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segunda-feira, 14 de julho de 2014

MATO GROSSO – FUTURO MACABRO DAS CRIANÇAS E JOVENS DE HOJE


Padre Renato
Fórum de Direitos Humanos e da Terra - FDHT



MATO GROSSO – FUTURO MACABRO DAS CRIANÇAS E JOVENS DE HOJE
Por Padre Renato (Bio Saúde)

       O atendimento em constantes casos de leucemia e outros tipos de câncer, feito no Bio Saúde de Cuiabá e pelas equipes do norte do Mato Grosso, abre uma triste perspectiva da saúde para as gerações de hoje, tanto dos jovens e principalmente das crianças.
         O Doutor Pignati, clínico geral e professor da UFMT, residente em Cuiabá, não se cansa de denunciar os malefícios do agronegócio, declarando que o gado e principalmente a soja são as causas principais que provocam baixa imunidade e intoxicação de pessoas e meio ambiente de todo Mato Grosso. Nesta lista, podemos incluir todos os estados brasileiros e todos os países europeus, principalmente a China, para os quais o gado e a soja do nosso estado são exportados.
         Foram realizados exames de leite materno com 62 mulheres em Lucas do Rio Verde, MT, e em cada resultado, o leite apresentou algum tipo de agrotóxico. Também foram realizados exames de urina e sangue nos manipuladores de veneno naquela região, usando laboratório sofisticado da Alemanha, e os resultados apresentaram que em cada pessoa, estão presentes pelo menos 15 espécies de agrotóxico. A TV Centro América, globo local, todos os anos em fevereiro denuncia a mortandade de milhares de peixes acontecendo no pantanal. Isso acontece depois das primeiras enxurradas lavando da terra os venenos espalhados pelos aviões.
         Concluímos:  Se todas as mulheres e todos os trabalhadores examinados apresentaram agrotóxicos e se milhares de peixes morreram envenenados, com certeza essa tragédia se estenderia a milhões de brasileiros e estrangeiros, e também afetaria os peixes dos nossos rios, que uma vez eram limpos e hoje estão com as águas envenenadas, caso fossem feitos exames individuais a cada pessoa e cada animal.
         A Presidente Dilma, quando esteve na região, de cima de um trator, não deixou de elogiar o agronegócio que está dando fabulosos reais aos cofres federais, porém nos deixa entrever um futuro macabro para as gerações de crianças e jovens atuais. São essas as causas principais da intoxicação e da baixa imunidade causadoras de anemias profundas, geradoras de leucemias, e outros tipos de câncer e muitas outras doenças.
         Outro grande problema e causador de cânceres e problemas sérios de pele são os transgênicos. No Bio Saúde, nós alertamos sobre a situação ao atender um menino do Paraná que há 4 anos vinha se tratando sem sucesso com a medicina convencional. Em 3 meses o menino estava curado. A causa dessa leucemia é encontrada em transgênicos importados da Argentina.
         Conclusão final e fatídica: Já não existe leite materno confiável, nem peixe de rio limpo, os nossos mercados estão cheios de agrotóxicos e transgênicos que obrigam a população a se alimentarem de venenos. Animais são também alimentados com transgênicos e outros agroquímicos, de sorte que as carnes consumidas pelo ser humano também se encontram contaminadas e geradoras de cânceres em geral.

Cuiabá, mês de Julho de 2014.

Pe. Renato
Membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, MT 

Membro do Fórum de Direitos Humanos e da Terra, MT

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobre papas, capitalismo e esquerda

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http://outraspalavras.net/capa/sobre-papas-capitalismo-e-esquerda/


Sobre papas, capitalismo e esquerda

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Que há de novo nas críticas de Francisco ao sistema? Por que seria tolo desprezá-las, na conjuntura complexa que vivemos?
Por Vicenç Navarro |Tradução: Inês Castilho
Quando eu era menino, meus pais ensinaram que uma coisa são as religiões (aconselhando, a mim e a meus irmãos, ser respeitosos com os crentes, como parte do respeito devido a todo ser humano); e outra coisa são as igrejas (qualquer que seja sua cor), que reproduzem e gerenciam as religiões para benefício de seus aparatos ou hierarquias – o que explica sua constante identificação com as estruturas de poder às quais servem. Nem é preciso dizer que meus pais não nos exigiam respeito por essas estruturas.
Ao longo da minha vida, visitei muitíssimos países. E em todos eles sempre constatei que as Igrejas (e muito em especial a Católica) servem sempre às estruturas de poder, sendo a Espanha o caso mais patente. É portanto compreensível o anticlericalismo das classes populares na Espanha. Considero um sintoma de enorme frivolidade trivializar este anticlericalismo como um sentimento gratuito, resultado de ideologias estrangeiras que manipulam os povos. As classes populares não necessitavam de nenhum estímulo externo para ver e reagir ao que veem.
Este conservadorismo da Igreja Católica (hoje uma das religiões mais conservadoras) é, em parte, compreensível, dado o benefício econômico que lhe traz. A base material de sua ideologia – como diriam os materialistas históricos – são as vantagens materiais que derivam de seu servilismo ao poder. Este mesmo servilismo é o que explica sua postura anticientífica, pois sente-se ameaçada pelo conhecimento. Não por acaso só no ano de 1992 (sim, 1992) a Igreja Católica desculpou-se por haver, no século XVII, perseguido Galileu – que ousou afirmar, contrariamente ao que dizia a Igreja, que a Terra dava voltas ao redor do Sol, e não o contrário. Em 2008, o Vaticano pensou inclusive em erigir-lhe um monumento, mas decidiu adiar o projeto, porque era ainda muito cedo. Na Igreja Católica, as coisas de palácio andam meio devagar.
O que acontece no Vaticano?
É interessante, por certo, que no jornal diário do Vaticano um historiador alemão, Georg Sans, tenha escrito em 2009 um artigo louvando Karl Marx por sua introdução do conceito de alienação criada pelo capitalismo. Dizia Georg Sans: “temos de nos perguntar se Marx não estava certo, ao descrever o capitalismo como gerador de alienação…” (citado noartigo “Is the Pope Getting the Catholics Ready for an Economic Revolution? (Maybe He Read Marx)”, de Lynn Parramore). E as declarações do novo papa criticando o capitalismo estão gerando um grande rebuliço.
Há que dar-se conta de que a Igreja Católica, e concretamente o Vaticano, sempre tiveram atitudes críticas com relação aos excessos do capitalismo. Desde as encíclicas de Leão XIII (1878-1903) até João Paulo II, as críticas aos exageros do sistema têm sido constantes. Foram mais acentuadas, aliás, quando ideologias contrárias à Igreja (ainda que não contrárias à religião), como o marxismo, alcançavam grande poder de atração junto aos movimentos de trabalhares e intelectuais do mundo ocidental.
O que é novo no Vaticano é que, no documento que acaba o Papa Francisco acaba de publicar sobre a pobreza e a Igreja, parece haver uma suspeita de que se ensaia um passo adiante. A crítica não se limita aos excessos do capitalismo, mas ao capitalismo em si. Há partes do documento que parecem aproximar-se desta postura. Escreve Francisco: “o mandamento Não matarás estabelece um mandato de respeitar a vida humana. Daí que este ‘não matar’ deve aplicar-se a um sistema econômico baseado na desigualdade e na exclusão…”. Acrescenta Francisco que “tal economia mata. Daí que até que não termine o domínio absoluto dos mercados e sua especulação financeira (que Francisco indica, corretamente, ser intrínseca ao capitalismo…), e até que não se ataquem as raízes dessas desigualdades, não se encontratrá nenhuma solução aos problemas do mundo, ou a problema nenhum”.
Outro parágrafo de Francisco: “algumas pessoas (Francisco poderia ter escrito a maioria dos establishments econômicos, financeiros, políticos e mediáticos europeus e estadunidenses) continuam defendendo as teorias do ‘trickle-down‘, segundo as quais a concentração de riqueza produzida no crescimento econômico (capitalista) e em seus mercados trará inevitavelmente maior justiça e inclusão, ao aumentar a riqueza, melhorar a vida de todos e a coesão social. Essa opinião, que nunca foi confirmada por dados, expressa uma fé ingênua e crua na bondade dos que concentram o poder econômico e na eficiência sacrossanta do sistema econômico existente”. Não vi este parágrafo citado em nenhum dos meios de comunicação de maior difusão, que têm excluído sistematicamente vozes críticas ao neoliberlismo dominante.
Não é necessário dizer que a resposta foi previsivelmente hostil. Nos EUA, um país com cultura midiática dominante profundamente conservadora, já apareceram vários artigos, escritos em tom alarmante, que “Marx está inspirando o Papa”. Sarah Palin, a dirigente do Tea Party, manifestou seu choque diante das declarações de Francisco. E mais de um editorial indicou que, da mesma maneira que o papa João Paulo II contribuiu para o colapso da União Soviética, o papa Francisco pode ajudar a acabar com o capitalismo.
Essa imagem me parece exagerada. Mas seria um erro se as forças progressistas ignorassem as mudanças no Vaticano. Entendo e compartilho as reservas e o ceticismo sobre o novo papa, ceticismo estimulado por casos tão ofensivos e prejudiciais aos democratas como o silêncio de Francisco diante da homenagem aos que tombaram na Cruzada espanhola. Mas considero valiosa a existência, na Igreja, de transformações que diluam sua esmagadora oposição à mudança e ao progresso. Daí sua enorme importância. Seria um grande erro não estar ciente disso, em países onde a Igreja sempre desempenhou papel negativo em defesa da ordem econômica estabelecida e contra a expansão dos direitos humanos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Contra o crack, disciplina, trabalho e oração

a pública
http://redir.esp.br/s/?14309.70.329163.0.1.12401.9.2880608.0.10.0.0.138435.0.0.0e8cc

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Contra o crack, disciplina, trabalho e oração
Por Andrea Dip



Comunidades terapêuticas religiosas são maioria na terceirização do combate ao crack promovida pelo governo federal. Para deputado que lidera o tema, drogadição é “desvio de caráter”
 
Mariana* vem andando pelo corredor com um sorriso tímido e uma camiseta com dizeres bíblicos em cor verde neon. Aparenta ter muito mais de 36 anos. O crack redesenhou sua pele, seus dentes e marcou sua expressão. A pedido do presidente de honra da comunidade terapêutica – um dependente químico que diz estar limpo há 5 anos graças a sua passagem pela casa – ela saiu da reunião com as senhoras voluntárias da igreja carismática para vir me contar sua história de recuperação. As senhoras celebram minha chegada: “Hoje é dia de Santa Edwiges, foi ela que te mandou aqui conhecer esse trabalho maravilhoso” diz uma delas.
Vamos para outra sala e Mariana começa a contar sua história. É dependente química há 18 anos e foi usuária de crack por cinco anos. É mãe de 3 filhos, um deles diagnosticado como autista. Mora com os irmãos e com a mãe, que é quem agora tem a guarda das crianças. Conheceu aquela comunidade terapêutica – no caso a Servos, em Ceilândia (DF), mas todas que visitei são muito parecidas – através de um parente e, a pedido da família, resolveu se internar. “Nunca fiquei tanto tempo longe dos meus filhos” diz emocionada. “Foi uma decisão muito difícil vir para cá. Eu não conhecia ninguém, não sabia o que iria encontrar. Acontecem muitas brigas porque cada uma é de um lugar, tem uma cultura, uma religião. Pensei muitas vezes em desistir de tudo mas hoje sou grata pelo que passei, graças a Deus eu consegui” diz, referindo-se ao processo de recuperação em meio ao convívio com as companheiras de internação. Há oito meses e algumas semanas internada na comunidade, ela voltaria para casa no dia seguinte. Mariana explica que não tomou remédios para ajudar na desintoxicação “só mesmo para dor de cabeça, porque trabalhava na roça muito tempo debaixo do sol, para suar e esquecer a vontade e aí doía a cabeça”.
“Aqui não tem luxo. Elas arrumam as camas, lavam suas roupas, cuidam da roça e quando tem um trabalho mais pesado para fazer, como subir um muro, a gente chama os internos da unidade masculina. A gente trata os desvios de caráter com oração, disciplina e trabalho” diz Fernando de Oliveira Soares, diretor-presidente da instituição, que, em outubro, passou a receber mil reais mensais por interno, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD)  através do programa “Crack, é possível vencer” do governo federal.
Apesar de esperançosa e com muitos planos para a vida do lado de fora, é difícil prever se Mariana vai realmente conseguir viver longe do crack. Isso porque a dependência química é uma doença, como dizem os especialistas, “crônica, progressiva, incurável mas tratável” e não existem até hoje no Brasil, pesquisas confiáveis, estatísticas ou evidências científicas que comprovem a efetividade a longo prazo do tratamento realizado pelas comunidades terapêuticas como a Servos – em sua maioria entidades privadas religiosas, sem fins lucrativos, de internação voluntária que pode chegar a 9 meses e que se baseiam em oração, trabalho e disciplina e nos 12 passos empregados pelos Alcoolicos Anônimos.  Ainda assim, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), através do programa “Crack é possível vencer” abriu um edital em novembro de 2012 para financiar comunidades terapêuticas e até o fechamento desta reportagem (um segundo edital estava em andamento) havia 114 contratos fechados por todo o país. A título de comparação, a rede de Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS AD), que se tornou política pública de saúde oficial no começo dos anos 2000, dez anos depois possui apenas 305 postos em todo o território nacional.

Para especialista, terceirização é retrocesso

“Atualmente temos 2679 vagas em funcionamento nas comunidades terapêuticas sendo custeadas por uma linha de financiamento exclusiva. São mil reais mensais por leito e devemos investir cerca de 180 milhões de reais” explica o Secretário Nacional de Políticas Sobre Drogas Vitore André Zilio Maxiano. O programa “Crack é possível vencer” foi lançado em 2011 e visa um pacote de ações conjuntas entre os Ministérios da Justiça, Saúde e do Desenvolvimento Social e Combate a fome para “enfrentamento ao crack e outras drogas” ao custo de R$ 4 bilhões. Entre as medidas mais polêmicas, principalmente entre os profissionais da saúde mental, está o financiamento das comunidades terapêuticas, por retomar o modelo de internação para o tratamento – algo que a reforma psiquiátrica e a política antimanicomial iniciada no fim dos anos 1970 vinham lutando para derrubar pelo grave histórico de torturas e violações de direitos humanos.
No artigo “Política anti crack:Epidemia do Desespero ou do mercado anti-droga?” publicado no site do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde (CEBES), o psiquiatra presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental e pesquisador da Fiocruz, Paulo Amarante, escreve que o financiamento às comunidades terapêuticas foi rejeitado por meio de moções, e que propostas alternativas foram apresentadas por cerca de 50 mil pessoas, tanto na IV Conferência Nacional de Saúde Mental quanto na recém realizada XIV Conferência Nacional de Saúde. Poucos dias após o encerramento da XIV Conferência, continua o pesquisador, o governo anunciou o plano de combate ao crack e o financiamento destas instituições: “A primeira vez que eu ouvi falar [ das comunidades terapêuticas ] foi em uma reunião particular que tive com Tim Lopes [ jornalista assassinado pelo tráfico em 2002 ] que me mostrou fotos e vídeos surpreendentes destas tais ‘comunidades’ que ele estava pesquisando para matérias para a TV Globo. Cenas de violências e maus tratos, de extorsão de familiares, de inúmeros constrangimentos. Mais recentemente o tema tomou uma enorme dimensão, com o crescimento do uso de crack (crescimento ainda muito pouco pesquisado e comprovado). Tenho notado que o processo na mídia tem distorcido  a questão – para mais ou para menos – ,  de acordo com interesses de mercado jornalístico ou outros mercados afins”, escreveu.
Para Amarante, a Reforma Psiquiátrica brasileira, principalmente pela criação dos CAPS, é bem vista internacionalmente por respeitar a autonomia e os direitos dos dependentes – dispensando internação – e pelas iniciativas de Redução de Danos (se quiser saber mais sobre o assunto, eu fiz essa matéria para a revista Fórum em 2009 e pouca coisa mudou desde então). “Os modelos calcados na internação respondem ao imediatismo do desespero da sociedade mas após a alta, mais de 90% retornam às drogas” conclui o psiquiatra.
O Conselho Regional de Psicologia de São Paulo também lançou nota pública repudiando as ações do programa: “O Decreto nº 7.179, de maio de 2010, ao instituir o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras drogas, tenta suprir a deficiência de uma política de saúde integral. Após este decreto, o Ministério da Saúde, em conjunto com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), promove editais que destina, entre outros, apoio financeiro a projetos de utilização de leitos de acolhimento para usuários de crack e outras drogas em Comunidades Terapêuticas. Porém, o nome comunidades terapêuticas abarca toda e qualquer instituição que se proponha a ‘cuidar’ do usuário de álcool e outras drogas na forma jurídica que melhor lhe couber, nos princípios e diretrizes dos proprietários dessas formas jurídicas – ONGS, grupos de auto-ajuda, instituições religiosas. (…) Em um momento em que a Reforma Psiquiátrica Brasileira vem sendo atacada por setores econômicos estratégicos, assistimos ao investimento em 2.500 leitos em instituições que não fazem parte da Rede Substitutiva de Atenção à Saúde Mental do SUS em detrimento da ampliação do número de CAPS-AD e Leitos em Hospitais Gerais. O que se pode observar é que, em sua grande maioria, as comunidades terapêuticas não promovem ações que visam reconstruir os laços comunitários e a inserção social dos internos; não têm articulação com a rede SUS e SUAS do município; não promovem a construção de um Projeto Terapêutico Individualizado, com a participação do usuário e seu familiar, com alternativas de continuidade após a saída do estabelecimento” diz uma parte da nota, que pode ser lida na íntegra aqui.
Em entrevista ao jornal O Globo no começo deste ano, porém, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, defendeu o investimento: “Não podemos fechar os olhos para as comunidades terapêuticas. Eu sei que há polêmicas, controvérsias com certos segmentos da sociedade, mas queremos criar condições para que essas entidades façam um trabalho melhor. Queremos que os serviços sejam prestados, o mais rápido possível. Quanto mais leitos, melhor”.

Amorex em vez de médico: a ferramenta de cura de Carimbão

“Se para a psiquiatria existe o Aldol e o Fernagan, para as comunidades acolhedoras existe o Amorex” me disse o deputado federal Givaldo Carimbão (PROS/AL) em seu gabinete em Brasília, orgulhoso das mudanças de rumo que está ajudando a trilhar na política de drogas no país.
Relator do substitutivo ao Projeto de Lei de Osmar Terra (PMDB/RS)7663/2010, que tramita no Senado, sobre o Sistema Nacional de Política sobre Drogas, o ex-gráfico Carimbão (por isso o apelido) propõe não só o tratamento nas comunidades terapêuticas mas internações involuntárias e penas mais duras para traficantes, como quer ver implantado no país o sistema que apadrinhou em Alagoas: a Secretaria de Promoção da Paz (Sepaz) – órgão especial do governo do Estado que atua através de uma Superintendência de Políticas Sobre Drogas com 40 comunidades terapêuticas e equipes chamadas de “anjos da paz”com a função de convencer dependentes químicos a se internar em uma das instituições. Carimbão, que diz ter ajudado a fundar 98% das comunidades no Estado, indicou diversos secretários da Sepaz, incluindo Jardel Aderico, que pediu exoneração do cargo em outubro após diversos motins, fugas de menores e uma série de denúncias de agressões na Unidade de Internação Masculina, destinada a assistir os menores infratores no estado – também competência da secretaria.
“O problema do crack é um certo desvio de conduta do usuário. É um equívoco colocar a questão das drogas na saúde pública. É uma questão muito mais de violência do que de saúde”, teoriza o deputado e ex-gráfico. Mais do que tratar, precisamos acolher os dependentes, afastar eles do seu habitat. Na comunidade acolhedora o médico fica de fora. Em Alagoas o governador me deu a chance de quebrar esse tabu. Temos 42 comunidades e dois Caps AD” explicou, para disparar em seguida:“Caps AD é uma praga e consultório de rua é um fracasso mental. Redução de danos é um modelo europeu. Eu viajei o mundo estudando isso e para cá não funciona” diz, taxativo.
O deputado contou também que deu terras para uma comunidade e emprestou uma fazenda para outra em Craíbas, também em Alagoas, onde construiu a Cidade de Maria, uma espécie de santuário católico aberto a visitação pública. Em Alagoas, o presidente de uma comunidade disse que Carimbão, em pessoa, roda as instituições nos finais de semana para garantir que está tudo “nos eixos”. “É minha vocação e meu compromisso político” afirma o deputado.
Há cerca de dois anos, porém, a Sepaz distanciou-se um pouco do discurso de Carimbão e colocou o psicólogo Luan Gomes como superintendente. Segundo Gomes, montou-se então uma equipe multidisciplinar que foi a cada uma das 40 comunidades e implantou um projeto terapêutico em que todas são obrigadas pelo governo do Estado a ter ao menos um psicólogo e um assistente social e a se integrar à rede pública de saúde. Segundo ele, hoje os dependentes químicos passam por uma triagem em um centro de atendimento feita por médicos, psicólogos e assistentes sociais e são encaminhados para comunidades que “combinem com seu perfil, dependendo da religião e orientação sexual, por exemplo”. Em 2012, segundo a assessoria de imprensa da Secretaria, foram realizados mais de 5 mil atendimentos. Além da procura voluntária, conselhos tutelares, albergues e a policia comunitária também encaminham pedidos de “convencimento” aos Anjos da Paz. Luan diz que a Sepaz conta ainda com um callcenter, uma frota de carros para levar os dependentes às comunidades, leitos para desintoxicação em um hospital geral e um setor para colocação no mercado de trabalho depois do acolhimento. “Nosso modelo tem sido referência no país, muitos estados já vieram conhecer a Sepaz para implantar algo parecido”, diz, embora reconheça não saber ainda quantas dessas pessoas voltaram ao uso do crack. “A secretaria ainda é muito nova, tem apenas 4 anos, ainda não conseguimos fazer essa pesquisa”, alega.
Mesmo com as mudanças para incluir os especialistas no projeto terapêutico, a comunidade terapêutica que visitei em Alagoas era de orientação católica, com um grande espaço para cultos, além de abrigar uma capela e vários missionários residentes.

Violações de direitos humanos em 68 comunidades terapêuticas visitadas

Em 2011, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) fez uma inspeção em 68 comunidades terapêuticas em todos os estados do país e constatou violações de direitos humanos em todas elas. Na época, o programa “Crack É Possível Vencer” estava em fase de lançamento e já se falava no financiamento às instituições, como explica o coordenador da Comissão de Direitos Humanos do CFP,  Pedro Paulo Bicalho: “Nós resolvemos fazer esta inspeção por causa do grande volume de denúncias de maus tratos e violações de direitos que estavam chegando a nós através da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (Renila). Nosso primeiro movimento foi o de fazer contato com a Senad para pedir informações sobre essas instituições e percebemos que eles não tinham essas informações, apesar da proposta de financiamento público. Por isso resolvemos conhecer essas instituições e dar visibilidade a essas denúncias”.
Ele conta que através de uma rede formada pelos conselhos regionais em parceria com o Ministério Público, defensorias e parceiros locais, equipes fizeram uma varredura pelas comunidades. “Infelizmente, o que era uma pergunta acabou se consolidando como resposta positiva em todas as instituições. Em algumas, as violações eram mais evidentes como punições e castigos. Em outras, mais sutis, como o trabalho forçado travestido de laborterapia ou o desrespeito às opções sexuais e identidade de gênero, que se dão através de dogmas religiosos que, na nossa opinião, não são compatíveis com um Estado laico de Direito”. Pedro explica que o relatório foi encaminhado a todos os ministérios, audiências públicas foram criadas mas que, ainda assim, o financiamento foi consolidado. Em um cruzamento entre a primeira lista das instituições aprovadas pela Senad e o relatório do CFP sobre as irregularidades, é possível encontrar três nomes de entidades em comum. As condições para o edital podem ser lidas aqui.
“O plano nacional envolve três Ministérios: o da Educação, o da Saúde e o da Justiça. Nenhum conselho, de nenhum deles foi consultado ou ouvido neste processo. Não houve discussão com a sociedade civil e portanto não houve nenhuma participação social na construção dessa política. Nós não sabemos nem quais foram os critérios reais para a escolha dessas entidades e quem vai fiscalizar e monitorar”, detalha Pedro, acrescentando que, na sua opinião, foi uma opção política: “Nossa impressão é que existe uma pressão política das bancadas religiosas e que as próprias parcerias que foram firmadas para essa base do governo não permitem contrariar essas forças. Essa discussão aponta para uma dificuldade de produzir políticas publicas laicas onde temas como homossexualidade e aborto não encontram espaço de discussão. O que importa é tirar essas pessoas da rua, cumprir uma política higienista muito oportuna em um momento em que o país precisa se preparar para os grandes eventos. Essas pessoas na rua significam uma não assepsia” diz. O psiquiatra Dartiu Xavier, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes), concorda com o raciocínio de Pedro: “Nas cracolândias já houve internações compulsórias através de medidas judiciais, e essa é uma lógica muito perversa porque se atribui a miséria social como consequência do uso da droga e isso não é verdade. Ninguém chegou ali por ter usado droga. Chegaram por um tremendo descaso do estado. São pessoas abandonadas, que não têm acesso à educação, saúde e moradia e a situação de miséria favorece que ele se torne um dependente. Estes modelos ultrapassados de internação tiram das vistas mas não resolvem o problema”.

Arroz com chuchu: as vítimas do não-tratamento

Lúcia* e Mauro* viveram essas violações em suas famílias. O irmão de Lúcia é dependente químico e epilético. Como passava longos períodos desaparecido e chegou a voltar para casa queimado e machucado por causa de brigas com moradores de rua com a polícia, ela e a mãe resolveram pedir ajuda a um vereador da cidade pequena em Santa Catarina para conseguir uma vaga em uma comunidade terapêutica. “Era o único tratamento que nós conhecíamos e estávamos com medo de ele acabar morrendo na rua” lembra Lúcia. “Nós conseguimos a internação em uma comunidade religiosa mas lá eles não permitiam o uso de medicamentos. Explicamos que ele precisava tomar os remédios para evitar as convulsões mas não adiantou. Como não podia receber visitas durante três meses, ficamos sem notícias. Até que um mês depois da internação, nos ligaram do hospital dizendo que meu irmão estava em coma na UTI porque teve uma crise e demoraram para socorrer. Ele quase morreu” lembra.
Como a cidade não possui CAPS AD, a mãe de Lúcia mandou o filho para outra comunidade terapêutica e insistiu para que deixassem que ele tomasse ao menos um remédio para controlar a epilepsia. “A pastora disse que liberaria apenas um dos muitos que ele toma. Não sabemos o que fazer. Não existe tratamento sem ser desse tipo na cidade e se ele for para a rua de novo pode acabar morrendo” lamenta Lúcia.
Mauro conta que o namorado é dependente químico e usuário de crack. Há alguns anos, um pastor conhecido da família ofereceu uma vaga na comunidade terapêutica de sua igreja. “Eles passavam o dia desmatando o sítio do pastor, construindo, fazendo horta. Trabalhavam de sol a sol, eram obrigados a frequentar os cultos e só comiam arroz com chuchu. Meu namorado, que é dependente químico mas não é burro, começou a dizer para os outros que aquilo era trabalho escravo, que não existia tratamento, até que o pastor deu um dinheiro para ele e mandou embora, porque estava causando problemas. Ele saiu da comunidade e entrou em uma boca que tinha ao lado. Gastou todo o dinheiro em pedras de crack” conta.
Nem Lúcia nem Mauro sabiam da existência dos CAPS AD. “Os CAPS estão relegados a segundo plano” diz Pedro Paulo Bicalho. “Nós temos no país, desde 2001, uma clara política pública de cuidados em saúde mental mas que ainda não está consolidada. É preciso muito investimento, tem estado que não tem um CAPS AD. Mas ao invés de priorizar o crescimento desta rede, é criado um financiamento de atalho. Isso para nós é muito frustrante porque inclusive coloca em risco uma luta história antimanicomial que é reafirmada a cada conferência nacional”.

Um CAPS para 1 milhão de pessoas

Apesar da pouca divulgação, O CAPS AD Capela do Socorro, na região sul de São Paulo, deveria ser referência para 200 mil habitantes da região, mas por falta de outros centros, acaba servindo as regiões vizinhas e hoje é referência para quase um milhão. Cem pessoas são atendidas ali por dia e a cada mês são 170 novos acolhimentos. Roberta Maia Sessa Frederico, psicóloga que atua como técnica do Álcool e Drogas, explica que seguindo a determinação de “portas abertas” o centro atende qualquer pessoa, mesmo sem documentos, das sete da manhã as sete da noite, de segunda a sexta-feira e que há planos para que o atendimento se torne 24 horas.
“Os CAPS foram pensados para um cuidado intenso porém em um modelo de inserção familiar, cultural, esportiva, sem tirar a pessoa de seu ambiente. Nós inclusive respeitamos as escolhas dos usuários. Muitos chegam aqui dizendo que querem tratamento mas não querem parar de usar. Nós vamos trabalhando a redução de danos, oferecendo insumos como preservativos, piteiras, protetores labiais para evitar várias doenças transmissíveis com o compartilhamento de cachimbos por exemplo, as queimaduras da boca, doenças sexualmente transmissíveis, grupos de terapia. Quando a pessoa chega aqui, nós fazemos uma entrevista estruturada, inclusive para identificar se é realmente um dependente químico ou um usuário. Se for usuário, encaminhamos para o tratamento em uma unidade básica de saúde e, se for dependente, montamos um tratamento individual que inclui psicólogo, assistente social, psiquiatra, médico para cuidar de outros aspectos de saúde. Temos grupos de prevenção de recaída, atividades físicas, treinamento de habilidades, oficinas abertas, a gente monta esse plano junto com o paciente, conforme suas possibilidades”.
Roberta explica que como a dependência química é uma doença crônica, incurável mas tratável, é preciso fazer com que o paciente se aproprie desse conceito para se cuidar da maneira que achar melhor, já que será para a vida toda. “Nós trabalhamos com a família também, isso é muito importante. Porque muitas vezes as famílias chegam aqui pedindo a internação porque não conhecem a doença, não sabem o que fazer. Nós temos também a possibilidade de encaminhar para uma residência terapêutica, que não é uma comunidade, é uma casa onde moram, durante um período de até seis meses, alguns dependentes, um psicólogo, uma enfermeira, e se revezam 7 profissionais para reinserção social. Porque se a pessoa está em alta vulnerabilidade social, se está em situação de rua, se encontra o traficante a noite, fica difícil realmente parar de usar. Mas não é uma internação, ele continua a se tratar no CAPS e tem autonomia para sair a hora que quiser, é uma casa” explica.
O CAPS conta também com um tratamento específico de desintoxicação assistida, principalmente para dependentes de álcool. “O alcoolista tem um processo de desintoxicação bem violento, que pode levar a morte. Então oferecemos um programa de desintoxicação assistida por 15 dias. É importante dizer que o grande volume de atendimentos aqui são de dependentes de álcool e que este sim é um grave problema de saúde pública. O tratamento ao usuário de crack é importante, mas ainda é uma população menor. É mais visível, chocante, deixa a cidade mais feia, mas os impactos do álcool não podem ser esquecidos. O alcoolista pode inclusive se tornar tão ou mais violento que o usuário de crack e essa violência muitas vezes é mais intensa e permanente, por ser socialmente aceitável”.

E existe “epidemia de crack”?

Para o médico Francisco Inácio Bastos, que atua na área de Epidemiologia do abuso de drogas e da Aids da Fiocruz e coordenou a pesquisa “Perfil dos usuários de crack e/ou similares no Brasil” realizada em 2011 antes do lançamento do programa federal, não é certo dizer que vivemos no país uma “epidemia de crack” como tem se colocado para justificar medidas extremas e urgentes, como as internações compulsórias e involuntárias, por exemplo (internação compulsória é aquela determinada pela justiça e involuntária pode ser pedida pela família apenas com determinação médica).
“O crack é uma droga muito estigmatizada e marginalizada, ao contrário do álcool. É costume usar o termo ‘epidemia’ para caracterizar um comportamento em massa, uma difusão social. Mas as séries temporais que a gente tem no Brasil sobre o uso de drogas estão na sexta edição e estavam sendo feitas com estudantes, nos domicílios. Nós sabemos que a maioria dos usuários de crack não está estudando e muitos estão em situação de rua. Então não temos essa comprovação efetiva do aumento de uso do crack. É claro que houve um aumento do uso entre pessoas não acessadas pelas pesquisas mas é inapropriado usar o termo ‘epidemia’ nestes casos”, afirma o pesquisador da Fiocruz.
Para Dartiu, a iniciativa do programa federal é “louvável” porque o crack é realmente um desafio, mas também ele concorda que se fala em uma epidemia que nunca se comprovou. “O álcool, por exemplo, ainda é um problema muito mais grave, mas não é tão ‘feio’ quanto o crack. O problema é que em nome disso, embora nós tenhamos um Ministério da Saúde com uma política de drogas bem avançada, vemos agora um discurso muito reacionário nascendo. Eu já trabalhei em comunidades terapêuticas muito boas mas elas são a exceção da exceção. A maioria delas tem um aparelho insuficiente, não têm condições básicas para o tratamento da dependência química e frequentemente aceita pessoas que nem dependentes são, mas apenas usuários. Fora que muitas acabam misturando preceitos religiosos com tratamento, com uma visão que coloca a dependência como pecado e isso é no mínimo eticamente questionável”. E reflete: “Privilegiar esse tipo de tratamento vai contra todo o bom senso que a gente possa ter. Vai na contramão da política antimanicomial e vários estudos que foram feitos fora do país que mostram que a eficacia dele é muito baixa. Privilegiar as comunidades terapêuticas e desviar uma forma de financiamento independente para isso me faz pensar que existem interesses políticos e midiáticos. Mas que não estão a serviço da saúde pública de forma nenhuma”

domingo, 4 de agosto de 2013

‘Em vez da sexualidade, a Igreja deveria priorizar os problemas de justiça social’

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8688%3Amanchete030813&catid=34%3Amanchete&

 ‘Em vez da sexualidade, a Igreja deveria priorizar os problemas de justiça social’


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ESCRITO POR GABRIEL BRITO, DA REDAÇÃO   
SÁBADO, 03 DE AGOSTO DE 2013

Após a renúncia do alemão Joseph Ratzinger (Bento 16) ao papado, a Igreja Católica escolheu pela primeira vez um latino-americano como sumo pontífice. Junto do cardeal Jorge Bergoglio, agora papa Francisco, veio um novo discurso, de retomada das ligações entre a instituição e os pobres, animando inclusive correntes progressistas perseguidas e excomungadas por professarem a Teologia da Libertação, responsável exatamente pela construção de uma visão e compreensão de Deus a partir dos menos favorecidos.

De quebra, Francisco passou pelo Brasil, por conta da Jornada Mundial da Juventude, já marcada desde antes de sua escolha, suscitando em nosso país debates sobre as questões mais urgentes na relação Igreja-fiéis. Em entrevista ao Correio da Cidadania, Regina Soares Jurkewicz, da organização feminista Católicas pelo Direito de Decidir, analisa as nuances do novo papado e as ideias até aqui transmitidas em seus primeiros dias de líder da Igreja.

“Em princípio, ainda percebemos um conservadorismo, que se fortalece com a presença de um papa carismático. Porque ele é diferente do Ratzinger, que propunha uma visão da Igreja que só condena. Esse papa não chega a tanto, mas a base doutrinal parece a mesma”, afirmou.

Apesar do discurso social mais antenado à realidade, Regina tem ressalvas a respeito de uma possível radicalização, que confrontasse inclusive os dogmas do sistema econômico vigente. Além disso, não mostra satisfação a respeito de suas posições sobre questões da esfera moral e também do papel das mulheres dentro da Igreja “Infelizmente, ele não fez nenhum aceno positivo sobre o assunto. Até disse que o sacerdócio feminino é um assunto definido, fechado”.
“Precisamos de uma Igreja que olhe para a realidade, que ouça o que seus fiéis vivem e falam”, resumiu, citando pesquisa realizada pelo seu grupo, com o Ibope, na qual se atesta o amplo apoio da juventude católica em temas como o direito ao aborto, divórcio, casamento entre pessoas do mesmo sexo, liberação sexual etc.
A entrevista completa com Regina Soares Jurkewicz pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: Em linhas gerais, qual o balanço que vocês, da ala progressista da Igreja, fazem da eleição e da visita do papa Bergoglio ao Brasil?

Regina Soares Jurkewicz: A vinda dele ao Brasil, sobretudo na Jornada Mundial Juventude do Rio de Janeiro, deixa a imagem de um papa como líder mais simpático e carismático, capaz de falar que a igreja tem de se abrir, ir para a rua, falar para os padres e religiosos estarem no meio do povo... Ele falou para a juventude de modo preocupado com os problemas econômicos, sociais, o desemprego. Estimulou a juventude a fazer protestos, lutar por uma vida diferente. Por exemplo, quando ele falou com os argentinos, disse “hagan lío”, isto é, façam confusão, mexam-se, não se acomodem.

O papa anterior tinha um jeito muito mais sisudo e fechado, pedia uma igreja mais espiritualista, criticando só o materialismo, o relativismo cultural... Agora vemos um papa que tem outro discurso e aparenta outra visão de igreja, que critica o clericalismo, se diz favorável à laicidade do Estado etc.

Portanto, tem algumas coisas que reconhecemos como positivas e podem trazer um novo ar. Bergoglio já fez algumas declarações no sentido de querer eliminar realmente a corrupção e também de combater a pedofilia na Igreja. Há várias áreas problemáticas dentro da igreja e o papa Francisco vem falando um pouco sobre elas.

No entanto, não podemos falar muito mais com cerca de cem dias de papado, ainda uma fase bastante inicial. Mas pelo menos no seu discurso a gente vê algumas coisas positivas. Mais positivas, inclusive, do que vimos enquanto ele foi o Cardeal Bergoglio, quando ouvíamos outras coisas não tão agradáveis.

Correio da Cidadania: O que teria a dizer do envolvimento e contribuição dos distintos governos para a realização de todos os eventos que marcaram sua passagem por aqui, especialmente no que se refere aos gastos financeiros?

Regina Soares Jurkewicz: Somos absolutamente contra. Se vivemos num governo laico, ainda que o papa também seja um chefe de Estado, porque o Vaticano tem status de nação, não se justifica um gasto tão grande num país onde há pluralidade religiosa. Não é um país totalmente católico, aliás, cada vez menos. Uma pesquisa recente do Datafolha mostra que 57% da população se diz católica, uma redução muito grande, visto que há 20 anos era 75%. São 20 unidades percentuais abaixo.

O que percebemos? Os protestos e as pessoas que participam dele estão corretos, têm toda a razão de cobrar do governo que não trate o dinheiro público dessa maneira, razão pela qual somos contrárias ao gasto realizado.

Outra coisa grave é a concordata feita entre a Igreja Católica e o governo brasileiro, já há algum tempo, muito em silêncio, pois sequer a imprensa soube ou repercutiu (o acordo de Brasil-Vaticano de 2009 estabelece o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil, concedendo isenções tributárias, reconhecimento às suas instituições de ensino, cooperação na preservação de seus bens culturais, entre outros benefícios).

Há um tratamento muito equivocado da laicidade do Estado brasileiro e acredito que a Igreja abusa disso. É simpático que o papa seja um homem que aponte para a simplicidade, que não queira nada ostensivo, tampouco o culto à personalidade. Isso tudo é muito apreciado, mas ainda insuficiente.

O governo não deveria de maneira nenhuma gastar o que gastou no Rio de Janeiro. Foi um abuso. Preparou toda uma área, particular como se sabe, e não conseguiu realizar os eventos. Foi muito desagradável, além de economicamente equivocado e injusto.

Correio da Cidadania: Como avalia a estratégia do papa Bergoglio, e talvez da própria Igreja (que pela primeira vez elegeu um latino-americano como sumo pontífice), de se apresentar como um papa dos pobres? Esperam o fim da repressão à Teologia da Libertação?

Regina Soares Jurkewicz: O papa dá sinais nesse sentido. Embora o discurso seja de sensibilidade aos pobres, ainda não é um discurso, ou não apareceu como tal, que vá claramente contra as estruturas econômicas. É mais um discurso de acolhimento aos pobres, mas não uma crítica elaborada e sistemática, como aquela feita pela Teologia da Libertação. A Teologia da Libertação tinha um caminho e uma compreensão de Deus a partir dos pobres da América Latina. Vi alguns teólogos dessa corrente mostrarem esperança. Não sei. O tempo dirá. É a hora de as coisas acontecerem ou não acontecerem.

Mas em princípio ainda percebemos um conservadorismo que se fortalece com a presença de um papa carismático. Porque ele é diferente do Ratzinger, que propunha outra coisa, uma visão da igreja que só condena. Esse papa não chega a tanto, mas a base doutrinal parece a mesma ainda, isto é, conservadora. Bergoglio não mostrou outra base de entendimento e compreensão, mas trouxe um ambiente de mais alegria, as pessoas estão contentes com ele.

No entanto, é cedo pra fazer qualquer afirmação no sentido de que, de fato, teremos uma Igreja que quer se transformar, olhando novamente para a Teologia da Libertação. E, muito menos ainda, o papa sinaliza olhar para um reconhecimento da teologia feminista.

Correio da Cidadania: Desse modo, acredita ser difícil que seus discursos possam incluir críticas ao próprio modo de vida e produção capitalistas, uma vez que isso também esbarraria em questões incômodas à própria igreja, a exemplo das obscuridades e irregularidades relativas às operações do banco do Vaticano?

Regina Soares Jurkewicz: Acho que se ele quiser fazer isso, vai enfrentar uma briga. Ele falou várias vezes “rezem por mim”. É a frase mais repetida pelo papa Francisco.

De fato, mesmo não falando das questões da moral sexual, que vejo como mais difíceis ainda de abordar, a transformação da cúria romana e a aceitação da Teologia da Libertação são coisas que não podemos dizer que não acontecerão. Mas acho precoce falar que seu discurso a favor dos pobres signifique uma sintonia e apreciação positiva de Roma frente à Teologia da Libertação.

Não sei se a médio ou largo prazo isso pode ocorrer. Tomara que papas e igrejas alcancem práticas diferentes. Há grupos de cristãos que resistem bravamente dentro da Igreja, baseados no pensamento teológico da libertação. Mas são uma ala, que precisa resistir. Não dá pra dizer como será no futuro.

Por enquanto, pelas mensagens transmitidas, não podemos afirmar nada nesse sentido.

Correio da Cidadania: O que pensa a respeito das diversas acusações a respeito da relação de Bergoglio com a ditadura argentina?

Regina Soares Jurkewicz: É muito complicado. Não acompanhei tanto o assunto anteriormente. Mas conheço pessoas na Argentina que afirmam que de fato houve tal relação. Afirmam que ele não foi um bispo que denunciou, e sim um bispo que deixou de acolher os perseguidos, não esteve a favor dos pobres nesse sentido. Assim como já ouvi versões que negam qualquer vínculo. Não sei como apurar, não tenho elementos que me permitam fazer afirmações definitivas, apenas tenho ouvido falar.

Mas é muito grave. Se de fato houve vínculo com a ditadura, inclusive em suas funções de bispo, é pior ainda. É difícil uma pessoa mudar. Temos o exemplo de Oscar Romero, um bispo de El Salvador que passou por uma conversão, um processo de transformação muito grande. Mas não é comum de acontecer. Se há esse envolvimento com a ditadura argentina, de fato é muito grave.

Correio da Cidadania: Partindo para o campo dos costumes, onde em nosso país a Igreja tem enorme influência, inclusive política e jurídica, como avalia seus discursos e posições? O que podemos esperar desse papado a respeito do combate da Igreja a direitos civis fundamentais (sexualidade, status social e eclesial das mulheres, aborto, divórcio, direitos LGBT etc.)?

Regina Soares Jurkewicz: No aspecto da doutrina da Igreja no campo da moral sexual, a mudança não ocorre no discurso, muito menos na prática. Ele não destacou os aspectos mais polêmicos, que são as questões da homossexualidade, do aborto, do uso do preservativo. Sequer falou disso em sua passagem. Só no final, numa entrevista aos jornalistas, já indo embora.

E aí pensamos que as coisas não mudam em relação ao entendimento da união estável entre pessoas do mesmo do sexo, em relação ao uso dos preservativos... De modo que continua existindo uma dissonância muito grande entre o que a igreja hierárquica define e o que os fiéis católicos vivem, sobretudo os jovens.

Recentemente, fizemos uma pesquisa, com o Ibope, sobre a juventude católica, em nível nacional, e ela mostra isso: 82% são favoráveis ao uso pílula do dia seguinte; 56% por cento são favoráveis à união estável entre pessoas do mesmo sexo; 90% apoiam a punição de religiosos envolvidos em crimes de pedofilia e corrupção; 72% aprovam o fim do celibato para os padres; 62% a ordenação de mulheres...
Correio da Cidadania: Mais especificamente a respeito das mulheres, é possível esperar um papado que traga avanços em relação à sua atual interdição funcional e sacramental pela hierarquia masculina da Igreja?

Regina Soares Jurkewicz: Infelizmente, ele não fez nenhum aceno positivo sobre o assunto. Até disse que se trata de um assunto definido, fechado. Inclusive em relação ao sacerdócio feminino. E é um problema sério, porque o espaço do sacerdócio é o símbolo do saber e do poder, é a hierarquia. É exercido por aquele que estudou teologia e celebra na Igreja. É um espaço do sagrado que também significa espaço de poder dentro da Igreja. E tal espaço não se abre para as mulheres. Ou seja, não há uma noção de direito.

Quando eles falam, em relação aos gays, “vamos acolher, integrar os gays, não marginalizá-los”, claro que não diremos que é uma postura negativa. Porém, é diferente de dizer “tanto a hetero como a homossexualidade são abençoadas por Deus e dignas do ser humano”. Não é uma questão de misericórdia. Deveria, sim, ser tratada como questão de direito, em relação à democracia interna da igreja. É uma igreja extremamente masculina. Na eleição do papa, os fiéis não têm nenhum acesso, muito menos as mulheres. Quem participa dos concílios e define as diretrizes são só os homens.

Portanto, é uma Igreja que continua masculina, agora com uma cara simpática, a do papa Francisco, mas que ainda não deu nenhum aceno de ser mais democrática, de defender a igualdade de direitos entre as pessoas. E pelo que conhecemos não há razões teológicas que impeçam isso. Tanto que há outras igrejas cristãs onde as mulheres celebram, são pastoras, bispas etc. Nesse sentido, infelizmente, a Igreja ainda marca um atraso muito grande em relação aos nossos tempos.

Correio da Cidadania: Quais deveriam ser as principais prioridades da Igreja em suas ações? Que valores, ideias e ações ela deveria incentivar em seus seguidores e transmitir à sociedade?

Regina Soares Jurkewicz: A primeira coisa que a Igreja tem de fazer, antes de tudo, é ouvir. Não é nem o caso de fazer algo, mas sim ouvir o que seus fiéis vivem e falam. Eliminar a dissonância entre o discurso teológico e a vida dos fiéis. E mesmo na prática pastoral.

Por exemplo, que avance na questão do entendimento de não condenação da sexualidade. Que a Igreja deixe de ficar pregando valores como a virgindade, relacionando-o à santidade. São valores que não correspondem aos tempos atuais e ao que dizem as pessoas. Que não defenda o casamento para sempre, ou seja, sob qualquer ônus. Muitas vezes vemos situações de mulheres que sofrem violências no casamento e a igreja fica defendendo que ela continue, seja tolerante, no caso, que continue apanhando.

Precisamos de uma Igreja que olhe para a realidade. Vemos no Brasil um índice de violência muito alto contra as mulheres. A Igreja tem de ter um olhar e respostas para essas questões, estimulando as pessoas a viverem nela. A Igreja tem dado respostas a perguntas que não são feitas. Trabalha uma ética fraca, que não toca a vida das pessoas.

Por outro lado, em vez de fazer tantos documentos focados nas questões ligadas à sexualidade, ela precisa se voltar aos problemas de justiça social. Priorizar as questões planetárias, isto é, falar do mundo ameaçado, do meio ambiente totalmente ameaçado. Não dá pra ter uma Igreja que não enxerga os problemas mais graves relacionados às vivências concretas das pessoas.
Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

sábado, 3 de agosto de 2013

Vaticano reafirma normas tradicionais sobre aborto e homossexualidade

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22423&utm_source=emailmanager&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_Carta_Maior__27072013


Vaticano reafirma normas tradicionais sobre aborto e homossexualidade

Estado do Vaticano reafirma as posições tradicionais da Igreja Católica Romana sobre a homossexualidade, o aborto e o casamento, entre outros temas considerados éticos, através de manual distribuído, no Rio de Janeiro, aos 350 mil jovens que participam da Jornada Mundial da Juventude. Por Dermi Azevedo

Em um manual distribuído, no Rio de Janeiro, aos 350 mil jovens que participam da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o Estado do Vaticano reafirma as posições tradicionais da Igreja Católica Romana sobre a homossexualidade, o aborto e o casamento, entre outros temas considerados éticos. 

Escrito em vários idiomas, o manual indica que o papa não pretende reformular as normas vigentes na Igreja que proíbem o casamento entre pessoas do mesmo sexo e que também condenam qualquer forma de aborto e a prática de relações homossexuais. Esses itens não estão incluídos na agenda de reforma que Francisco planeja introduzir no Catolicismo Romano durante o seu pontificado.

Distribuído também aos acompanhantes do voo da Alitalia que trouxe o papa ao Brasil, o documento afirma que "o desenvolvimento da criança depende de uma estrutura familiar formada por pai e mãe, e que os católicos devem ser realistas", ou seja, "nascemos meninos ou meninas". 

Diz também o manual que "ter um filho não é um direito", e que "o filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais; embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reedificação dos lobbies homossexuais não e legítima; é preciso um homem e uma mulher para gerar um filho (...) querer ignorar essa exigência biológica é um forte indício de que a reivindicação não é justa”. 

Ao condenar as pesquisas sobre células-tronco e embriões, o documento aprovado pelo papa repete a teoria da constituição do ser humano desde o primeiro momento da fecundação do óvulo. No Brasil, essas pesquisas foram aprovadas em 2008 pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O texto diz também que a condenação à homossexualidade não significa que a Igreja aprove a homofobia. Em um livro recentemente lançado na Argentina ("Papa Francisco, em suas próprias palavras"), o papa adota uma postura não condenatória dos homens e das mulheres que adotam essas práticas: "Se Deus, na criação, correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter?".

Além desses temas polêmicos, outras questões desafiam a agenda de reformas de Francisco: são elas as questões da infalibilidade do Papa, a ordenação sacerdotal de mulheres, o fim do celibato obrigatório para o clero, a liberação do controle da natalidade, o casamento de pessoas divorciadas e a situação de milhares de padres casados.


Fotos: EBC