domingo, 9 de agosto de 2020

Morre Dom Pedro Casaldáliga, bispo que dedicou a vida em defesa do povo brasileiro

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Morre Dom Pedro Casaldáliga, bispo que dedicou a vida em defesa do povo brasileiro

Velório ocorre neste sábado, 8, em Batatais

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
 


Morreu às 09h40 deste sábado, 08, Dom Pedro Casaldáliga Plá, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT) e Missionário Claretiano. Dom Pedro estava internado na UTI da Santa Casa de Batatais, interior de São Paulo. A Prelazia de São Félix do Araguaia, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria e a Ordem de Santo Agostinho confirmaram a morte do religioso por embolia pulmonar. 

O velório ocorrerá a partir das 15h deste sábado na capela do Clareitiano, na cidade de Batatais - SP. Em Mato Grosso, o corpo deverá chegar no dia 10 de agosto e será velado Santuário dos Mártires, na cidade de Ribeirão Cascalheira. Depois, o corpo de Dom Pedro, será encaminhado para a cidade de São Félix do Aráguaia onde será velado no Centro Comunitário Tia Irene e depois sepultado. 

Histórico

O religioso foi transferido para a unidade hospitalar de Batatais, a 354 km da capital, na noite da última terça-feira (4), após apresentar problemas respiratórios e permanecer uma semana internado no Hospital de São Félix do Araguaia (MT). Aos 92 anos de idade, Casaldáliga sofria do Mal de Parkinson. Ainda jovem, o bispo foi acometido por uma forte pneumonia que deixou uma sequela permanente no órgão do sistema respiratório, o que torna o quadro ainda mais delicado neste momento.

Repercussão 

Ao longo do dia, diversas lideranças e personalidades lamentaram a morte de Dom Pedro Casaldáliga nas redes sociais. Confira: 

 

 

 

 

Trajetória

Nascido em uma aldeia há quilômetros de Barcelona, na Espanha, em 1928, Dom Pedro Casaldáliga Plá é de família camponesa. Desembarcou no Brasil em 1968, em plena ditadura militar, e foi consagrado bispo em 1971, quando lançou a Carta Pastoral por Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social. O texto ficou conhecido nacional e internacionalmente e marcou o perfil do missionário como porta-voz de índios e agricultores.

O bispo também foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que até hoje atua na defesa de indígenas, comunidades tradicionais e trabalhadores do campo.

Além de sua atuação junto aos pobres e em defesa da democracia, Casaldáliga também se destaca por suas poesias que abordam a urgência da reforma agrária e da luta contra o agronegócio. Confira:

"Por onde passei, plantei a cerca farpada, plantei a queimada.

Por onde passei, plantei a morte matada. Por onde passei, matei a tribo calada,

A roça suada, a terra esperada... Por onde passei, tendo tudo em lei, eu plantei o nada."


Confissão do latinfúndio

Edição: Marina Selerges

Igreja no mundo se despede de dom Pedro Casaldáliga, falecido hoje, aos 92 anos

 https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-08/falecimento-dom-pedro-casaldaliga-92-anos-batatais-sao-paulo.html

Igreja no mundo se despede de dom Pedro Casaldáliga, falecido hoje, aos 92 anos



O bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia faleceu na manhã deste sábado (8), em Batatais, São Paulo. O missionário espanhol estava internado desde terça-feira (4) no hospital da Santa Casa de Misericórdia com graves complicações pulmonares. O arcebispo de Ribeirão Preto, dom Moacir Silva, que fez uma rápida, mas significativa visita na quinta-feira (6), disse: “dom Pedro é um ícone no Brasil pela sua dedicação plena e total ao povo de Deus, de modo especial, aos mais pobres e necessitados. Ele sofreu diversos reveses na vida por causa dessa sua opção, mas sempre foi fiel a Cristo, à Igreja e à missão”.

Andressa Collet – Vatican News

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A Prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria – os Claretianos e a Ordem de Santo Agostinho – os Agostinianos comunicam o falecimento dom Pedro Casaldáliga (1928-2020), bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia. O missionário claretiano estava com 92 anos, fragilizado e internado há 5 dias por causa de uma insuficiência respiratória no hospital da Santa Casa de Misericórdia na cidade de Batatais, em São Paulo, e veio a falecer às 9h40 deste sábado (8). O estado de saúde, com complicações pulmonares, estava sendo acompanhado pela Rádio Claretiana FM que, inclusive, divulgou um boletim médico em 5 de agosto: segundo o médico Antônio Marcos, dom Pedro testou negativo para a Covid-19 em 4 exames.

Dedicação plena ao povo de Deus

Segundo a reportagem da emissora da última quinta-feira (6), o arcebispo de Ribeirão Preto, dom Moacir Silva, visitou dom Pedro, rezou e abençoou o missionário espanhol, natural de Balsareny, na Catalunha. Um encontro rápido, mas muito significativo e expressivo: “dom Pedro é um ícone no Brasil pela sua dedicação plena e total ao povo de Deus, de modo especial, aos mais pobres e necessitados. Ele sofreu diversos revezes na vida por causa dessa sua opção, mas sempre foi fiel a Cristo, fiel à Igreja, fiel à missão”.

O próprio Papa Francisco na sua Exortação Apostólica pós-sinodal "Querida Amazonia", publicada em 12 de fevereiro de 2020, citou uma das suas poesias: “Carta de navegar (Por el Tocantins amazónico)” in El tiempo y la espera, Santander, 1986.

Povo no meio do povo

Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia desde 1971, Casaldáliga trabalhou sempre em favor dos peões, dos camponeses, dos sem-terra e dos povos indígenas. Em comunicado, as associações Araguaia com o Bispo Casaldàliga, da Catalunha, e a Associação ANSA, de São Félix do Araguaia, lamentaram o falecimento de Pedro Casaldáliga, a quem devem as atividades destes 40 anos de existência. Na nota, descreveram o bispo como "poeta, escritor e comunicador por vocação, autor ou co-autor de mais de 100 obras traduzidas para várias línguas e através das quais expressou os seus sentimentos e paixões mais íntimos".

Além disso, o comunicado descreveu a rotina de um missionário que "morava há mais de 50 anos em uma casa humilde, com as portas sempre abertas na pequena cidade de São Félix do Araguaia, perto de seus amigos e no meio de sua comunidade. Fez centenas de viagens de ônibus pelo Brasil e visitou frequentemente as comunidades da sua Prelazia a cavalo. Casaldáliga sempre foi 'povo no meio do povo' e sempre defendeu a necessidade de termos um compromisso pessoal e comunitário com os mais pobres".

A despedida do missionário em três cidades

Segundo a Prelazia, a despedida do espanhol será realizada em três momentos especiais. Em Batatais, o corpo de dom Pedro será velado neste sábado, a partir das 15h, na capela do Claretiano, que fica no Centro Universitário de Batatais, unidade educativa dirigida pelos Missionários Claretianos. A missa de exéquias será celebrada neste domingo (9), às 15h, no mesmo local e será aberta ao público em geral, além de ser transmitida ao vivo pelo link https://youtu.be/spto8rbKye0. O link estará aberto para que outros veículos de comunicação possam retransmitir.

A partir de segunda-feira (10), o corpo de dom Pedro será velado no Santuário dos Mártires, sem previsão de horário de chegada do corpo. Após o velório acontece na cidade de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, no Centro Comunitário Tia Irene. O sepultamento, sem previsão de data pois o corpo ainda deve passar por Ribeirão Cascalheira, será em São Félix do Araguaia. 

Morre Pedro Casaldáliga, a pedra no sapato do autoritarismo brasileiro

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COLUNA

LEONARDO SAKAMOTO

Morre Pedro Casaldáliga, a pedra no sapato do autoritarismo brasileiro... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/08/08/morre-pedro-casaldaliga-a-pedra-no-sapato-do-autoritarismo-brasileiro.htm?cmpid=copiaecola

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Pedro Calsadáliga, expoente da Teologia da Libertacão, é considerado um dos mais importantes defensores dos direitos humanos do país.
  • Foi um dos principais defensores dos povos indígenas e ribeirinhos e dos camponeses e trabalhadores rurais da Amazônia desde a ditadura militar.
  • Casaldáliga foi responsável por algumas das primeiras denúncias por trabalho escravo contemporâneo que ganharam o mundo no início da década de 1970.
  • Aos 84 anos, teve que deixar sua casa pelas ameaças de morte sofridas em decorrência do governo ter retirado invasores da terra indígena Marãiwatsédé

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e um dos maiores defensores dos direitos humanos do país, morreu aos 92 anos, às 9h40 deste sábado (8), em Batatais (SP), onde havia sido removido para tratamento médico devido a problemas respiratórios.

A informação foi comunicada pela Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos) e a Ordem de Santo Agostinho (Agostinianos). Ele havia testado negativo para covid-19.

Num ano em que o Brasil já ficou 100 mil vezes menor por conta de uma doença estúpida, a morte de Pedro consegue deixar um vazio profundo. Ele não era apenas um defensor da vida, mas a representação viva da resistência ao autoritarismo.

Nascido na Catalunha como Pere Casaldàliga, chegou ao Brasil em 1968. Desde então, subvertendo o Evangelho de Mateus, capítulo 16, versículo 18, Pedro não foi apenas a pedra em torno do qual edificou-se uma igreja na Amazônia, mas a pedra no caminho dos planos da ditadura e de seus sócios na iniciativa privada de passar por cima dos direitos e da vida de camponeses, ribeirinhos, indígenas, quilombolas.

Foi dele a primeira denúncia por trabalho escravo contemporâneo que ganhou o mundo no início da década de 1970. Essa mão de obra foi largamente utilizada em empreendimentos agropecuários na ocupação da região, com a cumplicidade dos militares.

Por conta de sua atuação contra a ditadura e a violência de grileiros, madeireiros, garimpeiros e grandes produtores rurais passou boa parte da vida marcado para morrer. Foi alvo de processos de expulsão do país. Poeta e escritor, tornou-se uma das principais vítimas da censura baixada pelos verde-oliva durante os anos de chumbo.

"Malditas sejam todas as cercas! Malditas todas as propriedades privadas que nos privam de viver e amar! Malditas sejam todas as leis amanhadas por umas poucas mãos para ampararem cercas e bois, fazerem a terra escrava e escravos os humanos", escreveu.

Para entender o que é a longevidade da luta de Pedro: aos 84 anos e doente, teve que deixar sua casa em São Félix do Araguaia por conta das ameaças surgidas em decorrência do governo brasileiro, finalmente, ter começado a retirar os invasores da terra indígena Marãiwatsédé, Nordeste de Mato Grosso - ação pelo qual sempre lutou.

Governos nunca foram competentes para garantir os direitos dos povos indígenas. Agora, temos um que é abertamente contra a demarcação de novos territórios. E Pedro, mesmo enfrentando um Parkinson avançado, manteve-se na trincheira contra a necropolítica.

"Ele conseguiu, pela denúncia intrépida e pelo testemunho arriscado, pela profecia inconveniente, pela poesia cortante, pela mística e pela espiritualidade que encarnava, contagiar a muitos e muitas. Contagiar a nós da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dos movimentos sociais, lutadores por um outro mundo justo, fraterno e possível", diz frei Xavier Plassat, da CPT. Pedro ajudou a criar ambas as instituições, vinculadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Foi um dos expoentes da Teologia da Libertação - linha progressista da igreja católica que acredita que a alma só será livre se o corpo também for, que tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante na periferia do mundo. Na prática, esses religiosos realizam a fé que muitos não querem ver materializada a partir do livro sagrado do cristianismo.

Para traduzir o que ela significa, nada como uma citação atribuída a outro gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que também lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista".

Pedro não ensinou que solidariedade significa uma forma distorcida de caridade, como uma política de distribuição de sobras - o que consola mais a alma dos ricos do que o corpo dos pobres. Mas que solidariedade passa por reconhecer no outro e na outra seus semelhantes e caminhar junto a eles. Ou seja, não é doar migalhas, mas compartilhar o pão, produzido com diálogo e respeito. "Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar", assumiu Pedro como lema de vida. Tão simples, tão poderoso.

Pedro nunca voltou para a Espanha. Até porque ele era brasileiro. Nasceu por engano em outro continente.

Pessoas assim não morrem, não podem morrer. Não tenho a mesma fé que Pedro, mas não tenho dúvida que ele atingiu a imortalidade.

Seu corpo será velado, a partir das 15 horas deste sábado, na capela do Claretiano, em Batatais. E, antes de ser velado e sepultado em São Félix do Araguaia, também passará pelo município de Ribeirão Cascalheira (MT).


Casaldáliga, o bispo dos esquecidos

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-08-08/pedro-casaldaliga-o-bispo-dos-esquecidos.html 

Pedro Casaldáliga, o bispo dos esquecidos

Considerado revolucionário pela hierarquia do Vaticano, Casaldáliga era um missionário que encarnava ao vivo o Evangelho, como um bispo a serviço daqueles esquecidos por todos os poderes



“Me chame apenas de Pedro”, disse Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, a um grupo de jornalistas espanhóis que fomos visitá-lo em sua casa despojada. O já mítico bispo sempre considerado revolucionário pela hierarquia do Vaticano, era designado por muitos nomes, como “bispo dos pobres”, “bispo do povo”, “pai dos últimos”. Mas ele gostava de ser chamado de “bispo dos esquecidos”.

E essa foi a obsessão de sua vida, na qual sempre se considerou um missionário que encarnava ao vivo o Evangelho, como um bispo a serviço daqueles que sempre permanecem na sarjeta, esquecidos por todos os poderes, vítimas do capitalismo selvagem.

Ameaçado de morte por fazendeiros que exploravam camponeses pobres, ele dormia com a porta de casa aberta. Seu quarto era minúsculo, com duas camas pequenas, uma livre para que, se alguém sem teto passasse e não tivesse onde dormir, pudesse entrar.

Era visto com receio por todos os poderes, até pela Igreja oficial. Era criticado pelo que chamavam de “excesso de zelo”. Certa vez, foi de ônibus a Brasília para uma reunião da Conferência Episcopal. Levou uma eternidade para chegar lá e os bispos lhe perguntaram por que perder todo aquele tempo. Casaldáliga respondeu: “Perdi o mesmo tempo que meus camponeses perdem para vir vender um saco de milho”.

A autenticidade da vida do bispo sempre foi tão evidente para aqueles com quem lidou e compartilhou seu apostolado, a começar pelos mais humildes, que se hoje fossem a gente comum, como na Igreja primitiva, que declarasse a santidade de uma pessoa, ele teria sido canonizado em vida.

Sua coerência como bispo pobre e despojado até o fim, seu olhar profundo, sua simplicidade natural, sua preocupação e sua luta constante pelos esquecidos da terra, por todos aqueles que sofriam perseguição, pelos sem nome e sem esperança, era o que conquistava a todos os que passavam por ele.

Talvez sua paixão pelos esquecidos também se devesse ao fato de que ele próprio se sentiu muitas vezes abandonado por sua própria Igreja, perdido entre os mais pobres do Brasil pobre.

Casaldáliga foi um símbolo e uma bandeira de luta e paz ao mesmo tempo durante toda a sua vida, sem nunca capitular, nem mesmo nos momentos mais duros, como quando assassinaram um padre que foi confundido com ele.

Houve um momento em que pensou em ir trabalhar na África mais pobre e abandonada. Quando me contou isso, já começava a sofrer os primeiros sintomas da doença de Parkinson:”Agora não posso mais. Não é justo que eu vá lhes dar a minha morte quando não lhes dei a minha vida”.

Não houve uma única causa no Brasil daquelas pessoas esquecidas às quais ele se havia entregado que não tivesse o selo de sua defesa. Para ele os últimos eram sempre os primeiros. Para aqueles que às vezes o censuravam pelo que consideravam um excesso de austeridade, ele os lembrava dos evangelhos nos quais se diz que Jesus era tão pobre que nem casa tinha.

Era crítico do que chamava de “eurocentrismo” da Igreja. “O Terceiro Mundo ainda não se sente em sua casa”, dizia. Contava que a Igreja era condescendente demais com os poderosos. E é verdade que não era bem visto quando assumia posições radicais, por exemplo, com os latifundiários que exploravam os camponeses ou os índios. Uma vez ele se recusou a batizar os filhos de um proprietário de terras considerado um tirano com seus camponeses.

Foi chamado uma vez pelo papa João Paulo II a Roma para prestar contas. Era a primeira vez que saía do Brasil, onde tinha prometido morrer. Nem sequer havia ido à Espanha quando sua mãe morreu. A visita ao papa polonês não foi serena. Lembro que deixou os palácios pontifícios com uma dor visível no rosto. O Papa o havia recriminado por seus “excessos” nas causas que defendia. E Casaldáliga não se dobrou. Recordou ao Papa que ele tinha um compromisso com Pedro, o apóstolo, e não com os emaranhados de poder do Vaticano.

Ele exibia seu amor pela poesia e gostava de escrever em verso. Em um de seus poemas, escreveu: “Eu morrerei de pé como as árvores”. Embora tenha passado os últimos anos em uma cadeira de rodas, a verdade é que Casaldáliga nunca se rendeu. Viveu sempre em pé, firme em suas convicções, proclamando uma Igreja pobre e dos pobres, de todos os oprimidos. Um de seus lemas, escrito em um poema, era o de “fazer do povo submisso um povo impaciente”.

Se Casaldáliga era o bispo dos esquecidos, dos sem-nome, ele também dizia que seu coração “estava cheio de nomes”:

No final do meu caminho me dirão:

E tu, viveste? Amaste?

E eu, sem dizer nada,

abrirei o coração

cheio de nomes.

Um par de sandálias para o peregrino, homenagem para Pedro Casaldáliga

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Memoria/Pedro-Passagem/51/48382

Pedro Passagem

Um par de sandálias para o peregrino, homenagem para Pedro Casaldáliga

 
09/08/2020 14:47

Marcos Lotufo

Créditos da foto: Marcos Lotufo

 

Talvez ele quisesse com sua passagem neste 8 de agosto de 2020, quando nossa gente assombrada com a irresponsabilidade e o crime reverencia cem mil mortos pela pandemia, resgatar-nos da indiferença que nos aprisiona. Assim fazem os profetas. Não permitem que palavra e gesto se distanciem. Testemunho na vida, testemunho na morte.

Num dos seus livros de poemas (2006) – uma antologia publicada pela Editora Fundação Perseu Abramo sob o título “Versos Adversos”, escrevi na apresentação:

O Verso e a Vida

“Alceu Amoroso Lima certa vez dividiu os poetas em duas categorias: a dos poetas solitários e a dos poetas solidários. É possível dizer que Pedro Casaldáliga se enquadra nas duas categorias. Sua “arquitetura de passarinho”, para lembrar a expressão com que Fernando Brant o batizou quando escrevíamos a Missa dos Quilombos, sempre envolvida nos conflitos de uma sociedade radicalmente desigual, não dispensa a solitária, íntima, mística contemplação do mundo. Não a contemplação estéril, que percebe os conflitos humanos de forma asséptica, mas a contemplação mística, corporal, de quem se identifica com os oprimidos e faz dela, sem metáfora, sua própria dor. Em suma, esse homem – qualquer que seja a categoria utilizada para definir seu ofício – nasceu irremediavelmente poeta.

É que o catalão Pedro Casaldáliga, esculpiu com férrea disciplina e minúcia – ao atravessar as lutas que trava – essa figura rara no mundo contemporâneo: o poeta, o militante, o profeta fundidos de modo indissolúvel no mesmo homem. A qualidade dos poemas deste pequeno volume (“Versos Adversos”) – comentada pelo professor Alfredo Bosi – traz consigo um outro valor: o valor do testemunho. Alguém já disse que 
“a poesia é a face impossível da verdade”. A vida de Pedro e os versos que escreve, de algum modo, conferem materialidade a essa intuição sobre o ofício de escrever. Se é verdade que a poesia – ainda que profana tende para a prece, a sua traduz um impulso vital de indignação contra a injustiça, que o aproxima de outro grande poeta que jamais publicou um livro de poemas: o Che; mas , ao mesmo tempo o torna capaz de exercitar com sensibilidade aquela contemplação solidária com o mundo em transe que lhe foi dado viver...

Esse homem luminoso, protegido por uma pequena casa de adobe às margens do Araguaia, prossegue nos enviando alento, estímulo, beleza como quem oferece tijolos para a construção de nossas utopias. E nos ensina a permanente lição de sua própria vida: se é verdade que não se transforma sem lutas uma sociedade, é verdade também que não se transforma qualquer sociedade sem poesia...”


Numa manhã de sábado de 1974, recebemos a visita de solidária de Pedro Casaldáliga. Éramos 42 prisioneiros políticos cumprindo pena no Carandiru, em S. Paulo. Nada em sua presença ou indumentária o distinguia como um príncipe da Igreja. Um bispo. Sua presença ali me comovia. Ele sabia que a maior parte das pessoas que visitava sequer partilhava com ele suas convicções e sua fé. Mas, ele era apenas um homem que estabelecia ali um laço entre homens perseguidos. Oferecemos a Pedro uma par de sandálias que confeccionamos na oficina do Pavilhão 5. Registrei esse encontro com...

*** 

Um par de sandálias para o peregrino

Para Pedro Casaldáliga

Um par de sandálias para o peregrino.
Seja quem for o peregrino que nos vem.
Um par de sandálias para proteger-lhe
os pés da áspera pedra dos caminhos.
Rústicas. Recortadas em couro e utopias.
Trabalhadas pelas mãos de perseguidos
que lavram, na sombra, a frágil matéria dos dias.

(Na larga história do tempo
a noite, sem saber, foi condenada
ao círculo perfeito da agonia:
mãe e coveira da manhã anunciada.)

Recolhemos sonhos, dores, esperanças,
polimos penas, tormentos, fúrias
e o impulso elementar de liberdade
que orientam os passos desse estranho peregrino.

Buscam o martírio? O martírio não se busca,
se vive. Como se vive
“la muerte que da sentido a mi vida...”
Percorrerão o pó dos caminhos,
a vasta geografia do drama urdido
pelos filhos de êxodo e da miragem.

Por nossas mãos que trabalharam
o couro, a borracha, as fivelas,
a fugitiva parcela de sonhos que cultivamos.
As sandálias do peregrino vão palmilhar
os desertos da alma, a impossível alegria do povo
para oferecer o bálsamo da palavra
e, quem sabe, os leites minados da lua
para nutrir como seiva
a esperança que nos mantém pulsando.
E para repetir com ele:
“me atengo a lo dicho: la esperanza”.

(Poema recuperado de uma carta manuscrita a meu irmão fr. Airton Pereira OP. Provavelmente enviada do Carandiru, 1974). Pedro Tierra.