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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Segurança alimentar, revolução no prato

br de fato
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Segurança alimentar, revolução no prato

FAO
Para Flavio Luiz Schieck Valente, Secretário-Geral da Rede de Articulação e Informação Alimentação Primeiro (FIAN, em Inglês), a sociedade tem que mudar os costumes e práticas para que a fome seja vencida no mundo
14/01/2014
Bruno Pavan
da Redação
Em novembro do ano passado acon­teceu em Roma (Itália), a 2ª Conferên­cia Internacional de Nutrição (CIN 2). Apesar de alguns avanços no combate à fome no mundo em relação ao primeiro encontro, realizado em 1992, um dado ainda assusta: em pleno século 21, 850 milhões de pessoas são cronicamente subnutridas.
O conceito de segurança alimentar é cada vez mais presente nesse deba­te. Mais do que matar a fome da popu­lação, o Comitê de Segurança Alimen­tar (CSA) afirma que é preciso que “to­das as pessoas tenham acesso físico, so­cial e econômico a uma alimentação su­ficiente, segura e nutritiva, que satisfaça suas necessidades dietéticas e preferên­cias alimentares para garantir uma vida ativa e saudável”.
Fora do Mapa da Fome da ONU des­de 2014, o Brasil ainda tem o que evo­luir nessa questão. Para o Secretário-Ge­ral da Rede de Articulação e Informação Alimentação Primeiro (FIAN, em Inglês) Flavio Luiz Schieck Valente, programas como o Bolsa Família dão o primeiro passo, mas não bastam.
Para ele, estas medidas são limitadas em relação ao que seria necessário pa­ra conter a expansão criminosa do agro­negócio e causas diretas dela como a de­vastação dos recursos naturais e huma­nos, o êxodo rural, a redução da concen­tração de renda e propriedade e as desi­gualdades flagrantes.
Brasil de Fato – Muito se falava sobre o combate a fome no mundo. O conceito de segurança alimentar foi adicionado faz pouco tempo para o grande público. O que seria segurança alimentar?
Flavio Luiz Schieck Valente – Se­gundo o Comitê de Segurança Alimen­tar Mundial (CSA), a segurança alimen­tar existirá quando: “...todas as pesso­as tem acesso físico, social e econômi­co a uma alimentação suficiente, segura e nutritiva, que satisfaça suas necessida­des dietéticas e preferencias alimentares para garantir uma vida ativa e saudável. Os quatro pilares da segurança alimen­tar são disponibilidade, acesso, utiliza­ção e estabilidade”.
No Brasil, ela é vista como um conjun­to de princípios que podem colaborar para a promoção e proteção integral do direito humano à alimentação e nutrição adequadas, entendido como um direi­to de todo e toda habitante do território nacional, e uma obrigação do Estado. O estabelecimento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), a criação por lei federal do Sistema Nacional de Segurança Alimen­tar e Nutricional (SISAN), são conquis­tas do povo brasileiro em direção à erra­dicação da fome e promoção do bem- es­tar nutricional para todos e todas.
Ele é um conceito que continua a ser debatido e disputado no mundo, mas que ainda se encontra à reboque dos in­teresses do grande capital, em especial pelas transnacionais do agronegócio. É impossível orientar políticas que com­batam as causas estruturais da fome, da má nutrição e da desigualdade, na me­dida em que o conceito não lida com a questão do poder e do controle sobre os recursos naturais, produtivos e culturais necessários para a produção de uma ali­mentação diversificada e saudável.
Muitos dizem que, pela expectativa de vida estar crescendo no mundo, estamos adotando medidas mais saudáveis. A declaração da CIN aponta o contrário. Afinal, estamos comendo melhor ou não?
A expectativa de vida no mundo tem aumentado devido a uma redução signi­ficativa da mortalidade infantil, mas sem que isto signifique uma melhora progres­siva na qualidade de vida. Tem-se obser­vado nos países mais ricos e industriali­zados e nos chamados emergentes, uma redução da expectativa e da qualidade de vida entre os grupos sociais mais pobres, devido a doenças associadas à obesidade e sobrepeso, como a pressão alta, derra­mes, infartos, diabetes, entre outras.
A Declaração oficial da Conferência Internacional de Nutrição (CIN 2) apon­ta que cerca de 850 milhões de seres hu­manos vão toda a noite para a cama com fome e cerca de 2 bilhões apresentam di­ferentes formas de desnutrição, entre os quais 200 milhões são crianças com desnutrição aguda e crônica. Ao mes­mo tempo, cerca de 1 bilhão e meio estão obesos ou com sobrepeso.
Todas estas doenças estão associadas à desigualdade, à contaminação dos cam­pos, alimentos e pessoas, e a um padrão alimentar inadequado e pouco saudável, caracterizado pela redução da diversida­de alimentar, excesso de açúcares, de sal e gorduras saturadas.
O modelo de crescimento neodesenvolvimentista do Brasil e em grande parte do mundo tem sido alvo de muitas críticas. Como podemos superá-lo para que um sistema mais sustentável de produção de alimentos possa surgir?
O modelo atual de desenvolvimen­to brasileiro e de outros países que bus­cam ocupar um espaço econômico, so­cial e político mais relevante no contexto internacional é o reflexo de uma disputa de projetos de sociedade, ainda profun­damente hegemonizado pelo capital in­dustrial e financeiro internacional.
A reforma do CSA em 2009 foi lide­rada pelos estados membro da Améri­ca Latina e Caribe e somente foi possí­vel mediante aliança com o forte Movi­mento Global pela Soberania Alimentar, facilitado pelo Comitê Internacional de Planejamento pela Soberania Alimen­tar, convocado pela Via Campesina. Da mesma forma, a iniciativa do governo do Equador, de propor a criação de um Grupo de Trabalho Intergovernamental no Conselho de Direitos Humanos para elaborar a proposta de Pacto Internacio­nal vinculante regulando a atuação das multinacionais, no que se refere a viola­ções de direitos humanos, somente foi vitoriosa devido à forte pressão estabe­lecida junto aos governos de países ri­cos e demais países renitentes, no sen­tido de que a ação não fosse bloqueada. Mais uma vez a presença dos movimen­tos populares foi crucial.
Neste contexto, a declaração da socie­dade civil à CIN 2 entende que “...é ne­cessário reafirmar a centralidade dos produtores e produtoras de pequena es­cala e familiar , sendo estes e estas os su­jeitos chaves e os condutores dos siste­mas alimentares locais e os maiores in­vestidores na agricultura”.
Quais medidas podem ser tomadas pela ONU, por exemplo, para que a soberania alimentar seja respeitada?
A sociedade civil global que trabalha com alimentação e nutrição, em parti­cular os movimentos populares, enten­deu que alguns grandes eixos de ações são necessários para que avancemos em direção a construção de uma sociedade mais equitativa e justa onde todos e to­das tenham seu direito humano à ali­mentação e nutrição adequadas.
O primeiro é que a ONU vem sendo as­fixiada, em nome do neoliberalismo, por conta da redução do aporte dos fundos necessários para o seu funcionamento como entidade pública a serviço dos po­vos. Os governos precisam recuperar o controle democrático sobre a ONU e co­locá-la efetivamente a serviço dos inte­resses da maioria.
Em relação à governança sobre o te­ma, os movimentos populares, as Orga­nizações Sociais da Sociedade Civil (OS­Cs) e os governos têm que proteger os es­paços das políticas públicas de alimenta­ção, nutrição e saúde contra a ingerência de acordos de comércio e investimentos. Eles também devem garantir a regula­ção adequada e a responsabilização de atores econômicos poderosos, como as corporações transnacionais, como por exemplo, relacionado ao acaparamento de terra e publicidade para crianças.
Outro fator fundamental para o avan­ço da proposta da soberania alimen­tar seria a progressiva aproximação das agendas de lutas dos diferentes movi­mentos, e a possibilidade do estabeleci­mento de objetivos estratégicos conjun­tos. Este processo já está em andamento.
Por que o relatório dá muita importância às mulheres nessa questão da má nutrição? Como o empoderamento delas pode ajudar nessa questão?
Mais da metade da desnutrição infan­til no mundo está ligada a violações dos direitos das mulheres e das crianças, em particular de seus direitos sexuais e re­produtivos. Muitas meninas são força­das a casar e a ter filhos em uma idade precoce, antes de atingirem o desenvol­vimento pleno, seja do ponto de vista fí­sico como afetivo. Esta imposição au­menta enormemente o risco de desnu­trição materna e infantil.
As mulheres indígenas e camponesas da Colômbia, por exemplo, definem que a violência cometida contra o corpo da mulher é o primeiro ato de acaparamen­to, pois enfraquece os laços comunitá­rios e familiares e abre espaço para ou­tros atos semelhantes.
As mulheres, em pé de igualdade com os homens, devem ter seus direitos hu­manos plenamente garantidos pelo Es­tado. Somente desta maneira elas terão condições de ter controle sobre seu cor­po e sua vida, e inclusive, de ter contro­le sobre a decisão de unir-se ou não a al­guém e ter ou não filhos.
Ao mesmo tempo, o aleitamento é o primeiro ato de soberania alimentar, na medida em que a decisão de ama­mentar é da mulher, mas as condi­ções para que o ato se viabilize de ma­neira adequada são de responsabilida­de coletiva da família, da comunidade e do poder público. Por isso a declara­ção conclama os Estados a “...protege­rem as crianças do marketing agressi­vo e inadequado de substitutos do lei­te materno”.
Qual a importância de programas de distribuição de renda como o Bolsa Família têm para a soberania alimentar? O que mais os governos podem fazer quanto a isso?
Os programas de distribuição de ren­da são importantes, pois cumprem obri­gação do Estado de garantir a realização do direito humano à alimentação e nu­trição adequadas.
Os últimos governos brasileiros tem anunciado o avanço em alguns progra­mas considerados estruturantes que possibilitariam que as famílias rurais e urbanas mais pobres não precisas­sem mais do Bolsa Família. No entan­to, estas medidas são limitadas em re­lação ao que seria necessário para con­ter a expansão criminosa do agronegó­cio e causas diretas dela como a devasta­ção dos recursos naturais e humanos, o êxodo rural, a redução da concentração de renda e propriedade e as desigualda­des flagrantes.
Alguns debates são essenciais para confrontar a pobreza, a fome e má nutri­ção, em todas suas formas, nas áreas ur­banas e rurais. E eles passam por enten­der a necessidade de reformas amplas na sociedade como a agrária e a habita­cional e repensar diversas políticas para que possamos ter de fato uma democra­cia participativa e horizontal.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Por que a segurança nacional dos EUA nada tem a ver com segurança

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Por-que-a-seguranca-nacional-dos-EUA-nada-tem-a-ver-com-seguranca/6/31585



10/08/2014 - Copyleft

Por que a segurança nacional dos EUA nada tem a ver com segurança

Como observou o general Lee Butler, é quase um milagre que tenhamos escapado da destruição total, via armas nucleares, até agora.


Noam Chomsky (*) - Tom Dispatch
Arquivo

Se alguma espécie extraterrestre estivesse compilando uma história do homo sapiens, ela poderia muito bem dividir o seu calendário em duas eras: AAN (antes das armas nucleares) e EAN (a era das armas nucleares). Esta última era, claro, foi aberta em 6 de agosto de 1945, o primeiro dia na contagem regressiva para o que pode ser o fim desta estranha espécie, que encontrou os meios efetivos para destruir a si mesma, mas – como sugerem as evidências – não a capacidade intelectual e moral de controlar seus piores instintos. O dia um da EAN foi marcado pelo “sucesso” de Little Boy, uma simples bomba atômica. No dia quatro, Nagasaki experimentou o triunfo tecnológico de Fat Man, um design mais sofisticado de bomba.

Cinco dias depois, veio o que na história das Forças Aeronáuticas dos EUA se chama “grand finale”, o ataque dos mil aviões – de maneira alguma uma grande conquista logística -, sobre as cidades japonesas, matando centenas de milhares de pessoas, com panfletos caindo junto a bombas com os dizeres “o Japão se rendeu”. Truman anunciou a rendição antes que o último B-29 retornasse a sua base.

Esses foram os anos auspiciosos da EAN. Como agora entramos no ano 70, deveríamos contemplar criticamente como sobrevivemos. Podemos apenas chutar quantos anos ainda faltam.

Algumas reflexões sobre essses propectos sombrios foram oferecidas pelo general Lee Butler, ex-chefe do Comando Estratégico dos Estados Unidos (STRATCOM, na sigla em inglês), que controla armas nucleares e estratégia. Há vinte anos, ele escreveu que tínhamos sobrevivido até então, na EAN, “por uma combinação de habilidade, sorte e intervenção divina, e eu suspeito que a última em grande proporção”.

Ao refletir sobre a longa carreira do desenvolvimento das estratégias de armas nucleares e organizar as forças para implementá-las eficientemente,  ele descreveu a si mesmo cruamente como estando “entre os mais ávidos guardadores da fé nas armas nucleares”. Mas, continuou, ele tinha chegado ao entendimento de que agora “a sua missão era declarar com toda a convicção que devo que em meu juízo elas nos serviram extremamente mal”. E perguntou: “com que autoridade as gerações posteriores de líderes de estados que têm armas nucleares usurparão o poder de ditar as chances da vida continar em nosso planeta? Mais urgentemente, por que essa audácia de tirar o fôlego persiste num momento em que deveríamos tremer diante de nossa loucura de nos comprometer a abolir as suas manifestações mais mortais?”.

Ele chamou o plano estratégico dos EUA, de 1960, que pedia uma retirada total do conflito com o mundo comunista de “o documento mais absurdo e irresponsável que jamais li em minha vida”. Seu adversário soviético era provavelmente ainda mais insano. Mas é importante ter em mente que estavam em competição, e nem lhes passava perto a hipótese de aceitar facilmente as ameaças extraordinárias de sobrevivência.

A sobrevivência nos primeiros anos da Guerra Fria

De acordo com a doutrina dominante na universidade e no discurso intelectual em geral, o principal objetivo da política de estado é a “segurança nacional”. Há uma ampla evidência, no entanto, de que a doutrina da segurança nacional não acompanha a segurança da população. Os registros revelam que, por exemplo, a ameaça de uma destruição instantânea não ocupava o centro das preocupações dos grandes dirigentes e planejadores. E isso foi demonstrado desde o início, e assim persevera, até o presente momento.

Nos primeiros dias da EAN, o EUA gozava de uma segurança irresistivelmente poderosa e notável: o país controlava o hemisfério, os oceanos Atlântico e Pacífico, e os lados opostos a esses oceanos, também. Muito antes da Segunda Guerra, já tinha se tornado o país mais rico do mundo, com vantagens incomparáveis. Sua economia bombou durante a guerra, enquanto outras sociedades industriais foram devastadas ou severamente enfraquecidas. Com o começo da nova era, os EUA possuía aproximadamente metade de toda a riqueza mundial e até mais do que isso em capacidade industrial. Havia, no entanto, uma ameaça potencial: os mísseis intercontinentais com ogivas nucleares. Essa ameaça foi discutida no estudo de referência para políticas nucleares a que fontes de alto nível tinham acesso: Perigo e Sobrevivência: escolhas a respeito da bomba nos primeiros cinquenta anos, de McGeorge Bundy, conselheiro de segurança nacional durante os governos Kennedy e Johnson.

Bundy escreveu que “o desenvolvimento veloz dos misseis balísticos durante a administração Eisenhower é uma das maiores conquistas desses oito anos. Ainda assim, está na hora de se começar a reconhecer que tanto os EUA como a União Soviética poderiam estar em perigo nuclear muito menor, hoje, se [esses] mísseis jamais tivessem sido desenvolvidos”. Ele então acrescenta um comentário instrutivo: “Estou ciente de que não há qualquer proposta séria, contemporânea, dentro ou fora de nosso governo, de que os mísseis balísticos de alguma maneira deveriam ser banidos por acordo”. Numa palavra, não se cogitava, aparentemente, tentar prevenir uma só ameaça séria aos EUA, a ameaça de uma futura destruição numa guerra nuclear com a União Soviética.

Será que essa ameaça poderia ter sido afastada? É claro que não podemos ter certeza, mas seria dificilmente concebível. Os russos, muitíssimo atrás em desenvolvimento industrial e em sofisticação tecnológica, estavam muito mais cercados de ameaças. Eram, portanto, significativamente mais vulneráveis a esses sistemas de armas dos EUA. Deve ter havido oportunidades de explorar essas possibilidades, mas na histeria extraordinária daqueles dias isso dificilmente teria sido percebido. E essa histeria era na verdade extraordinária. Um exame da retórica utilizada em documentos oficiais centrais da época, como o Artigo NSC-68 do Conselho de Segurança Nacional, permanece bastante chocante, chegando até a se discutir a injunção do Secretário de Estado Dean Acheson, de que seria necessário “ser mais claro que a verdade”.

Uma indicação de possíveis oportunidades para golpear a ameaça foi uma proposta notável feita por Joseph Stalin, em 1952, oferecendo a permissão da unificação alemã, com eleições livres, sob a condição de, a partir de então, não houvesse mais alianças militares hostis. Essa era uma condição dificilmente extrema, à luz da história dos últimos 50 anos, durantes os quais somente a Alemanha tinha destruído a Rússia duas vezes, cobrando um alto custo ao país.

A proposta de Stalin foi levada a sério pelo respeitável analista político James Warburg, mas foi amplamente ignorada ou ridicularizada, na época. Estudos acadêmicos recentes começaram a fornecer uma visão diferente das coisas. O acadêmico veementemente anticomunista, estudioso da União Soviética, Adam Ulam, tomou a proposta de Stalin como um “mistério não esclarecido”. Washington “fez pouco esforço para rejeitar solenemente a iniciativa de Moscou”, escreveu ele, com base no fato de essa ser “embaraçosamente inconvincente”. O fracasso político, intelectual e acadêmico em geral deixou aberta a “questão fundamental”, acrescentou Ulam: “Stalin estava realmente pronto para sacrificar a recém-criada República Democrática Alemã (RDA) no altar da democracia real”, com consequências para a paz mundial e para a segurança americana, que poderiam ter sido enormes?

Resenhando pesquisa recente nos arquivos soviéticos, um dos mais respeitáveis acadêmicos da Guerra Fria, Melvyn Leffler, observou que muitos acadêmicos se surpreenderam em descobrir que “[Lavrenti] Beria – o sinistro, brutal e comandante da polícia secreta soviética – tinha proposto que o Kremlin oferecesse ao Ocidente um acordo para unificação e neutralização da Alemanha”, concordando em “sacrificar o regime da Alemanha Oriental comunista e reduzir as tensões entre Oriente e Ocidente” e melhorando as condições políticas e econômicas internas à Rússia – oportunidades que foram desperdiçadas em benefício da presença assegurada da Alemanha na OTAN. Sob essas circunstâncias, não é impossível que tenha havido acordos que podiam ter sido obtidos e que teriam assegurado a tranquilidade da população americana das ameaças sombrias no horizonte. Mas essa possibilidade aparentemente não foi considerada, o que indica, notavelmente, o quão pouco o papel de uma segurança nacional autêntica pesa na política de estado.

A crise dos mísseis cubanos e além

Essa conclusão foi subestimada repetidamente nos anos seguintes. Quando Nikita Khruschev tomou o controle da Rússia soviética em 1953, depois da morte de Stalin, ele reconheceu que a URSS não poderiam competir militarmente com os EUA, o país mais rico e poderoso na história, com vantagens incomparáveis. Se o país tinha esperança de escapar do colapso econômico e dos efeitos devastadores da última grande guerra, seria necessário reverter a corrida armamentista.

Assim, Khruschev propôs um acordo claro de redução mútua nas ofensivas armadas. O enviado da administração Kennedy considerou a oferta e a rejeitou, e esse governo passou à rápida expansão militar, mesmo já bastante à frente. O finado Kenneth Waltz, baseado em outra análise estratégica com conexões próximas à inteligência dos EUA, escreveu então que a administração Kennedy “tinha levado a cabo o mais estratégico e convencional tempo de paz militar desenvolvido no mundo até então...mesmo quando Khruschev tentava, por sua vez, levar a cabo uma grande redução nas forças convencionais e seguir uma estratégia de dissuasão mínima, e nós o fizemos apesar de o equilíbrio das armas estratégicas favorecerem enormemente os EUA”. De novo, ferindo a segurança nacional enquanto fortalece o poder do estado.

A inteligência dos EUA verificou que grandes cortes tinham sido feitos nos ativos das forças militares soviéticas, tanto em termos de areonaves, como de soldados. Em 1963, Khruschev mais uma vez pediu novas reduções. Como um gesto de demonstração de suas intenções, retirou tropas da Alemanha Oriental e convidou Washington a fazer o mesmo, reciprocamente. Essa proposta também foi rejeitada. William Kaufmann, um ex-conselheiro do Pentágono e analista consagrado em questões de segurança, descreveu o fracasso dos EUA em responder às iniciativas de Khruschev como, em termos de sua biografia, “o único arrependimento que tenho”.

A reação soviética ao desenvolvimento armamentista dos EUA nesses anos foi situar mísseis em Cuba, em outubro de 1962, para tentar retomar o equilíbrio, ao menos discretamente. O movimento também foi incentivado em parte pela campanha terrorista de Kennedy contra Fidel Castro, programado para levar à invasão naquele mesmo mês, como Cuba e a Rússia devem ter ficado sabendo. A “crise dos misseis” que se seguiu foi “o momento mais perigoso da história” nas palavras do historiador Arthur Schlesinger, conselheiro e confidente de Kennedy.

Quando a crise chegava ao apogeu, no fim de outubro, Kennedy recebeu uma carta de Khruschev oferencendo um termo para o imbróglio, por meio de uma retirada simultânea, tanto dos mísseis russos em Cuba como dos misseis Júpiter dos EUA, da Turquia. Estes últimos eram mísseis obsoletos, já com ordem de retirada pela administração Kennedy porque estavam sendo substituídos pelos muito mais letais submarinos Polaris, que estacionariam no Mediterrâneo.

A avaliação subjetiva de Kennedy, naquele momento, era que se ele recusasse a oferta do premiê soviético, havia uma probabilidade de 33 a 50% de guerra nuclear – uma guerra que, como o presidente Eisenhower havia alertado, teria destruído o hemisfério norte. Kennedy no entanto rejeitou a proposta de Khruschev de retirada pública dos misseis de Cuba e da Turquia; somente a retirada dos misseis de Cuba poderia ser pública, tanto para proteger o direito dos EUA a situar misseis nas fronteiras da Rússia, como em qualquer lugar que escolhesse.

É difícil pensar numa decisão mais horrenda na história – e por isso ele é ainda celebrado por sua coragem tranquila e como estadista.

Dez anos depois, nos últimos dias da guerra árabe-israelense, em 1973, Henry Kissinger, então assessor do Secretário de Segurança Nacional do Presidente Nixon, chamou um alerta nuclear. A proposta era advertir os russos a não interferirem nessas delicadas manobras diplomáticas designadas para garantir a vitória israelense, mas por pouco, de modo que os EUA mantivesse ainda o seu controle unilateral da região. E as manobras eram de fato delicadas. Os EUA e a Rússia tinham imposto, conjuntamente, um cessar-fogo, mas Kissinger informou, secretamente, aos israelenses, que eles poderiam ignorá-lo. Assim, a necessidade do alerta nuclear servia para afastar os russos para longe. A segurança dos americanos permaneceu no seu status padrão.

Dez anos depois, a administração Reagan lançou operações para testar as forças aéreas soviéticas, simulando ataques aéreos e navais e um alto nível de alerta nuclear, o suficiente para os russos detectarem. Essas ações foram levadas a cabo num momento muito tenso. Washington estava desenvolvendo os mísseis estratégicos Pershing II, na Europa, a cinco minutos de tempo de voo para Moscou.
 
O presidente Reagan também tinha anunciado o programa Iniciativa de Defesa Estratégica (“Star Wars”), que os russos entenderam como, efetivamente, o primeiro ataque, uma interpretação padrão da defesa dos mísseis de todos os lados. E outras tensões vinham aumentando.

Naturalmente, essas ações causaram grande alarde na Rússia, a qual, diferentemente dos EUA, estava bastante vulnerável e tinha repetidamente sido invadida e virtualmente destruída. Isso levou a uma guerra de escala maior em 1983. Arquivos recentemente abertos revelaram que o perigo era ainda mais severo do que aquilo que historiadores tinham pensado. Um estudo da CIA intitulado “O Medo da Guerra era de verdade” concluiu que a inteligência dos EUA pode ter subestimado as preocupações russas e a ameaça de um ataque nuclear preventivo soviético. Os exercícios “quase se tornaram um prelúdio para uma batalha preventiva nuclear”, de acordo com uma passagem do Journal of Strategic Studies.

Era ainda mais perigoso que isso, como aprendemos no último setembro, quando a BBC reportou que, exatamente em meio ao desenvolvimento dessas ameaças, o sistema de alarme da Rússia detectou um ataque de míssel oriundo dos EUA, levando o seu sistema de radar ao alerta máximo. O protocolo do exército soviético era retaliar com o seu próprio ataque nuclear. Felizmente, o oficial encarregado, Stanislav Petrov, decidiu desobedecer às ordens e não reportar os alertas aos seus superiores. Ele recebeu uma reprimenda oficial. E graças a essa indolência, ainda estamos vivos para falar a respeito.

A segurança da população não era mais uma alta prioridade para os estrategistas da administração Reagan, do que era para os seus predecessores. E assim continua, mesmo deixando de lado os numerosos e quase catastróficos acidentes nucleares que ocorreram ao longo dos anos, muitos deles analisados no assustador estudo de Eric Schlosser, Command and Control: Nuclear Weapons, the Damascus Accident and the Illusion of Safety [Comando e Controle: Armas Nucleares, o Acidente de Damasco e a Ilusão da Segurança]. Em outras palavras, é difícil contestar as conclusões do general Butler.

Sobreviência na era pós-Guerra Fria

Após a guerra fria, os registros das ações e doutrinas adotadas tampouco é reconfortante. Todo presidente que se preze tem de ter a sua doutrina. A Doutrina Clinton estava encapsulada no slogan “multilateral quando pudermos, unilateral quando devermos”. No testemunho congressual, a frase “quando devermos” foi explicada plenamente: os EUA está autorizado a dispor “do poder militar unilateral” para assegurar “acesso desimpedido a mercados chave, fornecimento de energia e recursos estratégicos”. Enquanto isso, o STRATCOM na era Clinton produziu um importante estudo, intitulado “Fundamentos da dissuasão no pós-Guerra Fria”, lançado bem depois de a União Soviética ter colapsado, quando Clinton estava estendendo o programa de expansão da OTAN, de George H.W. Bush para o oriente, numa violação às promessas feitas ao premiê soviético Mikhail Gorbachev – com reverberações para o presente.

Esse estudo do STRATCOM estava preocupado com “o papel das armas nucleares na era pós-Guerra Fria”. Uma conclusão central: que os EUA devem manter o direito de lançar o primeiro ataque, mesmo contra estados não-nucleares. Mais ainda: armas nucleares devem estar sempre prontas porque elas “representam uma sombra em qualquer crise ou conflito”. Isso quer dizer que elas estavam constantemente sendo usadas como se estivessem apontando uma arma, não para atirar, mas para roubar uma loja (um ponto que Daniel Ellsberg enfatizou, repetidamente). O STRATCOM vai adiante, para advertir que “os estrategistas não deveriam ser muito racionais em determinar...quais dos oponentes valem mais”. Tudo deveria ser simplesmente marcado como alvo. “Machuca essa atitude de nos portarmos como plenamente racionais e de cabeça fria... que os EUA possa se tornar irracional e vingativo se os seus interesses vitais forem atacados deveria ser uma parte da persona nacional que projetamos”. É “benéfico [para a nossa postura estratégica] que alguns elementos possam aparecer como potencialmente ‘fora de controle’”, representando assim uma ameaça constante de ataque nuclear – uma severa violação da Carta da ONU, se alguém liga para isso.

Não há muito aqui a respeito dos nobres objetivos constantemente proclamados – ou, no caso, sob o Tratado de Não-Proliferação de Armas, para atestar a “boa fé” dos esforços para eliminar esse flagelo da terra. O que isso soa, antes, é a uma adaptação dos famosos versos a respeito do Maxim (para citar o historiador africano Chinweizu):

“O que quer que aconteça, nós temos,
A Bomba Atômica e eles, não”.

Depois de Clinton veio, é claro, George W. Bush, cujo amplo aval à guerra preventiva facilmente abarcou o ataque japonês em dezembro de 1941, em duas bases militares de ultramar, dos EUA. Neste momento, os militaristas japoneses estavam bastante cientes de que os B-17 estavam apressados nas linhas de montagem, com o intento de “queimar o coração industrial do império com ataques a bomba nos altos de Honshu e Kyushu”. É assim que os planos pré-guerra foram descritos pelo seu arquiteto, o general das Aeronáutica Claire Chennault, com a aprovação entusiasmada do presidente Franklin Roosevelt, do secretário de estado Cordell Hull e do comandante em chefe general George Marshall.

Então veio Barack Obama, com palavras aprazíveis a respeito do trabalho para abolir o arsenal de armas nucleares – combinado com planos de gastar 1 trilhão de dólares no arsesnal nuclear dos EUA nos próximos 30 anos, um percentual do orçamento militar “comparável ao gastos para a aquisição de novos sistemas estratégicos nos anos 80, sob a administração Ronald Reagan”, de acordo com um estudo do Centro James Martin para os estudos de não-proliferação, no Instituto Monterrey de Estudos Internacionais.

Obama também não hesitou em jogar com fogo para ter ganho político. Tome-se por exemplo a captura e assassinato de Osama Bin Laden, pela marinha americana e peloS SEALs . Obama comprou com orgulho a ação, num importante discurso sobre segurança nacional, em maio de 2013. Foi amplamente coberto, mas um parágrafo crucial foi ignorado.

Obama celebrou a operação mas acrescentou que ela não poderia ser a norma. A razão, disse ele, é que os riscos “eram imensos”. “Os SEALs devem ter sido envolvidos num extenso tiroteio”. Embora, por sorte, isso não tenha acontecido, “o custo para a nossa relação com o Paquisão e a regressão de nossa imagem dentre o público paquistanês diante da invasão sobre o seu território tenha sido...severa”.

Vamos acrescentar alguns poucos detalhes. Os SEALs tiveram a ordem de bombardear o que vissem pela frente. Não teriam sido deixados à própria sorte, “envolvidos em tiroteios exensos”. Todas as forças do exército dos EUA teriam sido usadas para retirá-los de situação difícil. O Paquistão tem um exército poderoso e bem treinado, altamente protetor de sua soberania estatal. E tem também armas nucleares, e os especialistas paquistaneses estão preocupados com as possíveis penetrações em seu sistema de segurança nuclear por elementos jihadistas.
 
Também nao é segredo que a população tem sido empurrada para a radicalização por meio da campanha de terror com drones, de Washington, e por outras políticas.

Enquanto os SEALs ainda estavam na agenda Bin Laden, o comandante em chefe do Paquistão, Ashfaq Parvez Kayani, foi informado da ação e comandou o exército para “confrontar qualquer aeronave sem identificação”, que ele pensava seriam de origem indiana. Enquanto isso, em Cabul, o comandante de guerra general David Petraeus, ordenou que “aviões de guerra” respondessem, caso os paquistaneses “usassem seus jatos de ataque”. Como disse Obama, por sorte o pior não ocorreu, embora tivesse podido ser bem feio. Mas os riscos eram vistos sem preocupação séria. Ou tampouco qualquer comentário subsequente.

Como observou o general Butler, é quase um milagre que tenhamos escapado da destruição total até agora. E quanto mais tentarmos o destino, menos provável é que tenhamos esperança na intervenção divina para perpetuar o milagre.


(*) Noam Chomsky é linguista, professor emérito aposentado do Massachussets Institute of Technology – MIT. É autor de vários livros e artigos sobre política internacional e questões sociais e políticas. 

Tradução: Louise Antônia Leon


Créditos da foto: Arquivo




Sérgio La-Rocque - 11/08/2014
J. V. Stálin 5 de Outubro de 1951 - Sobre Armas Nucleares Pergunta: %u214 Que pensais da gritaria levantada nestes dias na imprensa americana a propósito das experiências com a bomba atômica na União Soviética? Resposta: %u214 De fato, há pouco, no país soviético, foi feita a experiência com um dos tipos da bomba atômica. As experiências com bombas atômicas de diversos calibres continuarão também, no futuro, de acordo com o plano de defesa de nosso país contra qualquer ataque do bloco agressivo anglo-americano. Pergunta: %u214 Em relação às experiências com a bomba atômica, diversos políticos norte-americanos levantam alarme e gritam, dizendo que a segurança dos Estados Unidos está ameaçada. Existe acaso algum fundamento para tal alarme? Resposta: %u214 Não existe fundamento algum para tal alarme. Os políticos dos Estados Unidos não podem deixar de saber que a União Soviética se coloca não somente contra o emprego da arma atômica, como também pela sua proibição e pela cessação de sua fabricação. Como se sabe, a União Soviética já reivindicou por várias vezes a proibição da arma atômica e todas as vezes em que o fez esbarrou com a recusa das potências que constituem o bloco do Atlântico Norte. Isso significa que, em caso de agressão dos EE. UU. contra o nosso pais, os círculos governantes dos Estados Unidos empregarão a bomba atômica. É precisamente esta circunstância que obriga a União Soviética a possuir a arma atômica para receber os agressores devidamente preparada. Certamente, os agressores gostariam que a União Soviética estivesse desarmada em caso de agressão contra ela. Mas a União Soviética não está de acordo com isso e pensa que é necessário receber os agressores devidamente preparada. Por conseguinte, se os EE. UU. não pensam agredir a União Soviética, o alarme dos políticos dos Estados Unidos deve ser considerado supérfluo e falso, pois a União Soviética jamais pensou em agredir os EE. UU. ou qualquer outro país. Os políticos dos EE. UU. estão descontentes pelo fato de que o segredo da arma atômica seja posuido não só pelos Estados Unidos, como também por outros países e, antes de mais nada, pela União Soviética. Eles gostariam que os Estados Unidos fossem os monopolistas da fabricação da bomba atômica para que os Estados Unidos tivessem a ilimitada possibilidade de amedrontar e fazer chantage nas suas relações com os outros países. Mas, em que se baseiam e com que direito pensam assim? Os interesses da manutenção da paz exigem, por acaso, semelhante monopólio? Não! Será mais certo dizer que acontece precisamente o contrário. Que os interesses da manutenção da paz exigem antes de mais nada a liquidação de semelhantes monopólios e, depois, a proibição incondicional da arma atômica. Penso que os partidários da bomba atômica só aceitarão a proibição da arma atômica se virem que já não são mais os monopolistas de tal arma.

Roméro Samuel Carneiro - 10/08/2014
É desanimador,ter conhecimento de tais fatos. Grade Sr.Noam Chomsky,isto da o que pensar o porque das dissidências estadunidense,dos Snowden's da vida,do casal JULIUS e ETHEL ROSENBERG,que transmitiram segredos da bomba atômica dos EU aos Russos,e por isso foram condenados a morte,executados na prisão de Sing Sing,no estado de Nova York. Denunciar é preciso,Longa vida ao Sr. Chomsky,

Fausto Neves Ribeiro da Silva - 10/08/2014
Isto é um documento, para guardar e buscar aprofundar. É publicado quando um Estado que tem armas nucleares está em constante agressão a um outro Estado que não dispõe de organização e orçamento militar. Se um "Kissinger informou, secretamente, aos israelenses, que eles poderiam ignorar um cessar-fogo", o precedente já existe. E se a doutrina da segurança nacional de Israel deixar de acompanhar a tão propalada segurança da população?

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Manaus tem mais um operário morto na obra do estádio da Copa

amazônia
http://amazonia.org.br/2014/02/manaus-tem-mais-um-oper%C3%A1rio-morto-na-obra-do-est%C3%A1dio-da-copa/

Manaus tem mais um operário morto na obra do estádio da Copa

Previsão é de que estádio seja entregue na semana que vem
Mais um operário morreu nas obras da Arena Amazônia, estádio sendo construído em Manaus para a Copa do Mundo de 2014.
O operário Antônio José Pita Martins, de 55 anos, estava desmontando as peças de um guindaste, na manhã desta sexta-feira, quando uma delas caiu em sua cabeça.
A secretaria amazonense que gerencia os projetos da Copa diz que o operário, que é terceirizado, foi resgatado com vida e levado para o hospital Doutor João Lucio Pereira Machado, em Manaus.
Segundo a instituição, o trabalhador teve um ferimento grave na cabeça e chegou a ser submetido a uma cirurgia para aliviar a pressão no cérebro. Ele também sofreu lesões múltiplas na região do tórax. A morte dele foi divulgada na tarde desta sexta-feira pela assessoria de imprensa do governo do Amazonas.
Trata-se da quarta morte envolvendo operários nas obras da Arena Amazônia. Marcleudo de Melo Ferreira, 22, caiu de uma altura de 35 metros nas obras do estádio e morreu no dia 14 de dezembro. Em março de 2013, Raimundo Nonato Lima da Costa, de 49 anos, também morreu após despencar de uma altura de cinco metros.
A terceira morte foi o operário José Antônio da Silva Nascimento, de 49 anos, vítima de um infarto.
Segundo a secretaria amazonense, foi cancelada a visita do governador Omar Aziz às obras, nesta sexta-feira, mas está mantido o plano de finalizar as obras do estádio para entregá-lo na semana que vem.
Em nota, a Andrade Gutierrez, responsável pelas obras, disse que “o guindaste, que auxiliava os trabalhos da Arena, já estava com as operações encerradas desde 11 de janeiro e desmobilizado em uma área externa. O operador foi socorrido pela equipe de Segurança do Trabalho e levado pelo SAMU até o hospital 28 de Agosto, onde teve seu quadro de saúde estabilizado e foi transferido para o hospital João Lúcio. O acidente não interferiu no seguimento das obras da Arena da Amazônia”.
‘Pressão’
A BBC Brasil visitou as obras no final de dezembro e ouviu de alguns operários que eles estariam na época sob pressão para finalizar as obras o mais rápido possível.
Alguns trabalhadores terceirizados também disseram estar com os salários atrasados. A Andrade Gutierrez afirmou que paga em dia a empresa terceirizada para qual os homens trabalham e disse que irá cobrar uma solução para o caso.
Autoridades responsáveis pelo estádio afirmam que após as tragédias recentes os procedimentos de segurança foram fortalecidos e que os operários não estão sob pressão.
A quatro meses da Copa, o Brasil ainda precisa entregar cinco estádios dos 12 que irão sediar jogos da Copa do Mundo. O Beira-Rio, em Porto Alegre, e a Arena Amazônia deverão ser inaugurados na semana que vem. Ficarão faltando a Arena Pantanal, em Cuiabá, a Arena Corinthians, em São Paulo, e a Arena da Baixada, em Curitiba – esta que está em situação mais crítica.
Fonte: BBC Brasil 

Estratégias de segurança!?

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/Estrategias-de-seguranca-/12/30218


Estratégias de segurança!?

Atribuir responsabilidade das agressões ao "descuido" da vítima é uma das formas pelas quais o preconceito contra certas minorias se perpetua na sociedade


Roberto Brilhante
Roberto Brilhante
Assim como a Folha de São Paulo, nós da Carta Maior também oferecemos algumas estratégias de segurança a grupos sujeitos a diversos tipos de violência:
 
- Às mulheres:
 
1. O uso de camisas largas de mangas longas e calças que não insinuem nenhum tipo de forma aumentam a segurança contra estupradores em potencial. Shorts, vestidos e decotes aguçam o instinto masculino, o que pode fazer com que alguns não "se segurem" e acabem cometendo abusos.
 
2. Evite sair só: nada de cinema, bar, mercado, parque, ônibus, caminhada: estar por aí sozinha pode dar a entender que você “quer alguma coisa”, o que pode levar a situações constrangedoras.
 
3. Tomar sorvete, apenas em casa: o ato de tomar um sorvete em locais públicos pode gerar olhares nojentos por parte de estranhos. Se você não quer estragar seu dia por causa disso, não fique tomando sorvete por aí.
 
- Aos negros:
 
1. Se quer evitar abordagens policiais, nasça branco. Como isso não é mais possível, siga as dicas de segurança dos próximos itens:
 
2. Use sempre roupas respeitáveis. Usar camisa social, calça e ter a barba feita são coisas que dão a entender que você está trabalhando e que não é algum marginal flanando pelas ruas vendendo drogas e assaltando as pessoas de bem.  
 
3. Se, ainda assim, as forças militares suspeitarem que você é um problema para a sociedade, aja com cordialidade. Entregue seus documentos, não olhe nos olhos dos policiais, não dê a entender que está tentando decorar a placa da viatura ou ler o nome nas identificações dos pm’s: tudo isso é muito desrespeitoso e pode fazer com que os policiais se sintam ameaçados e acabem reagindo com violência.
 
4. Se os policiais cometerem qualquer tipo de tortura física e/ou psicológica, mantenha-se tranquilo: quem não deve, não teme.
 
- Aos ciclistas:
 
1. Deixe a bike em casa: a via pública está cheia de motoristas que desrespeitam o espaço do ciclista. Mesmo que você respeite o código de trânsito, você é a parte mais fraca e pode acabar caindo embaixo de um caminhão.
 
- Aos moradores de rua:
 
1. Dormir com cobertores molhados diminui o risco de que jovens de classe média consigam colocar fogo em você.
 
- Aos jornalistas:
 
1. Se você é radialista ou trabalha em jornais de cidades do interior dominadas por latifundiários e grileiros, nada de ficar denunciando crimes das forças políticas locais: você pode acabar suicidado, atropelado, ou assassinado na porta de casa.
 
2. Evite cobrir manifestações: você é alvo preferencial da polícia, que não gosta que ninguém fique gravando seus abusos de poder.
 
3. Evite também falar sobre a polícia. Você pode ser sequestrado e ameaçado por pessoas encapuzadas. (caras forças policiais: este meu artigo é apenas uma forma de dar boas dicas de segurança às pessoas que tentam atrapalhar o trabalho de vocês.)
 
4. Escrever em seu blog artigos contra políticos ou pessoas ligadas ao poder judiciário pode te render multas e até mesmo cadeia. Meça suas palavras.
 
- Aos homossexuais:
 
A vocês, a Folha de São Paulo já reproduziu boas dicas no caderno Cotidiano do dia 09/02. Não dê pinta, não ande em lugares públicos sozinho, não tenha nenhum tipo de demonstração de afeto com seu parceiro(a).
 
Ironias à parte, atribuir parcela da responsabilidade das agressões ao “descuido” da vítima é uma das formas pelas quais o preconceito contra certos grupos socialmente minoritários se perpetua na sociedade. A violência que alguns homossexuais têm sofrido por parte de grupos intolerantes e de assaltantes não se compara à violência simbólica que sofrem em seus cotidianos. Afirmar que uma maneira de ser diferente daquela com que se sentem bem é uma “estratégia de segurança” não é nada menos do que uma forma de violência simbólica bastante grave.
 
É nossa sociedade que tem que criar mecanismos para proteger estes grupos, e não oferecer a eles "estratégias de segurança". Usar as roupas que se tem vontade, demonstrar afeto da forma que convier e poder andar sozinho são pilares fundamentais de nossa liberdade. Ao dizer a um negro, ou a uma mulher, ou a um homossexual que seus modos contribuem para a violência que sofrem é reafirmar os preconceitos mais enraizados de nossa sociedade patriarcal, racista e heteronormativa.
 
O desrespeito aos direitos humanos e a promoção da barbárie que a apresentadora Rachel Shereazade e o deputado Jair Bolsonaro incitam publicamente geram reações de indignação por parte de diversos setores da sociedade. E é necessário que o conservadorismo de rodapé disfarçado de notícia também gere este tipo de reação.  Sensacionalizar a violência contra os homossexuais afirmando que eles têm se escondido como “estratégia de segurança” é mais uma forma de retroalimentar a violência simbólica que estes grupos sofrem no dia-a-dia.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Para uma sociologia do arame farpado

outras palavras
http://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/para-uma-sociologia-do-arame-farpado/

Para uma sociologia do arame farpado

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Criado há 140 anos, ele mantém-se como símbolo da opressão e seu caráter bruto. Mas diversificou-se e assumiu versões até “ecológicas”, num sinal das metamorfoses do poder
Por Olivier Razac, no Le Monde Diplomatique
Inventado em 1874 por um fazendeiro norte-americano, Joseph Glidden, para cercar as propriedades das Grandes Planícies, o arame farpado tornou-se imediatamente um instrumento político de primeira importância. Em menos de um século e meio, ele serviu para cercar as terras e assim afastá-las dos índios norte-americanos, e para encerrar populações inteiras durante a guerra de independência de Cuba (1895-1898) e a segunda guerra dos bôeres na África do Sul (1899-1902); além disso, alimentou as trincheiras da Primeira Guerra Mundial e forneceu a cerca incandescente dos campos de concentração e exterminação nazistas.
Essencialmente, o arame farpado do tipo “Glidden” destina-se apenas a uso agrícola. Quando se trata de afastar homens, ele é substituído pelo arame farpado dito “lâmina”: pequenas lâminas cravadas no fio central, que podem ao mesmo tempo cortar e furar o intruso, substituem as farpas. A forma da lâmina muda de acordo com a utilização prevista e pode servir tanto à simples dissuasão como ter a capacidade de ferir mortalmente.
A persistência de um objeto tão pouco elaborado pode surpreender. Em um século de progressão tecnológica fulgurante, ele continua eficiente para realizar o que se espera dele: delimitar o espaço, traçando no solo as linhas de uma partilha ativa. Nesse papel, ele é excelente. Sua leveza permitiu cobrir distâncias extraordinárias e sua flexibilidade responde a todas as necessidades: proteger, fortificar, fechar… Tudo isso com um fio de metal cheio de pequenas pontas. A distância entre a simplicidade do objeto e a importância de seus efeitos mostra que a perfeição de um instrumento de exercício do poder não se mede por seu refinamento técnico, que seu poder não passa necessariamente por um gasto de energia ou ainda que a maior violência não é forçosamente a mais impressionante.
Mesmo que o arame farpado tenha abandonado amplamente a paisagem das democracias liberais – teríamos muita dificuldade em imaginá-lo cercando escritórios, supermercados e jardins, ou sendo utilizado pelas forças da ordem para bloquear ruas durante manifestações –, ele não desapareceu. Continua sendo utilizado em todos os países, mas não em qualquer lugar. Em volta das plantações e pastos, no campo; na cidade, acima dos muros das fábricas consideradas estratégicas, dos quartéis, das prisões e em algumas residências; ao longo das fronteiras tensas, nos campos de batalha…
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Nesses casos, o arame farpado funciona como um revelador das diferenças políticas. Por que é comum encontrá-lo sobre os muros das mansões ricas da África do Sul, ao passo que na França isso “não se faz”? Por que a polícia ou o exército podem facilmente parar os manifestantes desenrolando rolos de concertina1 nas ruas das Filipinas, enquanto os soldados franceses se protegem atrás de finos escudos de acrílico?
A resposta é, pelo menos, tripla. É preciso em primeiro lugar considerar o nível de violência das sociedades em questão. A fortificação das residências privadas relaciona-se com a brutalidade das desigualdades sociais, que ela inclusive contribui para piorar. O nível de sensibilidade à violência sofrida e percebida deve também ser levado em conta. Por fim, a variabilidade geográfica da força simbólica dos instrumentos utilizados: a percepção do arame farpado não é a mesma na Europa, na China e na África, em particular porque existe uma relação diferente com os objetos históricos que o arame farpado simboliza – na Europa, os campos de concentração, o genocídio, a guerra.
Esses três fatores desenham, finalmente, uma geografia política do arame farpado que também é uma cartografia dos grandes tipos de governo que coexistem no mundo – que não corresponde, em absoluto, aos recortes políticos mais convencionais (democracia versus ditadura). A resposta à questão “arame farpado ou não?” é um indicador bem confiável da tecnologia política e do tipo de relações entre governantes e governados.
Criar jardins de sonho
No Ocidente, o arame farpado simboliza a opressão, com relação às suas utilizações históricas catastróficas. Assim, “as cercas, os fios de arame farpado, as barragens, as forcas, as câmaras de gás e os fornos crematórios” do campo de concentração e exterminação de Auschwitz-Birkenau estão inscritos na lista do patrimônio mundial como o “símbolo da crueldade do homem contra o homem no século XX”.2 De modo significativo, no logotipo da Anistia Internacional, associação fundada no Reino Unido para combater a prisão e a tortura, figura uma vela enrolada num fio de arame farpado. Há que se notar que, por outro lado, a conotação negativa pode ser invertida quando se trata de destruir o dispositivo. Em 1989, a Hungria decidiu dar um passo significativo em direção ao Ocidente: “Num gesto simbólico, [o ministro das Relações Exteriores] cortou, com seu colega austríaco, os fios de arame farpado que marcavam a existência da cortina de ferro entre a Áustria e a Hungria”.3
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A forte carga simbólica do arame farpado fez dele um instrumento ainda mais custoso politicamente por existir uma sensibilidade exacerbada à violência e um desejo de imunidade dos corpos, opiniões e afetos. Noli me tangere [Que ninguém me toque!], diz a expressão latina. “Nas sociedades ocidentais”, escreve o filósofo Alain Brossat, “o crescimento do paradigma imunitário tende a se desenvolver em verdadeira fobia do toque, do contato.”4 Nesse contexto, o arame farpado representa uma maneira intolerável de repartir os corpos no espaço. O risco de sofrer o contato cortante de suas pontas ou de suas lâminas, assim como a obrigação de suportar sua vista parecem inaceitáveis.
No entanto, até mesmo nos espaços onde o arame farpado é cada vez mais difícil de ser utilizado as delimitações não desaparecem: elas são apenas mais discretas, suavizadas. Pois existe um jogo de oposição entre, de um lado, as táticas de eufemização da violência espacial que necessitam da ausência de instrumentos agressivos como o arame farpado e, por outro lado, a persistência de táticas dissuasivas que se apoiem sobre uma brutalidade visível.
A eufemização é a princípio uma tática de discurso pela qual se substitui um termo por outro que diz indiretamente a mesma coisa. É assim que as fronteiras militarizadas se tornam “zonas desmilitarizadas”, “zonas tampão” ou “barreiras de segurança”. Mas, longe de ser apenas um linguajar, a eufemização também é estética, procedimental, tecnológica, arquitetônica, geográfica. Tomemos como exemplo as prisões para menores construídas nesses últimos anos: do lado de fora, indica o ministério da Justiça, “a imagem carcerária é voluntariamente atenuada por um tratamento arquitetônico adaptado que garanta uma melhor integração ao ambiente”.5 A violência espacial se exerce, mas economizando o custo político de seu exercício direto e sem maquiagem.
Daí a fascinação atual, ao mesmo tempo anedótica e sintomática, pela cerca vegetal. Uma empresa francesa, Sinnoveg, patenteou em 2005 o conceito de “trepadeira defensiva trançada natural”. “Uma inovação completamente ecológica, decorativa e instransponível”, vangloria-se o panfleto publicitário da empresa. Graças a uma escolha de essências vegetais com espinhos particularmente agressivos, esse novo tipo de barreira permite criar um obstáculo tão eficiente quanto uma cerca de arame farpado, por um custo parecido e com um retorno estético neutro, até mesmo agradável. Como se fosse arame farpado, com a vantagem de dar flores na primavera…
Assim, “os locais são protegidos sem para isso parecerem agressivos ou até mesmo chocantes vistos de fora”. Outra vantagem dessas trepadeiras: elas são adaptáveis e moduláveis. Ao lado das escolas, os vegetais que as compõem são desprovidos de espinhos; por outro lado, nas localidades “sensíveis”, as plantas servem para camuflar e reforçar as cercas clássicas de arames farpados e grades. Nessas combinações de flores e espinhos se entrelaçam a tática e a poesia do poder. Jardins de sonho seguros: “A Sinnoveg possui um savoir-fairepara criar jardins de sonho, de descanso em harmonia com a casa e seus mestres, oferecendo ao mesmo tempo o conforto da tranquilidade e da segurança por meio de um conceito decorativo e discreto de cerca vegetal intransponível, assim como vegetais excepcionais e únicos”.
Refinados meandros da violência política
Em outros casos, a eufemização está a serviço de um aumento da potência repulsiva. Ela consiste em camuflar os instrumentos violentos – a trepadeira florida que dissimula grades e rolos de arames farpados laminados – ou em mascarar a própria ação de delimitação a fim de capturar mais facilmente aqueles que a transgridem. Mesmo suavizadas, as demarcações do espaço não desaparecem: elas se modulam segundo as necessidades técnicas, em função de um equilíbrio sutil entre eficiência do instrumento utilizado e sua aceitabilidade simbólica. O arame farpado não vai desaparecer das sociedades ocidentais, mas em breve ele será utilizado somente para níveis de segurança muito elevados (prisões, campos militares…), em situações em que poderá ser escondido ou ainda em locais afastados, pouco habitados. Nas cidades modernas, a eficiência e a discrição das delimitações são obtidas preferencialmente por meios tecnológicos virtualizados: câmeras, portões eletrônicos, sensores…
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A carga simbólica negativa e inconsciente do arame farpado pode agir como um instrumento de dissuasão, seguindo o cálculo – político e pragmático – que decide por sua utilização. Assim, o bairro de New Willington, na periferia considerada perigosa de Compton, no sul de Los Angeles, foi cercado para colocar um fim aos enfrentamentos entre gangues. Ali há de tudo: arame farpado, grades com ponta de lança, barreiras, desvios, guaritas, guardas. “As conotações militares da arquitetura desse dispositivo de filtragem não são suavizadas. Ao contrário, essa estética defensiva torna visíveis a segurança e o controle que foram reencontrados nessa comunidade.”6
O aspecto agressivo da delimitação serve aqui para prevenir as tentativas de transposição ao mesmo tempo que produz uma diferença hierárquica entre dois espaços e duas populações. O interior é valorizado (principalmente em termos imobiliários) pela aparência chamativa da segurança, ao mesmo tempo que o exterior é desvalorizado e seus habitantes são designados como indesejáveis. Em outro local, em contrapartida, num município fechado da Califórnia, reservado a moradores com mais de 55 anos, a agressividade da cerca serve essencialmente para tranquilizar os habitantes, sem repousar sobre uma verdadeira utilidade operacional: “Aqui, a aparência de segurança é mais importante do que a segurança efetiva”.7
Todas essas possibilidades de agenciamento dos instrumentos de delimitação do espaço desenham um leque estratégico de grande riqueza: multiplicação e reforço dos limites graças a uma suavização simbólica, mas também endurecimento da segregação graças à sua brutalidade, real ou espetacular. O objetivo das divisões do espaço hoje não é binário: não se trata de uma “grande reclusão” da qual o arame farpado e a multiplicação das fronteiras blindadas seriam o sintoma, tampouco de uma simples liberação da circulação dos fluxos em razão da utilização de tecnologias virtuais.
O objetivo reside em uma diversificação estratégica que permite todas as misturas, todas as articulações e todas as ambiguidades. Paradoxalmente, um instrumento como o arame farpado, sobre o qual poderíamos pensar que focaliza nossa atenção em objetivos arcaicos da violência – a visibilidade de uma brutalidade intensa exercida sobre a carne –, nos leva, ao contrário, a deslocar nosso olhar. As formas atuais da violência política se reconhecem menos por sua intensidade manifesta do que por seus meandros refinados.
* Oliver Razac é filósofo, é autor da Histoire politique du barbelé [História política do arame farpado], Flammarion, Paris, 2009.
1 “Concertina” porque esse arame farpado do tipo lâmina se desenrola como um acordeão.
2 Disponível em: .
3 Entrevista com Gÿula Horn, Le Monde, 5 nov.1999.
4 Alain Brossat, La démocratie immunitaire [A democracia imunitária], La Dispute, Paris, 2003.
5 “Les établissements pénitentiaires pour mineurs” [Os estabelecimentos penitenciários para menores], Ministère de la Justice, Paris, 31 jan. 2005.
6 Gérard Billard, Jacques Chevalier e François Madoré, Ville fermée, ville surveillée. La sécurisation des espaces résidentiels en France et en Amérique du Nord [Cidade fechada, cidade vigiada. A segurança dos espaços residenciais na França e na América do Norte], Presses Universitaires de Rennes, 2005.
7 Ibidem.