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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Etnografia do “rolezinho”

carta capital
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/etnografia-do-201crolezinho201d-8104.html



Etnografia do “rolezinho”

O ato de ir ao shopping é político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia
por Rosana Pinheiro-Machado — publicado 15/01/2014 08:59, última modificação 15/01/2014 10:54
Rosana Pinheiro-Machado
Em 2009, eu e minha colega e amiga, Lucia Scalco, começamos a estudar o fenômeno dos bondes de marca. Como? A gente reunia a rapaziada, descíamos o morro e íamos juntos dar um rolezinho pelo shopping – o lugar preferido desses jovens da periferia de Porto Alegre. Eles nos mostravam as marcas e lojas preferidas. Contavam como faziam de tudo para adquirir esses bens (descrevemos todas as possibilidades em nossos papers). Havia um prazer e empoderamento nesse ato de descer até o shopping. Eles não queriam assustar, porque nem imaginavam que a discriminação fosse tão grande que eles pudessem assustar. Muito pelo contrário: eles faziam um ritual de se vestir, de usar as melhores marcas e estar digno a transitar pelo shopping.
Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência. Mas, noutro canto, os donos da loja se assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “não adianta eles se vestirem com marca e virem pagar com dinheiro. Pobre só usa dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das lojas.
Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. Quando mostrei o Funk dos Bens Materiais em aula, uma aluna de camadas altas comentou: “quando a gente vê a figura toda montada, marca estampada, já vê que é negão favelado”. Infelizmente não me surpreendeu o fato de toda a aula ter caído na risada. Esse mesmo tipo de pessoa é aquela que ainda diz que é um absurdo comprar televisão, “pobre deveria alimentar a prole” e ponto final. No programa Papai Noel dos Correios, que eu e Lúcia analisamos, uma menina desafiava o seu destino: “kirido papai noel: eu me comportei, eu passei de ano, eu cuido da minha vó, meu pai sumiu de casa. Eu só quero uma calça da Adidas!”. Mas vocês podem concluir que cartas como essas são relegadas por meio de uma moralidade escrota: todos os pedidos de meninas e meninos de roupas de marca eram vistos como um desaforo. Que absurdo! Afinal, pobre deve pedir material escolar e bicicleta!
Tenho ficado quieta nesse caso do “rolezinho” porque este talvez seja o assunto que mais seja caro à minha sensibilidade acadêmica e política. Esse tema é justamente o que me faz me afastar de uma certa antropologia vulgar com suas interpretações do tipo “que lindo essas pessoas se apropriam das marcas e dão novos significados e agência e bla blá blá prá boi dormir”. Mas também é este tema que me aproxima ao que a antropologia tem de melhor: ouvir as pessoas. Não há uma grande diferença do “rolezinho” organizado e ritualizado das idas aos shoppings mais ordinárias (ainda que a ida ao shopping pelas classes populares nunca tenha sido um ato ordinário), mas vejo uma continuidade que culmina num fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia. Quando eu vejo aquele medo das camadas médias, lembro daquelas pessoas que se referiram “aos negões favelados”. E há certa ironia nisso. Há contestação política nesse evento, mas também há camadas muito mais profundas por trás disso.
Estou acompanhando os “rolezinhos” e sinto certo prazer em ver aquela apropriação. Mas entre apropriação e resistência há um abismo significativo. Adorar os símbolos de poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia de resistência que tanta gente procura encontrar nesse ato. O tema é complexo, não apenas porque desvela a segregação de classe brasileira, mas porque descortina a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre o Norte e o Sul. E enquanto esses símbolos globais forem venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior das dependências será eterna: a ideológica. Por isso, para entender a relação que as periferias globais têm com as marcas e os shoppings, é preciso voltar para os estudos colonialistas e pós-colonialistas.
A apropriação de espaços símbolos hegemônicos, desde Mitchell até Newell, passando por Bhabha, Rouch e Ferguson, nos mostra uma permanente tensão na apropriação que tenta resolver a brutal violência que esta por trás desse ato. O meu lado otimista não nega o que esses jovens nos disseram: do prazer que sentem em se vestir bem e circular pelo shopping para SEREM VISTOS. Meu lado pessimista tende a concordar com Ferguson de que há menos subversão política e mais um apelo desesperador para pertencer à ordem global. É preciso entender o “rolezinho” dentro de uma perceptiva do Sul Global de séculos de violência praticada na tentativa de produzir corpos padronizados, desejáveis e disciplinados.
O pobre no shopping repete a mimeses de Bhabha. A classe média disciplinada vê os jovens vestindo as marcas do mercado hegemônico para a qual ela serve. A classe média vê os sujeitos vestindo as mesmas marcas que ela veste (ou ainda mais caras), mas não se reconhece nos jovens cujos corpos parecem precisar ser domados. A classe média não se reconhece no Outro e sente um distúrbio profundo e perturbador por isso. Não adianta não gostar de ver a periferia no shopping. Se há poesia da política do “rolezinho” é que ela é um ato fruto da violência estrutural (aquela que é fruto da negação dos direitos humanos e fundamentais): ela bate e volta. Toda essa violência cotidiana produzida em deboches e recusa do Outro e, claro também por meio de cacetes da polícia, voltará a assombrar quando menos se esperar.
Rosana Pinheiro-Machado é cientista social e antropóloga. Professora de Antropologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford.
** Texto publicado originalmente em 30 de dezembro de 2012

sábado, 21 de dezembro de 2013

Negros brasileiros poderão ter direito a cota para concursos públicos

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=79187



Igualdade Racial
20.12.2013
Negros brasileiros poderão ter direito a cota para concursos públicos

Priscila Baima
Adital

A proposta do poder Executivo que reserva 20% das vagas para negros nos concursos públicos da esfera federal (PL 6738/13) foi aprovada nesta quarta-feira (18) pela Comissão de Direitos Humanos.
Com prazo de dez anos, a medida valerá para órgãos e entidades da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União.
O texto, aprovado nos termos do relatório do deputado pastor Marco Feliciano (PSC-SP), conhecido nacionalmente pelas suas declarações homofóbicas e racistas, inclui uma emenda para que a reserva de vagas também seja aplicada na ocupação de cargos comissionados no funcionalismo público.
Para o deputado, a proposta de cotas raciais para concursos públicos, bem como as que permeiam as da universidade, tentará resgatar uma dívida histórica, proporcionando uma inclusão social. "Trezentos anos de escravidão deram a eles [os negros] a infelicidade de pararem no tempo. Então, o que hoje esse projeto faz é tentar resgatar essa dívida histórica e pagá-la, abrindo oportunidade de uma inclusão social. É uma ação afirmativa que veio do governo, e o mundo moderno caminha para isso. Não podermos fechar os olhos”, defendeu Feliciano.
A proposta aprovada pela Comissão de Direitos Humanos prevê, ainda, um percentual específico de vagas para negros vindos de escolas públicas, defendido em voto separado pelo deputado Pastor Eurico (PSB-PE). De acordo com o PL, dentro da cota de 20%, 75% das vagas serão destinadas a alunos negros que concluíram seus estudos em escolas públicas, e os 25% restantes para os que estudaram em instituições particulares.
O professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (NEPP-DH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Vantuil Pereira, defende a adoção das cotas para concursos públicos e ressalta que esse processo de aprovação precisa ser ampliado para as universidades. "Essa aprovação é reflexo dos inúmeros esforços empreendidos pelos movimentos da sociedade para a conquista da igualdade racial. A proporção poderá fazer muita diferença, ainda mais se considerarmos concursos em órgãos públicos e cargos destacados na esfera federal. Por outro lado, ela ainda abre outro capítulo no processo iniciado com as cotas nas universidades, uma vez que não adiantaria ter profissionais formados sem que as oportunidades fossem efetivas”.
Em contrapartida, o deputado Marcos Rogério, do PDT de Rondônia, votou contra a o projeto. O acesso ao serviço público, segundo Marcos, deve ser por mérito e não por meio de políticas alternativas. "O que se pretende com esse projeto é distinguir uma parcela da sociedade de outra. O artigo 37 da Constituição Federal diz que, entre os objetivos da administração pública, está o princípio da eficiência. Então, eu quero que o negro não tenha apenas 20%. Eu quero que ele tenha 100% de chance de competir em todas as vagas”, declarou.
O Projeto de Lei tramita em regime de urgência constitucional e será examinado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), antes de seguir para o Plenário. A proposta do Executivo já havia sido aprovada pela Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público.