entrevistas de representantes dos cinco países integrantes da coalização.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Filiações: quem é Brics e quem é Wall Street?

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Filiacoes-quem-e-Brics-e-quem-e-Wall-Street-/31394


Filiações: quem é Brics e quem é Wall Street?

Aécio deveria mostrar outras filiações, as históricas. Uma que importa saber, por exemplo, é quem é Brics e quem é Wall Street na disputa de outubro.

por: Saul Leblon 

Arquivo

Aécio Neves resolveu mostrar a família no site de campanha.

Aquela coisa de ‘elevar’ o leitor ao nível do tanquinho de areia do ensino infantil. Aécio é filho de; pai de;  tio de; neto de  ... (a foto de Tancredo na parede só falta sorrir, como nos desenhos animados).

A vida é bela;  a família  mais bela de todas garante que o candidato tucano é um cara bacana...

A ideia, dizem os assessores, é combater o estereotipo do playboy desregrado,  que pelo visto calou fundo nas pesquisas.

Aécio deveria mostrar outras filiações, as históricas, aquelas que decorrem de opções feitas na vida pública, não as herdadas na corrente sanguínea.

As eleições brasileiras de outubro  –é forçoso reiterar, como tem feito Carta Maior--  não podem ser desperdiçadas em um fabulação publicitária feita de  personagens  simpáticos e imagens cativantes.

As eleições de outubro dialogam com um poder nada simpático.

Apesar da presença invisível nos palanques, como tem sido dito neste espaço, ele detém a singular capacidade de asfixiar o debate nacional, ademais de  condicionar a agenda dos partidos e governantes, antes e à revelia do escrutínio das urnas.

A fonte desse poder invisível remete à hegemonia das finanças globalizadas em nosso tempo.

Sua supremacia reduz de forma importante o repertório das iniciativas políticas nacionais.

Não é uma jabuticaba brasileira.

O que vale para o Brasil não é diferente do que ocorre na Argentina, mas também na França, ou na Nigéria.

 O ingrediente decisivo da luta pelo desenvolvimento, a soberania reordenada pelo  voto democrático, e o poder indutor do Estado, operam hoje por instrumentos sob forte turbulência e restrição.

Não há novidade nisso, claro.

Nas transições de ciclo de desenvolvimento, porém, quando decisões estratégicas devem ser tomadas para desobstruir o passo seguinte da história, tais restrições assumem contornos de uma asfixia quase imobilizante.

É o caso da encruzilhada brasileira atual.

Mudanças de fundo  são requeridas para inaugurar um ciclo de investimentos.

Sem avanços na infraestrutura e na produtividade, estreita-se a  margem de manobra para consolidar um novo estirão  na redistribuição da renda, na redução da desigualdade e na universalização de serviços de qualidade.

As opções são duas.

Entregar a rapadura de vez aos mercados, deixar que eles resolvam os impasses na base do arrocho; ou tentar  erguer linhas de passagem de um  novo ciclo convergente da riqueza.

A segunda escolha  requer a força e  o consentimento  de  uma ordenação pactuada da sociedade e da economia.

Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada da democracia.

A ruptura dessa asfixia  no ambiente global acaba de registrar um capítulo importante nesta  3ª feira ( 15-07) .

Um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reservas alternativos ao Banco Mundial e ao FMI foram criados  na reunião de Cúpula dos líderes dos Brics, realizada em Fortaleza, no Ceará.

A mídia conservadora fez pouco diante desse ensaio de Bretton Woods cearense e  preferiu afogar a atenção dos seus leitores naquilo  que é secundário.

A saber: o valor dos fundos iniciais e a  ocupação de cargos no novo banco ,em que o Brasil terá a estratégica diretoria encarregada de planos de investimento e  expansão.

A  Índia inaugurará  a presidência rotativa e a China sediará a instituição em Xangai.

O  desdém em relação aos valores iniciais envolvidos (US$ 100 bi de fundo de reservas e um funding de US$ 50 bilhões, no caso do banco de desenvolvimento) precifica  a ignorância ou a má fé, ou as duas coisas juntas, na  abordagem obtusa da emissão conservadora.

O que está em jogo no xadrez do século XXI  é a construção de novas estruturas de poder global que rompam com os frangalhos resultantes  do colapso de Bretton Woods.

Hoje, o FMI e o Banco Mundial  restam como um zumbi da arquitetura disciplinadora do capitalismo  imaginada para a ordem internacional em 1944.

Inteiramente prestativos  aos desígnios dos mercados desregulados –que nasceram para disciplinar—funcionam, a exemplo das agencias de risco, como alavancas pró-cíclicas do vale tudo especulativo.

Na  fase de valorização irracional  dos ativos e de  fastígio do crédito,  certificam a  higidez das estripulias de Wall Street --como nas vésperas do colapso de 2008;  em seguida, acentuam  a espiral contracionista,  chancelando políticas de arrocho  quando as bolhas especulativas explodem.

A reunião dos Brics no Brasil moveu as placas tectônicas dessa ruína cristalizada no  xadrez mundial.

Os valores envolvidos ganham dimensões superlativas quando associados à  contrapartida política do que está em jogo.

Objetivamente, e de forma consistente, a decisão dos Brics  afronta a subordinação passiva das nações  à  desordem  neoliberal.

Países que reúnem um PIB da ordem de US$ 16 trilhões, superior ao da Zona do Euro, e uma população conjunta de 3 bilhões de pessoas, informaram ao mundo que vão construir instituições que colidem com a lógica de Wall Street e  de seus braços institucionais.

Convenhamos, não  é uma notícia agradável  para quem defende que o Brasil, por exemplo, dissolva a sua soberania, seu poder de consumo, o pré-sal e a  sua industrialização –para citar alguns de uma longa série de itens --  no detergente global dos mercados desregulados.

Carta Maior considera  que a iniciativa histórica dos Brics amplia o espaço político para um debate qualificado de sua contrapartida no plano regional e nacional.
Não  por acaso  os líderes dos Brics se reuniram com os da Unasul, em Brasília, nesta 4ª feira.

A filiação que importa saber e que Aécio não registrou em sua fábula familiar, portanto, é quem é Brics, quem é Unasul  e quem é Wall Street na política nacional?

Claramente, a  disputa  presidencial de outubro  opõe dois projetos de futuro que guardam correspondência com a clivagem evidenciada nas decisões da cúpula reunida em Fortaleza.

Traduzir esse debate em textos que abordem a dimensão internacional e nacional da nova ordem em construção é o objetivo do seminário virtual, ‘O Poder da Internacional Financeira’, que Carta Maior está promovendo em sua página (leia os textos já publicados de Márcio Pochmann e Tarso Genro). 

Para ele estão sendo convidados  intelectuais de todo o Brasil e do exterior (leia também ‘O candidato oculto’).








Marcia Eloy - 17/07/2014
Espero que esta reunião dos BRICs os fortaleça e estabeleça acordos que beneficiem os países que fazem parte deles assim como os da América do Sul.

Roberto Luiz Souza de Melo - 17/07/2014
Porque devemos acreditar que a China não aja de maneira imperialista como os americanos, se a té os soviéticos usaram seus exércitos para submeter outras nações?

Paulo Cesar Polaco Zitelli - 17/07/2014
Cabem muitas observações neste editorial.

O primeiro é que não havia BRICS e Wall Street para escolher. BRICS é um grupo que está começando agora e, por mais que o autor queira se apropriar, BRICS não é criação petista.

Depois, cabe lembrar que não dá pra cantar vitória, pois a ideia do grupo, o banco, ainda não foi criado e não tem resultados para apresentar, analisar e comparar.

Obviamente que o regime de cooperação sul-sul é salutar, ao menos por enquanto. Consequentemente, a "libertação" do regime Norte-Sul, que reduz a soberania financeira dos países "ajudados" é algo muito bom.

Mas, como o Brasil se comportará com o fortalecimento chinês?

O que é importante e benéfico para o povo brasileiro? isso é o que importa.
PARCERIAS 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Geopolítica da Copa do Mundo

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Geopolítica da Copa do Mundo

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Garrincha prepara-se para driblar, na Copa do Mundo de 1958
Garrincha prepara-se para driblar, na Copa do Mundo da Suécia, em 1958
Brasil organiza torneio no momento exato em que mídia ocidental, ressentida, tenta demonizar BRICS. Mas países do Sul serão capazes de propor ordem global alternativa?
Por Pepe Escobar | Tradução: Vila Vudu
Numa das imagens que, até aqui, definem a Copa do Mundo, vê-se a Mannschaft alemã – a seleção alemã de futebol – confraternizando com índios pataxó, a poucas centenas de metros de distância de onde o Brasil foi “descoberto”, em 1500. Praticamente, um redescobrimento dos trópicos exóticos.
E há também a seleção inglesa, deitando e rolando à beira-mar, numa base militar, com o Pão de Açúcar como deslumbrante pano de fundo, sob uma parafernália de equipamentos e respectivo especialista científico em umidade e ventiladores industriais (afinal, haverá o “Duelo na Selva” contra a Itália, no próximo sábado, “nas profundezas da Floresta Tropical Amazônica”, como dizem tabloides britânicos.)
A Copa do Mundo – o maior espetáculo da Terra – começa no momento em que uma incansável campanha de propaganda de demonização contra-China e contra-Rússia, inventada no Ocidente (estados-clientes incluídos), fez subir ao topo os níveis de histeria universal.
Significa que os BRICS estão no centro do alvo; no caso do Brasil, é a potência emergente localizada estrategicamente sobre a parte mais rica da floresta tropical amazônica, em tempos em que uma integração progressista da América Latina ousou reduzir a papel higiênico a Doutrina Monroe.
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Nos anos recentes, o Brasil tirou pelo menos 30 milhões de pessoas, da miséria. A China investe em atenção pública à saúde e à educação. A Rússia recusa-se a se deixar abusar, como nos anos de Ieltsin, o bêbado. Nos anos recentes, a Copa do Mundo tem sido assunto, sempre, de países BRICS: África do Sul em 2010, Brasil agora, e Rússia em 2018. Qatar em 2022 – como acontece sempre – parece mais um programa de chantagem movido a petrodólares do Golfo, que saiu pela culatra.
É interessante verificar como a City de Londres – que ama o dinheiro russo, anseia por investimentos chineses e tem uma quedinha pelo poder soft do Brasil – está analisando o quadro.[1] Com um toque de humor britânico, poderiam facilmente interpretar o Duelo na Selva, como a OTAN combatendo na muito ambicionada floresta tropical (pensem nas guerras da água que virão em futuro próximo).
Aquela outra Copa do Mundo 
E então, apenas dois dias depois de iniciada a Copa do Mundo, a Bolívia, vizinha do Brasil, estará hospedando nada menos que uma reunião de cúpula do G-77+China. Na prática, é reunião das 133 nações-membro da ONU, presidida pelo presidente Evo Morales, uma espécie de primo andino distante dos Pataxós que tanto fascinaram os alemães.
Os excepcionalistas norte-americanos estão furiosos, porque os BRICS estão conduzindo a transição na direção de um mundo multipolar – que já existe no futebol (pense em Espanha, Alemanha, Itália, de um lado; e Brasil, Argentina e Uruguai, do outro). E tem a ver também com promover o futebol, com uma espécie de contragolpe Sul-Sul à hegemonia do norte industrializado. Brasil, China e Rússia, com suas diferentes estratégias, todos apostam em mais integração Sul-Sul – do Banco do Sul, ao banco de desenvolvimento dos BRICS, em construção (há reunião de cúpula dos BRICS, crucialmente importante, mês que vem, em Brasília), na via para um sistema mais igualitário que, idealmente, poderia ser financiado por uma porcentagem da dívida externa, uma porcentagem dos gastos militares e um imposto global sobre transações financeiras especulativas.
E sempre vale a pena recordar que o G-77 relaciona-se descolonização; nada de Império com bases militares em todo o mundo; nada de interferência do complexo orwelliano/Panopticon da Agência de Segurança Nacional dos EUA no Sul Global.
Agora comparem tudo isso com a Copa do Mundo Adidas Coca-Cola Hyundai Kia Motors Emirates Sony Visa Anheuser-Busch InBev (Budweiser) Castrol Continental Johnson & Johnson McDonald’s Itau FIFA, festa e entretenimento de 2014-Brasil, que  a bíblia da indústria, AdvertisingAge apresentou como “umSuper Bowl todos os dias, o mês inteiro”.[2]
Em firme oposição, há uma coorte de movimentos Sul-Sul sociais e de solidariedade, que denunciam tudo que, de ruim, esteja envolvido na super empreitada, de neocolonização hardcore a furiosa criminalização dos mais pobres.
E entre esses movimentos, não surpreendentemente, está um ícone do Sul Global, Diego Maradona. O craque argentino disse essa semana que “a FIFA lucra 4 bilhões de dólares (da Copa) e a nação campeã só ganha 35 milhões. Não está certo. É a empresa desfechando golpe mortal contra o futebol.”
Futebol é guerra 
Muito se tem ouvido sobre o paralelo entre a globalização hiper-capitalista – como se vê bem graficamente na Copa do Mundo e nos meganegócios do futebol contemporâneo – e o nacionalismo.
Ora, o mundo não é e jamais será plano. É um Himalaia/Pamir/Hindu Kush de diferentes altitudes da desigualdade, exposto a avalanches de neve, de comércio, trocas, fluxos de imigrantes e terremotos tecnológicos. Nada disso desfaz os tecidos/fibras nacionais. Ainda é “nós” contra “eles”, com o Sul Global a definir norte-americanos e europeus como “gringos”, tanto quanto levas do Norte industrializado a patrocinar/lucrar no/do “exótico” Sul Global.
Nada há de pós-nação ou pós-nacional, na Copa do Mundo. No terreno da geopolítica mais hardcore, a supercentralizada União Europeia vai-se fragmentando sob o peso de um bando de partidos nacionalistas de direita ou de extrema-direita; no futebol, a maior diferença, na comparação com a geopolíticahardcore, é que não há só uma potência excepcionalista, mas um punhado, de Espanha ao Brasil, de Alemanha a Itália, de Argentina a França.
Rinus Michels, técnico do “Carrossel Holandês”, seleção nacional que deslumbrou o mundo em 1974 (mas não levou a taça), disse certa vez que futebol é guerra (como Samuel Fuller, diretor de cinema e gênio solitário, que disse que o cinema é um campo de batalha). A Copa do Mundo é guerra por outros meios; um duelo oficial, permitido, ritualizado, entre nacionalismos. É questão, só, de escolher sua tribo;  só depois que sua tribo já tiver saído da competição, escolha uma tribo substituta.
Novo jeito de jogar bola?
Brasil, justamente elogiado como Terra do Futebol, é também líder mundial na redução das emissões de carbono, segundo pesquisa recentemente publicada na revista Science – e simultaneamente conseguiu aumentar a produção agrícola, ao mesmo tempo em que diminuiu o desmatamento, salvando mais florestas.
Mas, como sempre em tudo que tenha a ver com Brasil e Copa do Mundo, tudo se misturou – metáfora ao vivo do típico conjunto variado de problemas que o Sul Global tem de enfrentar. A presidenta Dilma Rousseff do Brasil foi forçada a apelar ao estereótipo do brasileiro “homem cordial”, e falou muito de tolerância, diversidade, necessidade de diálogo e até de sustentabilidade, tanto quanto condenou o racismo e os preconceitos, para exortar a população a dar um tempo nas dificuldades locais e do dia a dia, para receber bem uma legião de visitantes estrangeiros.
Quase desnecessário, se se considera que o brasileiro médio é naturalmente caloroso e muito amigável; mas o demônio está nos detalhes – por exemplo, em pelo menos 200 mil pessoas deslocadas de onde moravam, ou, no mínimo, ameaçadas de expulsão, para dar lugar a grandes obras para aumentar a “mobilidade urbana”. OK. Só 10% dessas obras foram concluídas, em vários casos por culpa da corrupção massiva. No Rio de Janeiro, não se investiu um único real num sistema de transportes caótico usado pelo crescente proletariado das periferias urbanas.
Lula, o ex-presidente ainda super, super, super popular, disse, quando estava na presidência, em 2009, que não seria gasto nenhum dinheiro de impostos, na Copa do Mundo. De fato, não, diretamente. Os financiamentos saíram do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, que empresta dinheiro a bancos. E as empresas que construíram os novos estádios também se beneficiaram de várias isenções de impostos.
Resumo da história é que o governo da presidenta Dilma acabou perdendo a batalha ‘midiática’. Várias vezes a presidenta teve de explicar que a Copa custaria o correspondente a uma pequena fração do que é investido em saúde e educação (tema sobre o qual ainda cabe discussão). Pode dizer que metade da população brasileira ou não entendeu ou não foi convencida.
E nada garante, até agora, que uma vitória do Brasil na Copa do Mundo garanta automaticamente a re-eleição da presidenta Rousseff.[3]
Mas é preciso dizer que as recentes ondas de protesto, onda após onda, começaram de fato antes do governo da presidenta Rousseff. É como se todos esses diversos movimentos sociais estivessem manifestando agora, concentradamente, o mais radical e utópico dos desejos: apagar, de uma só varrida, séculos de injustiças perpetradas pelas elites brasileiras notoriamente rapinantes e arrogantes e ignorantes – as quais mesmas elites sempre implementaram políticas de total exclusão política e econômica, baseadas na mais abjeta segregação racial e de classe.
Significa que o drama todo não é simplesmente sobre tendências “antineoliberais” ou “anticapitalistas”. Vai muito além do nacionalismo. E bem pode ser muito mais profundo e importante que um manual de revolução que use o futebol como pretexto. Seja qual for o resultado dessa guerra que se trava em torno do futebol, mesmo assim o Brasil ainda poderá ensinar boa lição ao todo o Sul Global.
Na vitória, ou mesmo numa derrota gloriosa, talvez o Brasil encontre a estamina necessária para tentar uma nova abertura estratégica – um novo modo, novo, não arrogante, não neocolonial, não armado, não excepcionalista de liderar e usar o poder, para construir alianças e firmar grandes acordos geopolíticos em mundo multipolar. Um jeito novo de jogar o jogo. Que comece, então, o Novo Grande Jogo.
[3] http://www.theguardian.com/football/2014/jun/08/brazils-politicians-banking-on-world-cup-victory-to-help-soothe-unrest [Mas, sinceramente, amado Pepe Escobar, e muito cá entre nós: essa matéria do Guardian é uma merda, e o livro do cara-lá TAMBÉM é uma merda (NTs)]